Na segunda
metade do Ano Mariano, a série sobre a Vida de Maria detém-se agora
na cena da adoração dos magos, com a qual se profetizava a chegada
à Igreja de todos os povos.
A Sagrada
Família regressou a Belém. As palavras do velho Simeão ressoavam
nos ouvidos de Maria e de José. À memória da Virgem viriam os
textos de alguns profetas que, falando do Messias, seu Filho, afirmam
que não só seria Rei de Israel, mas receberia as honras de todos os
povos da terra.
Isaías já o
tinha anunciado com particular eloquência: À tua luz caminharão os
povos e os reis andarão ao brilho do teu esplendor. Lança um olhar
em volta e observa: todos se reuniram e vieram procurar-te (...). Uma
grande multidão de camelos te invade, camelos de Madiã e Efa; vêm
todos de Sabá, trazendo ouro e incenso e anunciando os louvores de
Javé (Is 60, 3-6).
Entretanto, o
tempo decorria na mais absoluta normalidade. Nada fazia pressagiar
qualquer acontecimento fora do comum. Até que um dia aconteceu algo
extraordinário.
Tendo nascido
Jesus em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que uns Magos
vieram do Oriente a Jerusalém, perguntando: onde está o Rei dos
judeus que acaba de nascer? Porque nós vimos a Sua estrela no
Oriente e viemos adorá-l'O (Mt 2, 1-2). São Mateus anota que, ao
ouvir essa pergunta, o rei Herodes perturbou-se e toda a Jerusalém
com ele (Mt 2, 3).
Sabemos muito
pouco sobre estas personagens. De qualquer forma, o texto evangélico
oferece algumas certezas: tratava-se de uns viajantes procedentes do
Oriente, onde tinham descoberto uma estrela de extraordinário
fulgor, que os impeliu a deixar as suas casas e partir em busca do
Rei dos judeus. Tudo o resto – o seu número, o país de origem, a
natureza da luz celestial, o caminho que seguiram – não passa de
mera conjetura, mais ou menos fundada.
A tradição
ocidental fala de três personagens, a quem inclusive dá um nome –
Melchior, Gaspar e Baltasar – enquanto outras tradições cristãs
elevam o seu número para sete e até para doze. O facto de que
procedessem do Oriente aponta para as longínquas regiões de além
Jordão: o deserto siro-árabe, Mesopotâmia, Pérsia. A favor da
origem persa pesa um episódio historicamente comprovado. Quando, nos
princípios do século VII, o rei persa Cosroes II invadiu a
Palestina, destruiu as basílicas que a piedade cristã tinha
edificado em memória do Salvador, exceto uma: a Basílica da
Natividade, em Belém. E isto por uma simples razão: na sua entrada
figurava a representação de uns personagens vestidos com
indumentária persa, numa atitude de prestar homenagem a Jesus nos
braços de Sua Mãe.
A palavra magos,
com que os designa o Evangelho, não tem nada que ver com o que hoje
em dia se entende por esse nome. Não eram pessoas dadas à magia,
mas homens cultos, muito provavelmente pertencentes a uma casta de
estudiosos dos fenómenos celestes, discípulos de Zoroastro, já
conhecidos por numerosos autores da Grécia clássica. Por outro
lado, é um facto comprovado que a expetativa messiânica de Israel
era conhecida nas regiões orientais do Império Romano e inclusive
na própria Roma. Não é estranho, pois, que alguns sábios
pertencentes à casta dos magos, ao descobrir um astro de
extraordinário fulgor, o tivessem interpretado – iluminados
interiormente por Deus – como um sinal do nascimento do esperado
Rei dos Judeus.
Embora a piedade
popular una, de modo quase imediato, o nascimento de Jesus com a
chegada dos Magos à Palestina, não se conhece com precisão a época
em que teve lugar; sabemos, sim, que Herodes, sentindo-se ameaçado,
inquiriu deles cuidadosamente, acerca do tempo em que lhes tinha
aparecido a estrela (Mt 2, 7). Depois perguntou aos doutores da Lei
pelo lugar de nascimento do Messias e os escribas responderam citando
o profeta Miqueias: e tu, Belém, terra de Judá, de modo algum és a
menor entre as principais cidades de Judá; porque de ti sairá um
chefe que apascentará Israel, Meu povo (Mt 2, 6). Usando uma
mentira, Herodes pôs os Magos a caminho de Belém: ide, informai-vos
bem acerca do Menino, e, quando O encontrardes, comunicai-mo, a fim
de que também eu O vá adorar (Mt 2, 8). O seu propósito era bem
diverso, pois propunha-se assassinar todos os meninos nascidos na
cidade e na sua comarca, menores de dois anos, para assim se
assegurar da morte daquele que – segundo o seu curto entender –
lhe vinha disputar o trono. Deduz-se destes dados que a chegada dos
Magos ocorreu algum tempo após o nascimento de Jesus; talvez um ano
ou ano e meio.
Depois de
receberem essa informação, os Magos dirigiram-se apressadamente
para Belém, cheios de alegria ao ver reaparecer a estrela, que tinha
desaparecido misteriosamente em Jerusalém. Este mesmo facto advoga
em favor da suposição de que o astro que os guiava não era um
fenómeno natural – um cometa, uma conjunção, etc., como se
procurou muitas vezes demonstrar – mas um sinal sobrenatural dado
por Deus a esses homens escolhidos, e só a eles.
Mal saíram de
Jerusalém – prossegue São Mateus – a estrela que tinham visto
no Oriente ia adiante deles, até que chegando ao local onde estava o
Menino, parou. Entraram na casa, viram o Menino com Maria, Sua mãe e
prostrando-se O adoraram; e abrindo os seus tesouros ofereceram-Lhe
presentes de ouro, incenso e mirra (Mt 2, 9-11).
Os corações de
Maria e de José devem ter-se enchido de alegria e gratidão. Alegria
porque os anúncios proféticos sobre Jesus começavam a cumprir-se;
agradecimento porque os presentes daqueles homens generosos –
predecessores na fé dos cristãos procedentes dos gentios –
possivelmente, contribuíram para aliviar uma situação económica
precária. José e Maria não puderam corresponder à sua
generosidade. Eles, no entanto, consideraram-se suficientemente
recompensados pelo olhar e o sorriso de Jesus, que iluminou de novo
as suas almas e pelas doces palavras de agradecimento de Sua Mãe,
Maria.