AOS FAMINTOS ENCHEU DE BENS E AOS RICOS DESPEDIU DE MÃOS VAZIAS
ESURIENTES IMPLEVIT BONIS ET DIVITES
DIMISIT INANES
Essas palavras da Bem-aventurada
Virgem, segundo as explicações dos santos Doutores, aplicam-se aos
bons e aos maus anjos, aos anjos humildes e aos anjos soberbos, aos
anjos obedientes a Deus e ao anjos revoltados contra Ele. Os bons
anjos reconhecem que Deus os tirou do nada e que de sua divina
bondade receberam todas as perfeições que a Deus se atribuem,
rendendo-Lhe homenagem por elas e só reservando para si o nada.
Razão pela qual Deus os faz passar do estado de graça, em que se
acham, ao estado de glória, cumulando-os com os bens inestimáveis
que se encerram na bem-aventurada eternidade.
Os maus anjos, ao contrário,
contemplando as excelências com que Deus os ornou em sua criação,
nelas se comprazem e delas se apropriam e glorificam como se as
possuíssem por si mesmos, por uma soberba e uma insuportável
arrogância que obrigam a divina justiça a despojá-los de todas as
suas perfeições e claridade, reduzi-los a uma extrema miséria e
pobreza, e precipitá-los no fundo do inferno.
Santo Agostinho aplica essas mesmas
palavras, Esurientes, aos humildes, e Divites, aos soberbos. Os
humildes, diz ele, reconhecem que nada possuem de si mesmos e que têm
necessidade extrema do auxílio e da graça do céu; mas os soberbos
se persuadem de que estão cheios de graça e de virtude. Por isso,
Deus se compraz em derramar seus dons sobre aqueles e em retirá-los
destes.
Essas mesmas palavras se entendem
ainda, conforme o pensamento de vários santos Doutores, a respeito
de todos os pobres que têm o coração desapegado das coisas da
terra, e que amam e abraçam a pobreza por amor dAquele que,
possuindo todos os tesouros da Divindade, quis fazer-Se pobre por
nosso amor, a fim de nos dar a posse das riquezas eternas. Mas, é
necessário entendê-las especialmente dos que se despojaram
voluntariamente de todas as coisas, pelo santo voto de pobreza, a fim
de imitar mais perfeitamente o nosso divino Salvador e sua Mãe
santíssima, em seu estado de pobreza, pobreza tão grande que o
Filho de Deus pronunciou as palavras: As raposas têm seus covis, as
aves do céu os seus ninhos; mas o Filho do homem não tem onde
repousar a cabeça.
Eis outra explicação das
supramencionadas palavras: Esurientes, etc., a qual é de grande
consolação. É ainda uma profecia da sacrossanta Mãe de Deus, a
qual compreende uma conversão extraordinária que se deve realizar
por todo o mundo, conversão dos infiéis, dos judeus, dos hereges e
dos falsos cristãos, conversão predita e anunciada desde muito
tempo pelo oráculo das santas Escrituras. Essa grande conversão foi
revelada pelo Espírito Santo, não só aos Profetas da antiga Lei,
mas também aos mais santos e santas da Lei nova. Não nos assegura o
grande Apóstolo São Paulo que todos os judeus se converterão e que
sua conversão será seguida pela de todo o mundo? A esse respeito,
rogo-vos considerardes que não existem no mundo homens mais opostos
a Deus, mais contrários ao nosso Salvador, mais inimigos de sua
religião, e por conseguinte mais afastados da conversão, que esses
pérfidos. Se, não obstante tudo isso, Deus lhes deve fazer essa
misericórdia, há grandes motivos para crer que não a recusará a
todos os outros homens…
Então se realizará a grande profecia
da Rainha dos Profetas: Esurientes implevit bonis; não talvez em
toda a perfeição que seria para desejar, e de modo a não restar
pessoa alguma na terra sem o conhecimento e o amor de Deus. Mas,
embora essa conversão não seja talvez geral, será todavia
magnífico e delicioso banquete para todos quantos têm uma grande
fome e ardente sede da glória de Deus e da salvação das almas.
Oh! Que grandes tesouros encerra a
pobreza voluntária, pois que- disse Nosso Senhor: Bem-aventurados os
pobres, tanto que deles é o reino dos céus. Oh! Quão perigosa é a
posse das riquezas, pois disse Aquele que é a verdade eterna:
"Ai de vós, ó ricos, porque tendes
aqui a vossa consolação"
Por isso, se amais as riquezas, não
ameis as falsas riquezas da terra; amai porém as verdadeiras
riquezas do céu, que são o temor e o amor de Deus, a caridade para
com o próximo, a humildade, a obediência, a paciência, a pureza e
as outras virtudes cristãs que vos estabelecerão na posse de um
eterno império…