A SUA MISERICÓRDIA SE ESTENDE DE GERAÇÃO EM GERAÇÃO SOBRE AQUELES QUE O TEMEM
ET MISERICORDIA EIUS A PROGENIE IN
PROGENIES TIMENTIBUS EUM
Depois de ter glorificado a Deus pelos
favores infinitos com que A cumulou, e de ter feito a admirável
profecia: Todas as gerações me chamarão Bem-aventurada, profecia
que compreende um mundo de maravilhas que o Onipotente operou e há
de operar em todos os séculos e por toda a eternidade, para tomar
essa Virgem Mãe gloriosa e venerável em todo o universo: eis uma
outra profecia, cheia de consolação para todo o gênero humano,
especialmente para aqueles que temem a Deus, pois essa divina Maria
nos declara que a misericórdia de Deus se estende de geração em
geração sobre aqueles que O temem.
Qual é essa misericórdia? É o nosso
boníssimo Salvador, diz Santo Agostinho. Por isto, o Pai eterno é
chamado Pai das misericórdias, porque Pai do Verbo encarnado, que é
a própria misericórdia. É desta misericórdia que o régio profeta
pedia a Deus, em nome de todo o gênero humano, a vinda a este mundo
pelo mistério da Encarnação, quando dizia:
"Mostrai-nos, Senhor, a vossa
misericórdia, e dai-nos o vosso Salvador" – Ostende nobis,
Domine, misericordiam tuam, et salutare tuum da nobis
Pois, como o Verbo encarnado é todo
amor e todo caridade, é também todo misericórdia. Deus é sempre
misericordioso por natureza e por essência, diz São Jerônimo, e
sempre pronto a salvar por sua clemência os que não pode salvar por
sua justiça. Mas somos tão desgraçados e tão inimigos de nós
mesmos que, quando a misericórdia se nos apresenta para salvar-nos,
nós lhe voltamos as costas e a desprezamos.
É pela Encarnação que o Filho de
Deus exerceu a sua misericórdia, segundo as palavras do Príncipe
dos Apóstolos:
"Ele nos regenerou segundo a sua
grande misericórdia" (I Pedro, I, 3)
Pois todos os efeitos de misericórdia
que o Salvador operou sobre os homens, desde o início do mundo até
agora, e operará por toda a eternidade, procederam e procederão do
adorável mistério de sua Encarnação, como de sua fonte e
princípio primeiro. É por isso que Davi, pedindo perdão de seus
pecados, ora desta maneira:
"Ó meu Deus, tende piedade de mim
segundo a vossa grande misericórdia"
Três coisas são necessárias à
misericórdia. A primeira é ter compaixão da miséria alheia; pois
é misericordioso quem traz no coração, por compaixão, as misérias
dos miseráveis. A segunda, é ter uma grande vontade de socorrê-los
em suas misérias. A terceira, é passar da vontade ao efeito. Ora, o
nosso bom Redentor encarnou-Se para exercer em nós a sua grande
misericórdia.
Pois, fazendo-se homem, e tomando um
corpo e um coração capaz de sofrimento e dor como o nosso, Ele se
encheu de tal compaixão de nossas misérias e as levou em seu
coração com tanta dor, que não há palavras para exprimi-la. Pois,
de um lado, tendo um amor infinito por nós, como um pai boníssimo
por seus filhos; e, de outro lado, tendo sempre diante dos olhos
todos os males do corpo e do espírito, todas as angústias, todas as
tribulações, todos os martírios e todos os tormentos que seus
filhos deveriam padecer até o fim do mundo; seu Coração boníssimo
foi dilacerado por mil dores, extremamente sensíveis e penetrantes,
as quais Lhe teriam dado mil vezes a morte, se o seu amor, mais forte
que a morte, não Lhe houvesse conservado a vida, a fim de
sacrificá-la por nós na cruz.
Na verdade, o que não fez Ele e o que
não sofreu para livrar-nos efetivamente de todas as misérias
temporais e eternas nas quais nos tinham mergulhado os nossos
pecados? Todas as ações de sua vida, e de uma vida de trinta e
quatro anos, e de uma vida divinamente humana e humanamente divina;
todas as virtudes que praticou, todos os passos e peregrinações que
fez sobre a terra, todos os trabalhos que passou e todas as
humilhações, privações e mortificações que suportou; todos os
seus jejuns, preces, vigílias, pregações; todos os seus
sofrimentos, chagas, dores, a sua morte crudelíssima e cheia de
opróbrio, o seu precioso Sangue derramado até à última gota;
todas essas coisas, digo eu, não foram todas essas coisas
empregadas, não só para libertar-nos de toda espécie de males, mas
também para dar-nos a posse de um império eterno, cheio de uma
imensidade de glória, grandezas, alegrias, felicidades e bens
inconcebíveis e inefáveis?
Mas que significam as palavras
seguintes: Sua misericórdia se estende de geração em geração
sobre aqueles que O temem? Significam, segundo a expressão dos
santos Doutores, que, assim como o nosso Salvador encarnou-Se e
morreu por todos os homens, derrama também os tesouros de suas
misericórdias sobre todos aqueles que não lhes opõem obstáculos,
mas que O temem. De modo que, assim como me é uma fonte inexaurível
de graça e de misericórdia, acha também um soberano prazer em
comunicá-las continuamente a seus filhos, em todo tempo e em todo
lugar.
Mas me não quis fazer inteiramente só
essa grande obra. Pois, além de fazer todas as coisas com o seu Pai
e o seu divino Espírito, quis ainda associar a sua Mãe santíssima
nas grandes obras de sua misericórdia. Não é bom que o homem
esteja só, disse Deus, quando quis dar a primeira mulher ao primeiro
homem: façamos-lhe um adjutório semelhante a ele. Assim, o novo
homem, que é Jesus, quer ter um adjutório que é Maria, e seu Pai
eterno Lha concede para ser sua coadjutora e cooperadora na grande
obra da salvação do mundo, que é a obra de sua grande
misericórdia.
Maria é pois a administradora da
misericórdia, porque Deus A encheu inteiramente de uma bondade, de
uma doçura, de uma liberalidade extraordinária e de um poder sem
igual, a fim de que Ela queira e possa assistir, proteger, amparar e
consolar todos os aflitos, todos os miseráveis, e todos quantos a
Ela recorrerem em suas necessidades.
É o que Ela faz continuamente para com
os indivíduos, os reinos, as províncias, as cidades, as casas e até
para com todo o mundo, segundo as palavras de um dos mais santos e
mais sábios Padres da Igreja, São Fulgêncio, que vivia há cerca
de mil e duzentos anos:
"Há muito que o céu e a terra se
teriam reduzido ao nada de que foram tirados, se Maria os não
sustentasse"