LETRA V

Conta a lenda que no século XII uma imagem, hoje no santuário da freguesia de Vagos, perto de Aveiro, foi resgatada de um navio françês que ali naufragou. No dia seguinte, porém, não encontraram já a imagem. Só reapareceu após a Virgem aparecer em sonho a um morador e indicar o local onde deveria ser construída uma ermida. Os diversos milagres atribuídos a Nossa Senhora de Vagos fizeram com que a devoção se difundisse rapidamente. Durante uma grande seca na região, o povo fez uma procissão e a promessa de distribuir alimentos aos pobres. A Virgem intercedeu e veio a chuva. Até hoje permanece a tradição de distribuir pão na praça do santuário.
ORAÇÃO:
Vós jamais deixastes o vosso povo sem assistência, caridosa Mãe. No momento da seca, intercedestes junto de Deus para que viesse a chuva, generosa bênção que faz brotar da terra o nosso sustento. Do mesmo modo, intercedei hoje por todos nós, a fim de que não falte o pão de cada dia, nem a caridade no nosso coração para partilhar com os menos favorecidos. Ámen.

A cidade indiana de Vailankanni foi palco de uma aparição de Nossa Senhora, em 1550. Enquanto bebia água, um jovem pobre viu alguém que lhe pedia um pouco para matar a sede. O jovem deu-lhe um copo de água. Ao chegar a casa, percebeu que a vasilha continuava cheia e a água se transformara em leite fresco. Algumas semanas depois, Nossa Senhora apareceu novamente, a um jovem paralítico, e restituiu-lhe os movimentos. A basílica de Vailankanni, o maior santuário católico da Índia, é hoje centro de peregrinações.
ORAÇÃO:
Virgem de Vailankanni, no sermão da montanha o vosso Filho disse: «Bem-aventurados os pobres, porque deles é o Reino dos Céus.» Continuai sempre a acompanhar os pobres do mundo, para que nunca lhes falte alimento, saúde e fé. Ámen.

Desde o século VIII, há referências a esta devoção, à qual são dedicadas várias igrejas em Portugal. Em Erra, onde existe uma antiga ermida dedicada a Nossa Senhora do Vale, é tradição fazer um colar com cinco folhas de aroeira e usá-lo para pedir a intercessão da Virgem. São chamados "milagrosos colares de Nossa Senhora do Vale", em referência a um milagre ocorrido com os frades franciscanos da cidade. Uma imagem por diversas vezes apareceu no topo de uma aroeira próxima do mosteiro até que construíram sobre a árvore uma ermida, onde os devotos costumam deixar o colar após alcançar a graça, normalmente curas.
ORAÇÃO:
Querida Senhora do Vale, pelo vosso milagroso colar, protegei-nos de todos os males e curai todas as nossas enfermidades. Ele é o elo que nos liga ao vosso amor, que nos fortalece e nos aproxima de vós. Jamais nos abandoneis, querida Mãe. Concedei-me a graça que agora vos peço (fazer o pedido). Ámen.

Por volta do ano 800, foi construído em Valfleury, em França, um santuário dedicado a Nossa Senhora. A imagem de Maria com Jesus ao colo foi esculpida em madeira no século IX e encontra-se sobre uma pedra chamada "Assento da Virgem". Nesse local sagrado ocorreu uma aparição. Desde o século XVII, está sob os cuidados da Congregação da Missão (religiosas Lazaristas).
ORAÇÃO:
Ao longo dos séculos, recebestes em França especial devoção e muitos títulos aí surgiram para demonstrar o amor desse povo, ó querida Mãe. Que os franceses nunca se afastem de vós e que não sejam seduzidos pelas tendências que negam a fé em Jesus Cristo. Ámen.

Devoção de antiquíssima tradição na cidade do Porto, tanto que em 1517 foi incluída no brasão da cidade, entre duas torres de um castelo. A origem da invocação está ligada a França. Segundo a tradição, no final do século X aportou à foz do rio Douro uma armada, oriunda da Gasconha, em França, que era conduzida por D. Moninho Viegas. Viajava com ele também o bispo de Vandoma, em França, D. Nógeno, que veio a ser bispo do Porto. O bispo trazia consigo a imagem de Nossa Senhora de Vandoma que mandou colocar num oratório por cima da porta principal da entrada da cidade e que por isso passou a chamar-se Porta de Vandoma. Esta imagem encontra-se atualmente na catedral. Nossa Senhora de Vandoma é a padroeira do Porto.
ORAÇÃO:
Ó Virgem Santíssima, estrela da manhã, refúgio dos pecadores, pelas vossas humildes orações que comovem o coração do Senhor, obtende-me a graça de compreender o valor da pessoa humana que Jesus Cristo resgatou com o seu preciosíssimo sangue na cruz e acolhei o pedido que hoje vos faço (fazer o pedido). Ámen.

Devoção particularmente cara a Nuno Álvares Pereira. Em 1389, São Nuno começou a construir, com recursos próprios, o convento do Carmo (hoje em ruínas), em Lisboa, dedicado a Nossa Senhora do Vencimento. A construção deve-se provavelmente ao pagamento de um voto feito na batalha de Aljubarrota, ou em Valverde, mas certo é que foi uma homenagem à Virgem por sempre o acompanhar nas suas vitórias.
ORAÇÃO:
Ó Maria, fonte de paz e de alegria, auxílio dos cristãos, confiança dos que morrem e esperança dos desesperados, a vós elevo a minha prece. Convertei-me e ajudai-me a vencer todas as batalhas da vida, hoje e sempre. Com o vosso apoio nenhum inimigo me amedrontará e nenhum mal temerei. Ámen.

Com o título de Nossa Senhora da Vida, é venerada uma imagem do século XIV que atualmente se encontra no mosteiro do Lorvão, diocese de Coimbra, fundado no século VI. Uma tradição conta que na região havia uma laranjeira no meio de alguns ulmeiros. Ao ser cortada, a laranjeira brotou muito rapidamente. O fenómeno repetiu-se algumas vezes, até que todos passaram a ver nesse facto um milagre da Virgem. O dono do terreno mandou esculpir uma imagem com o cepo cortado da árvore e só nesse momento é que ela deixou de brotar. A capela atual está localizada onde antes existia a laranjeira.
Em Alcochete há uma igreja dedicada a Nossa Senhora da Vida com belos azulejos que retratam toda a vida da Virgem Maria.
ORAÇÃO:
Nossa Mãe, que trazeis vida nova para os que buscam seguir o vosso modelo de fé, fazei brotar no nosso coração, tão rapidamente como brotou a laranjeira no campo do Lorvão, a caridade, a fé e a esperança. Ámen.

Este é o título dedicado à Virgem na cidade de Ziteil, na Suíça. Nossa Senhora apareceu na região, no século XIV, a pedir a conversão do povo. Caso não se tornassem melhores cristãos, mais devotos e fiéis, as suas lavouras secariam e começariam a morrer. O pedido foi atendido e construiu-se um santuário no local da aparição.
O tema da virgindade de Maria aparece há muitos séculos na fé cristã. O dogma da Virgindade Perpétua foi formulado no Concílio de Constantinopla (553) e definido no Concílio Romano de 649. Declara que Maria permaneceu virgem antes, durante e depois do parto de Jesus.
ORAÇÃO:
Em diversos momentos da história vos manifestastes ao povo para alertar sobre o desvio de conduta dos cristãos e pedir-lhes conversão. Continuai hoje, Virgem Clemente, a orientar as comunidades no caminho da conversão e da vivência da fé. Seguindo o vosso exemplo de vida nos aproximaremos ainda mais de Cristo e do Reino; e viveremos em paz e fraternidade nas nossas famílias e comunidades. Ámen.

Esta antiquíssima devoção marcou fortemente a fé de vários nobres, principalmente a rainha D. Leonor e os infantes D. Fernando e D. Duarte. O infante D. Duarte construiu um mosteiro dedicado a esta Senhora. Nossa Senhora das Virtudes era tão popular na Idade Média que o professor Avelino de Jesus Costa a chamou "Fátima do século XV", devido às grandes romarias. Nãe é difícil identificarmos a origem da devoção, visto as inúmeras virtudes de Maria.
ORAÇÃO:
Ó Maria, modelo de virtude, que por tão grande graça fostes coroada Rainha do Céu e da Terra, ajudai-nos a imitar-vos na vivência das virtudes e dos valores. Orientados por vós seremos capazes de manifestar e desenvolver todos os nossos dons, de viver uma vida virtuosa e santa e assim poder um dia participar do Reino. Ámen.

No Rosário, o segundo mistério gozoso recorda a visita da Virgem Maria à sua prima Isabel, grávida de João Batista, que haveria de ser o percursor de Jesus. A invocação de Nossa Senhora da Anunciação remete a esse facto, quando Maria, mesmo grávida, se põe ao serviço de Isabel, idosa e também grávida. Ao encontra-se com Maria, Isabel sente a presença salvífica de Deus e saúda-a como a Agraciada, a Mãe do Salvador. Nesta ocasião nasceu um dos mais belos hinos bíblicos, o Magnificat (Lc 1,46-55).
Desde o final do século XIII, a Visitação é celebrada com festa, depois introduzida no calendário romano pelo Papa Bonifácio IX.
ORAÇÃO:
A minha alma glorifica o Senhor
e o meu espírito alegra-se em Deus, meu Salvador,
Porque pôs os olhos na humildade da sua serva:
de hoje em diante me chamar-me-ão bem-aventurada
todas as gerações.
O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas:
Santo é o seu nome.
A sua misericórdia estende-se
de geração em geração
sobre aqueles que O temem.
Manifestou o poder do seu braço
e dispersou os soberbos.
Derrubou os poderosos dos seus tronos
e exaltou os humildes.
Aos famintos encheu de bens
e aos ricos despediu de mãos vazias.
Acolheu Israel, seu servo,
lembrado da sua misericórdia,
como tinha prometido a nossos pais,
a Abraão e à sua descendência para sempre.
Glória ao Pai...

Em tempos de guerra e conflitos, Nossa Senhora era frequentemente invocada a fim de auxiliar o exército a alcançar a vitória. Daí surgir este título.
Em Portugal há diversas igrejas e um famoso mosteiro dedicado a esta devoção: o mosteiro da Batalha (ou mosteiro de Santa Maria da Vitória), construído no século XIV devido ao voto feito por D. João I, quando da batalha de Aljubarrota, contra os castelhanos.
No século XV, durante os conflitos com os mouros em Espanha, os frades penitentes Bernardino da Cropalati e Giacomo L´Espervier foram enviados para fortalecer e acalmar o rei que lutava para retomar Granada, último bastião ibérico ainda sob o domínio mouro. Três dias após a chegada dos missionários, os inimigos foram vencidos e expulsos do país. Era o dia 18 de agosto de 1487. Em ação de graças, o rei Fernando construiu uma capela em honra de Nossa Senhora da Vitória. Ao mesmo tempo, os dois religiosos receberam o nome de frades da Vitória.
ORAÇÃO:
Nossa Senhora da Vitória, se o vosso nome nos lembra a guerra, a discórdia e a desunião, a vossa vida enche-nos de esperança e de paz! Nossa Senhora da Vitória, no nosso mundo há tantas lutas! Os homens lutam por ideias, por bens, por fama, por ganância, por ódio e por ambição. Lutam sem saber porque lutam.
Mas vós, Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, que vivestes o silêncio de Nazaré; que vivestes a incerteza de Belém; que vivestes a angústia do desterro no Egito; que buscastes o vosso Filho entre os doutores no templo; que permanecestes de pé junto à cruz do Filho; que, no cenáculo, aguardastes a vinda do Espírito Santo; ensinai-nos a trabalhar pela paz. Ensina-nos a não retribuir o mal com o mal ou a violência. Ensina-nos, enfim, ó Virgem Maria, a perdoar. Ámen.

