TRATADO DA VERDADEIRA DEVOÇÃO A NOSSA SENHORA



Obra mestra de São Luís Maria Grignion de Montfort (1673-1716), o Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem não é um livro qualquer de piedade, como tantos outros. Nele o Santo demonstra como a devoção a Nossa Senhora é condição necessária para a implantação do Reino de Cristo na terra: "Foi pela Santíssima Virgem Maria que Jesus Cristo veio ao mundo, e é também por Ela que Ele deve reinar no mundo" (n. 1), afirma o Autor, logo no início da Introdução. Trata-se de um escrito de larga visão e de alcance histórico muito amplo. O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, incansável apóstolo mariano, o tinha como livro de cabeceira, tendo feito o seguinte comentário a seu respeito: "É uma verdadeira tese, com lampejo de polêmica. A argumentação é sólida, substancial, profunda. Jamais se nota nele que um arroubo de amor venha perturbar a indefectível serenidade e justeza do pensamento. [...] Todas as palavras têm seu valor exato e calculado. E todos os conceitos geram convicções claras e profundas, que não despertam apenas sobressaltos de sensibilidade em momentos em que nosso temperamento se mostra propício a isto, mas também ideias luminosas e substanciosas, que geram aquele amor sério e sólido, capaz de sobreviver heroicamente às mais implacáveis aridezes da vida espiritual. [...] Sua argumentação, se é lúcida, está longe de ser fleumática. Pelo contrário, é apaixonada, ardente, comunicativa. A cada demonstração vitoriosa, seu escrito toma acentos de gritos de triunfo e de júbilo. Sua linguagem lembra a de São Paulo. [...] Se há um trabalho em que se compreende aquela 'luz intelectual cheia de amor', de que fala Dante, esse é o de Grignion de Montfort. Lê-lo, é facilitar poderosamente o progresso na vida espiritual. Difundi-lo, é acumular coroas de méritos no Reino dos Céus".1 A escravidão de amor a Nossa Senhora preconizada pelo Santo visa alcançar a união mais íntima que alguém pode ter com a Mãe de Deus. Não descobriremos outra devoção que vincule mais uma pessoa a Nossa Senhora. Tal é a nota característica do método ensinado por São Luís Grignion. O caráter profético da obra se encontra na previsão do Santo quanto ao advento do Reino de Maria e o surgimento dos "apóstolos dos últimos tempos" (n. 58), ambos prenunciados com ardentes palavras: "Ah! quando virá esse tempo feliz em que [...] as almas respirarão Maria como os corpos respiram o ar? [...] Quando virá esse tempo feliz e esse século de Maria, em que várias almas escolhidas e obtidas do Altíssimo por Maria, perdendo-se a si mesmas no abismo do interior d'Ela, tornar-se-ão cópias vivas de Maria, para amar e glorificar Jesus Cristo?" (n. 217). A tais almas especialmente eleitas, os apóstolos dos últimos tempos, é que mais propriamente o Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem foi escrito. Ciente de que o Segredo de Maria, enunciado por ele nesta devoção, não será compreendido pela maioria dos fiéis, pergunta-se então: "Uns se deterão no que ela tem de exterior [...]. Outros, em pequeno número, entrarão em seu interior, mas subirão apenas um degrau. Quem subirá ao segundo? Quem chegará até o terceiro? Enfim, quem se identificará com ela permanentemente? Somente aquele a quem o Espírito de Jesus Cristo revelar este segredo" (n. 119). Em uma França influenciada pela heresia jansenista, não é de se estranhar ter sido São Luís Grignion incompreendido e perseguido pelo próprio clero da época, ficando reduzido a pregar apenas em duas dioceses, Luçon e La Rochelle, na região da Vendeia. Até mesmo o monumental Calvário de pedra promovido por ele em Pontchâteau, com imagens em tamanho natural, foi demolido por ordem do rei Luís XIV. Nada, porém, o impediu de divulgar o seu método de devoção a Nossa Senhora, que se destinava de modo particular aos séculos futuros. Faleceu ele aos quarenta e três anos de idade, em 1716, durante uma pregação em Saint-Laurent-sur-Sèvre, onde se encontram seus restos mortais. O Tratado é, em última análise, um misto de lógica e de fogo, que faz dele uma obra-prima. Em torno da mediação universal de Maria, São Luís Maria Grignion de Montfort construiu uma mariologia que é o maior monumento de todos os séculos à Virgem Mãe de Deus. Um belo complemento ao Tratado é a Oração Abrasada, na qual o Santo pede com ardor a vinda do Reino de Maria. Daí a oportunidade de sua publicação como fecho deste volume.

1. Foi pela Santíssima Virgem Maria que Jesus Cristo veio ao mundo, e é também por Ela que Ele deve reinar no mundo.
2. Maria Se manteve muito oculta durante sua vida, razão pela qual o Espírito Santo e a Igreja A chamam Alma Mater: Mãe escondida e secreta. Sua humildade foi tão profunda que, para Ela, não houve na terra atrativo mais poderoso e mais constante do que Se esconder de Si mesma e de toda criatura, para ser conhecida apenas por Deus.
3. Para atendê-La nos pedidos que Ela Lhe fez de escondê-La, empobrecê-La e humilhá-La, Deus Se comprouve em ocultá-La na sua concepção, no seu nascimento, na sua vida, nos seus mistérios, na sua ressurreição e assunção, aos olhos de quase toda criatura humana. Seus próprios pais não A conheciam, e os anjos se perguntavam com frequência uns aos outros: "Quem é esta?" (Ct 8, 5). Pois o Altíssimo lha escondia; ou, se lhes revelava algo a respeito d'Ela, ocultava-lhes infinitamente mais.
4. Deus Pai consentiu que Ela não fizesse milagre algum na sua vida, pelo menos visíveis, embora Lhe tivesse dado poder para tanto. Deus Filho consentiu que Ela quase não falasse, embora Lhe tivesse comunicado sua sabedoria. Deus Espírito Santo consentiu que seus Apóstolos e Evangelistas falassem d'Ela muito pouco e apenas o necessário para tornar Jesus Cristo conhecido, embora fosse Ela sua fiel esposa.
5. Maria é a obra-prima por excelência do Altíssimo, cujo conhecimento e posse Ele reservou para Si. Maria é a Mãe admirável do Filho, que Se comprouve em humilhá-La e escondê-La durante sua vida, para favorecer sua humildade, tratando-A por mulher, como se fosse uma estranha, embora no seu coração Ele A estimasse e amasse mais que todos os anjos e homens. Maria é a fonte selada e Esposa fiel do Espírito Santo, onde só Ele tem entrada. Maria é o santuário e repouso da Santíssima Trindade, onde Deus Se encontra mais magnífica e divinamente do que em qualquer outro lugar do universo, sem excetuar sua morada sobre os querubins e os serafins. E não é permitido a criatura alguma, por mais pura que seja, entrar nesse santuário, a não ser por um grande privilégio.
6. Digo com os santos: a divina Maria é o paraíso terrestre do novo Adão, onde Ele Se encarnou por obra do Espírito Santo, para aí operar maravilhas incompreensíveis. É o grande e o divino mundo de Deus, onde há belezas e tesouros inefáveis.
É a magnificência do Altíssimo, onde Ele escondeu, como em seu seio, seu Filho único, e n'Ele tudo o que há de mais excelente e precioso. Oh! oh! Que grandes e misteriosas coisas esse Deus poderoso realizou nesta criatura admirável, como Ela própria foi obrigada a dizê-lo, apesar de sua profunda humildade: "O poderoso fez em Mim grandes coisas" (Lc 1, 49). O mundo não as conhece, porque é disso incapaz e indigno.
7. Os santos disseram coisas admiráveis desta santa cidade de Deus, e nunca foram tão eloquentes nem tão felizes – segundo eles próprios confessam –, do que quando falaram d'Ela. Depois disso, proclamam que a altura de seus méritos, elevados por Ela até o trono da Divindade, não se pode conhecer; que a largura de sua caridade, mais extensa que a terra, não se pode medir; que a grandeza de seu poder, exercido até sobre o próprio Deus, não se pode compreender; e, enfim, que a profundeza de sua humildade e de todas as suas virtudes e suas graças é um abismo insondável. Ó altura incompreensível! Ó largura inefável! Ó grandeza desmedida! Ó abismo impenetrável!
8. Todos os dias, de um extremo da terra ao outro, no mais alto dos céus, no mais profundo dos abismos, tudo proclama e publica a admirável Maria. Os nove coros dos anjos, homens e mulheres de todas as idades, condições e religiões, bons e maus, e até os demônios, são obrigados a proclamá-La bem-aventurada, quer queiram ou não, pela força da verdade. Todos os anjos nos céus proclamam-Lhe incessantemente, como diz São Boaventura: Santa, santa, santa Maria, Mãe de Deus e Virgem; e Lhe dirigem milhões e milhões de vezes, todos os dias, a saudação angélica: Ave Maria, etc., prosternando-se diante d'Ela e Lhe pedindo a graça de honrá-los com algumas de suas ordens. O próprio São Miguel – disse Santo Agostinho –, embora seja o príncipe de toda a corte celeste, é o mais zeloso em Lhe prestar e a fazer com que Lhe rendam toda sorte de homenagens, sempre atento para ter a honra de ser enviado por Ela em auxílio de qualquer um dos seus servidores.
9. Toda a terra está cheia de sua glória, particularmente entre os cristãos, que A tomam por padroeira e protetora em vários reinos, províncias, dioceses e cidades. Várias catedrais estão consagradas a Deus sob sua invocação. Não existe igreja sem altar em sua honra, não há região nem cantão sem alguma de suas imagens milagrosas, junto às quais os males de qualquer espécie são curados e toda sorte de bens são alcançados. Quantas confrarias e congregações em sua honra! Quantas ordens religiosas sob seu nome e sua proteção! Quantos confrades e irmãs de todas as confrarias e quantos religiosos e religiosas de todas as comunidades publicam seus louvores e anunciam suas misericórdias! Não há criança que, balbuciando a Ave Maria, não A louve; não há pecadores que, em seu próprio endurecimento, não tenham alguma centelha de confiança n'Ela; não há nem mesmo demônio nos infernos que, temendo-A, não A respeite.
10. Depois disso, cumpre dizer com os santos: Nunca nos saciamos de Maria. Ela não foi ainda suficientemente louvada, exaltada, honrada, amada e servida. Ela merece ainda mais louvores, respeitos, amores e serviços.
11. Depois disso, é preciso dizer com o Espírito Santo: Toda a glória da filha do Rei lhe vem do interior, como se toda a glória exterior que Lhe dão à porfia o Céu e a terra nada fosse em comparação da que recebe interiormente pelo Criador. Esta glória não é conhecida das pequenas criaturas, que não podem penetrar no segredo dos segredos do Rei.
12. Depois disso, é preciso exclamarmos com o Apóstolo: Nem os olhos viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração do homem compreendeu as belezas, as grandezas e excelências de Maria, o milagre dos milagres da graça, da natureza e da glória (Cf. 1 Cor 2, 9). Se quereis compreender a Mãe, disse um santo, compreendei o Filho. É uma digna Mãe de Deus: Que aqui se cale toda língua.
13. Meu coração ditou tudo o que acabo de escrever, com uma alegria particular, para mostrar que a divina Maria tem sido desconhecida até o momento, e esta é uma das razões pelas quais Jesus Cristo não é conhecido como deve ser. Se é certo, portanto, que o conhecimento e o reinado de Jesus Cristo se estabelecerão no mundo, tal não será senão uma consequência necessária do conhecimento e do reinado da Santíssima Virgem Maria, que O trouxe ao mundo na primeira vez e O fará brilhar na segunda.
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