A MINHA ALMA GLORIFICA O SENHOR
MAGNIFICAT ANIMA MEA DOMINUM
Esse primeiro versículo contém quatro
palavras apenas, mas cheias de grandes mistérios; consideremo-las
atentamente e com espírito de humildade, respeito e piedade, para
que nos animemos a glorificar a Deus com a Bem-aventurada Virgem,
pelas grandes e maravilhosas coisas que operou nEla, por Ela, para
Ela e também para nós.
A minha alma glorifica o Senhor:
observai que a Bem-aventurada Virgem não diz Eu glorifico, mas A
minha alma glorifica o Senhor, para demonstrar que Ela O glorifica do
mais íntimo do seu coração e em toda a extensão de suas potências
interiores. Não O glorifica somente com os lábios e a língua, mas
emprega todas as faculdades de sua alma, o entendimento, a memória,
a vontade e todas as potências das partes superior e inferior de sua
alma.
E não O glorifica somente em seu nome
particular, nem para satisfazer às infinitas obrigações que tem de
fazê-lo por motivo dos inconcebíveis favores que recebeu de sua
divina bondade; mas glorifica-O em nome de todas as criaturas e por
todas as graças que Ele concebeu a todos os homens, fazendo-Se homem
para deificá-los e para salvar a todos, se quiserem corresponder aos
desígnios do inconcebível amor que tem por eles.
A minha alma glorifica o Senhor: qual é
esta alma que a Bem-aventurada Virgem chama a sua alma? Respondo, em
primeiro lugar, que acho num grande autor, o Cardeal Marcos Vigier, a
opinião de que essa alma da Bem-aventurada Virgem, é o seu Filho
Jesus, que é a alma de sua alma.
Em segundo lugar, respondo que essas
palavras, anima mea, compreendem primeiro, a alma própria e natural
que anima o corpo da sagrada Virgem; segundo, a alma do divino Menino
que Ela traz no seio, alma unida tão estreitamente à sua que ambas
formam, de certo modo, uma só alma, pois a Criança que se acha em
suas entranhas maternais é um só com a sua Mãe. Terceiro, que
essas palavras, anima mea, assinalam e compreendem todas as almas
criadas à imagem e semelhança de Deus, que existiram, existem e
existirão em todo o universo. Pois, se São Paulo nos assegura que o
Pai eterno "nos deu, com seu Filho, todas as coisas", é evidente
que, dando-O à sua divina Mãe, deu-lhe também todas as coisas.
Razão pela qual todas as almas Lhe pertencem. E como a Virgem não
ignora, e conhece também perfeitamente a sua obrigação de utilizar
tudo quanto Deus Lhe deu para honrá-lO e glorificá-lO, quando
pronuncia as palavras A minha alma glorifica o Senhor, considerando
todas as almas que existiram, existem e existirão como almas que Lhe
pertencem, Ela a todas abrange para uni-las à alma de seu Filho e à
sua, e para empregá-las no louvor, exaltação e glorificação
d'Aquele que desceu do Céu e Se encarnou em seu seio virginal para
operar a grande obra da Redenção.
A minha alma glorifica o Senhor: qual é
este Senhor? É o Senhor dos senhores, e o Senhor soberano e
universal do céu e da terra. Este Senhor é o Pai eterno, este
Senhor é o Filho, este Senhor é o Espírito Santo, três Pessoas
divinas que são um só Deus e Senhor, e que têm uma só e mesma
essência, poder, sabedoria, bondade e majestade. A Santíssima
Virgem louva e glorifica o Pai eterno por have-lA associado a Si em
sua divina paternidade, tornando-A Mãe do mesmo Filho de quem é o
Pai. Ela glorifica o Filho de Deus por ter sido de sua vontade
escolhe-lA por Mãe e ser o seu verdadeiro Filho. Glorifica o
Espírito Santo, por ter querido realizar nEla a maior de suas obras,
isto é, o mistério adorável da Encarnação. Ela glorifica o Pai,
o Filho e o Espírito Santo pelas infinitas graças que fizeram e têm
o desígnio de fazer a todo o gênero humano.