ACOLHEU A ISRAEL, SEU SERVO, LEMBRADO DA SUA MISERICÓRDIA
SUSCEPIT ISRAEL PUERUM SUUM RECORDATUS
MISERICORDIÆ SUÆ
O Deus onipotente fez duas criaturas no
princípio do mundo, o anjo e o homem: o anjo no céu, o homem na
terra. Ambos foram tão ingratos que se revoltaram contra o seu
Criador: o anjo pela soberba, e o homem, pela desobediência ao
mandamento de seu Deus. O pecado do anjo, sendo um pecado de soberba,
foi tão grande diante de Deus que sua divina justiça O obrigou a
expulsá-lo do paraíso e lançá-lo no inferno.
Mas a sua misericórdia, vendo que o
homem caíra no pecado pela tentação e sedução de Satanás, teve
compaixão dele e tomou a resolução de retirá-lo do estado
miserável a que se achava reduzido, e até se comprometeu a isso
pela promessa que lhe fez. E todos os gravíssimos e inúmeros
pecados cometidos depois dessa promessa, pelos judeus, pelos gentios
e por todos os homens, não foram capazes de impedir-lhe a execução;
mas retardaram-na de muitos séculos, durante os quais toda a raça
de Adão, condenada e reprovada por Deus, achava-se mergulhada em
abismo de trevas e redemoinho de males e inexplicáveis, sendo-lhe
impossível sair por si mesma.
Mas finalmente, o Filho de Deus se
lembrou de suas misericórdias, que parecia ter esquecido havia mais
de quatro mil anos: Recordatus misericordiae suae, e da promessa que
fizera a Adão, a Abraão, a Davi e a outros Profetas mais, de
retirar o gênero humano desse abismo de males. Ele mesmo d^e do céu
ao seio virginal da divina Maria, onde e à sua divina Pessoa a
natureza tão miserável que abandonara, faz-Se homem para salvar
todos os homens que quiserem pertencer ao número dos verdadeiros
israelitas, isto é, que quiserem crer nEle e amá-lO.
Eis o que a Bem-aventurada Virgem nos
anuncia pelas palavras: Suscepit Israel puerum suum, recordatus
misericordiae suae. É a conclusão de seu divino Cântico; uma
recapitulação dos inefáveis mistérios nele encerrados; é o fim
da Lei e dos Profetas; a realização das sombras; a consumação das
figuras. E o mesmo que se Ela dissesse: Eis o efeito da predição
dos Profetas; eis o que as sombras assinalaram; eis o que os
Patriarcas esperaram; eis o que me faz cantar do mais profundo de meu
coração: Magnificat anima mea Dominum. Eis o grande motivo de
minhas alegrias e de meus transportes: Et exultavit spiritus meus in
Deo salutari meo. Eis o que fará com que todas as nações me
proclamem Bem-aventurada. Eis o que exaltará os humildes e
confundirá os soberbos: Suscepit Israel puerum suum.