DERRUBOU OS PODEROSOS DE SEUS TRONOS E EXALTOU OS HUMILDES

DEPOSUIT POTENTES DE SEDE ET EXALTAVIT HUMILES

Chegando o tempo em que aprouve ao Pai das misericórdias cumprir o seu eterno desígnio de salvar o gênero humano, a sua divina Sabedoria quis empregar, para tal fim, meios aparentemente sem aptidão alguma e em nada conformes à elevação dessa grande obra. Quais são? Ei-los: envia seu Filho único a este mundo, em estado passível e mortal, e em tal abjeção e baixeza a que Ele mesmo diz: Sou um verme da terra e não homem; e traz por titulo de honra em suas Escrituras: o último de todos as homens.

Esse Pai adorável quer que seu Filho, nascido desde toda a eternidade em seu seio, e que é Deus como Ele, tome nascimento de uma Mãe, santíssima na verdade, mas tão abjeta e pequenina aos próprios olhos e aos olhos do mundo, que se considera como a última de todas as criaturas.

Além disso, esse Pai divino, querendo dar a seu Filho coadjutores e cooperadores para trabalharem com Ele na grande obra da redenção do universo, dá-Lhe doze pobres pescadores sem ciência, sem eloquência, e sem qualidades que os exaltem diante dos homens. Envia esses doze pescadores por toda a terra para destruir uma religião inteiramente conforme às inclinações humanas e enraizada desde muitos anos nos corações de todos os homens, e para estabelecer outra, completamente nova, oposta à primeira é contrária a todos os sentimentos da natureza.

Os doze pobres pescadores se vão por todo o mundo para pregar e estabelecer a nova religião, e para destruir a primeira. Mas como são recebidos? Todo o mundo se ergue contra eles, grandes e pequenos, ricos e pobres, homens e mulheres, sábios e ignorantes, filósofos, sacerdotes dos falsos deuses, reis e príncipes; todos os homens em geral, empregam toda a sua habilidade para opor-se à pregação do Evangelho que os doze pescadores se esforçam por publicar. São capturados, lançados nas prisões, acorrentados de pés e mãos, tratados como celerados e feiticeiros, açoitados, esfolados vivos, queimados, lapidados, crucificados, em uma palavra, submetidos aos mais atrozes suplícios.

E que acontece? Por fim, alcançam a vitória, triunfam gloriosamente dos grandes, dos poderosos, dos sábios e de todos os monarcas da terra. Aniquilam a religião, ou antes, a irreligião e a abominável idolatria que o inferno estabelecera por toda a terra, e estabelecem por todo o mundo a fé e a religião cristãs. Enfim, permanecem senhores do universo e Deus lhes dá o principado da terra: Constituit eos principes super omnem terram. O Senhor derruba os tronos dos reis e as cátedras dos filósofos; dá o primeiro império do mundo a um pobre pescador, elevando-o a tão alto grau de poder e glória, que os reis e os príncipes consideram uma grande honra beijar o pó de seu sepulcro e os pés de seus sucessores. Que é tudo isso, senão a realização da profecia da Bem-aventurada Virgem: Depôs do trono os poderosos, e elevou os humildes?…

Observai que, embora essas palavras, assim coas outras contidas nesse cântico,- expressem um tempo passado: Deposuit, abrangem todavia o passado, o presente e o futuro, porque são pronunciadas por espírito profético. E com efeito, a realização dessa profecia apareceu manifestamente nos séculos passados, e aparecerá cada vez mais- nos séculos futuros, até o fim do mundo.