O GRANDE DEUS MANIFESTOU O PODER DE SEU BRAÇO E DISPERSOU OS SOBERBOS
FECIT POTENTIAM IN BRACHIO SUO,
DISPERSIT SUPERBOS MENTE CORDIS SUI
Tendo a Bem-aventurada Virgem louvado e
glorificado, no versículo precedente, os efeitos da divina
Misericórdia, que se originam da Encarnação do Salvador, e se
estendem de geração em geração sobre aqueles que temem a Deus,
glorifica e exalta no presente versículo os prodígios do divino
Poder, que refulgem de maneira admirável no mesmo mistério.
O grande Deus, diz Ela, manifestou o
poder de seu braço. Qual é este braço? Santo Agostinho, São
Fulgêncio, São Boaventura dizem que é o Verbo encarnado, pois,
assim como é pelo braço que o homem faz as suas ações, é também
pelo seu Filho que Deus faz todas as coisas. Assim como o braço do
homem, diz Alberto Magno, origina-se do corpo, e a mão do corpo e do
braço: o Filho de Deus origina-Se do Pai, e o Espírito Santo
procede do Pai e do Filho.
Mas que significam as palavras: Fecit
potentiam? Significam que Deus operou poderosamente e produziu
efeitos admiráveis de seu poder, in bracnio suo, por seu Filho único
e seu Verbo encarnado, que é o seu braço. É por Ele que seu Pai
criou todas as coisas; por Ele que remiu o mundo inteiro; por Ele que
venceu o demônio; por Ele que triunfou do inferno; por Ele que nos
ofereceu o céu; por Ele que fez uma infinidade de outros milagres.
Nada faço de Mim mesmo, diz o Filho de Deus, mas é o meu Pai que,
permanecendo em Mim, faz tudo quanto Eu faço. Quantas maravilhas
opera a divina Providência nesse mistério da Encarnação! Que
milagre ver o Verbo encarnado sair das sagradas entranhas de uma
Virgem, sem afetar-Lhe a integridade! Quantos milagres na instituição
do Santíssimo Sacramento do Altar! Que milagre, enfim, do divino
Poder, ter elevado uma neta de Adão à dignidade infinita de Mãe de
Deus, e havê-la estabelecido Rainha de todos os Anjos e de todo o
universo!
Eis ainda duas coisas extremamente
consideráveis. A primeira, é nada haver em que o divino Poder mais
apareça do que na remissão e destruição do pecado, segundo as
palavras da santa Igreja:
Ó Deus, que manifestais a vossa
onipotência em perdoar-nos os pecados e em fazer-nos misericórdia,
mais que em qualquer outra coisa…
A razão é que a injúria feita a Deus
pelo pecado é tão grande, que só o poder infinito de uma imensa
bondade a pode perdoar; e que o pecado é um monstro tão horrendo
que só o braço do Onipotente o pode esmagar.
A segunda coisa na qual refulge
maravilhosamente esse adorável Poder, é a virtude e a força que dá
aos santos Mártires e a todas as pessoas que sofrem penas
extraordinárias, a fim de suportá-las generosa e cristãmente por
amor dAquele que por ele sofreu os tormentos e a morte da cruz.
Eis um pequeno resumo dos inúmeros
milagres que o braço onipotente do Verbo encarnado operou e opera
para glória de seu divino Pai, para honra de sua Mãe sacratíssima,
para salvação e santificação dos homens e para os excitar a
servi-lO e amá-lO de todo o coração, assim como Ele os ama de todo
o seu.
Mas quais são os soberbos de que fala
a Virgem Maria, ao dizer: Dissipou aqueles que se orgulhavam nos
pensamentos de seu coração? Os santos Padres dão diversas
explicações. Dizem alguns que esses soberbos são os anjos rebeldes
que Deus expulsou do céu e precipitou no inferno, por causa de seu
orgulho. Santo Agostinho escreve que, por esses soberbos, podem
entender-se os judeus que desprezaram o humilde advento de nosso
Salvador, motivo pelo qual foram condenados.
Mas, segundo o pensamento de vários e
graves autores, isso significa que, não só Deus dissipa e aniquila
os pensamentos malignos e perniciosos desígnios que os maus maquinam
contra Ele e contra os seus amigos; mas age também de tal modo que
todas as suas pretensões redundam em confusão própria, para glória
de sua divina Majestade, e para acréscimo da santidade e felicidade
eterna daqueles que O servem.
E o que é mais ainda, é que os
derrota com as suas próprias armas: Mente cordis sui. Pois Ele faz
com que as flechas despedidas por sua malícia contra Ele e os seus
filhos, voltem-se contra eles próprios. Faz com que os desígnios
deles sirvam para realização dos seus; faz com que as invenções
malignas de sua impiedade redundem em perdição própria e proveito
dos seus servos. Transforma os obstáculos que eles opõem às obras
de sua glória, em meios poderosíssimos de que se serve para
dar-lhes maior firmeza, maior perfeição e maior brilho.
Não se voltou a malícia de Satanás
contra o primeiro homem, contra ele mesmo para sua confusão, e para
proveito não só daquele homem mas de tôda a sua posteridade? Pois
Deus tirou tantos e tão grandes bens do mal em que a tentação do
demônio fez cair o primeiro homem, que a Igreja canta: O felix
culpa, ó feliz culpa.
Não serviu a maldita inveja e a má
vontade dos irmãos de José, como um meio da divina Providência
para elevá-lo até à participação no trono real do Egito, e para
dar-lhe o glorioso título de deus do Faraó?
De que serviu ao sucessor desse mesmo
Faraó a dureza e crueldade que exerceu contra o povo de Deus, senão
para abismá-lo, com todo o seu exército, no fundo do mar Vermelho,
e para melhor manifestar a proteção de Deus sobre os seus?
Enfim, pode dizer-se com verdade de
todos quantos perseguem e afligem os servos de Deus o que Santo
Agostinho disse do ímpio Herodes, quando mandou matar tantos
Inocentes, a fim de perder Aquele que viera para salvar todo o mundo:
"Eis uma coisa maravilhosa, é que o
ódio e crueldade desse ímpio inimigo de Deus e dos homens, foram de
muito maior proveito a essas bem-aventuradas crianças, que toda a
amizade que pudesse ter por elas e todos os favores que lhes pudesse
ter feito"
É assim que o braço onipotente do
Verbo encarnado derruba os empreendimentos dos soberbos, pelo próprio
pensamento de seus corações; e é à Virgem que cabe o papel de
esmagar a cabeça da serpente, isto é, esmagar o orgulho e a
soberba. Por isto, dEla se pode dizer com toda a razão: Tu gloria
Jerusalém, tu laetitia Israel…:
"Vós, a glória de Jerusalém, Vós
a alegria de Israel, Vós a honra do povo cristão, porque
combatestes generosamente e gloriosamente vencestes os inimigos de
sua salvação"
A primeira palavra: Vós, a glória de
Jerusalém, é a voz dos anjos, cujas ruínas foram reparadas por
meio de Maria. A segunda: Vós, a alegria de Israel, é a voz dos
homens, cuja tristeza se transformou em alegria por seu intermédio.
A terceira: Vós, a honra do povo cristão, é a voz das mulheres,
cuja infâmia foi apagada pelo fruto bendito de suas entranhas. A
quarta: Combatestes e gloriosamente vencestes, é a voz das almas
santas, prisioneiras nos limbos, que foram libertadas do cativeiro
pelo seu Filho bem-amado, o Redentor do mundo.