No dia 2 de
fevereiro celebramos a Festa da Apresentação do Menino Jesus no
Templo. Maria oferece-O a Deus e o Senhor mostra-lhe que Ela mesma
será associada à missão redentora de Jesus.
A aglomeração
de peregrinos em Belém tinha terminado. Depois do nascimento de
Jesus, José encontrou um lugar mais decente para alojar a Sagrada
Família. Passados oito dias foi aí que realizou o rito da
circuncisão, pelo qual os varões começavam a fazer parte do povo
de Israel e o Menino recebeu oficialmente o nome de Jesus, «como lhe
tinha chamado o anjo antes que fosse concebido no ventre materno»
(Lc 2, 21). Quarenta dias depois, Maria e José tomaram o Menino,
levaram-no a Jerusalém, depois que se «completaram os dias da
purificação de Maria, segundo a Lei de Moisés (...), para O
apresentar ao Senhor, como está escrito na Lei do Senhor (...) e
para oferecer como sacrifício, conforme o que também está escrito
na Lei do Senhor: um par de rolas ou dois pombinhos» (Lc 2, 22-25).
Nem Jesus nem
Maria estavam obrigados a seguir estas prescrições. Maria não
tinha contraído nenhuma impureza legal, pois tinha concebido e dado
à luz virginalmente; nem sequer a lei de resgate do primogénito se
aplicava a Jesus, autêntico Cordeiro de Deus que vinha tirar os
pecados do mundo. E, no entanto, por três vezes, em poucos
versículos, se insiste em que tudo foi levado a cabo em estrita
obediência à Lei de Deus.
A Igreja
descobre neste episódio uma razão mais profunda. Em primeiro lugar,
o cumprimento da profecia de Malaquias: «vai chegar ao Seu Templo o
Senhor que procurais, o mensageiro da Aliança, que desejais» (Ml 3,
1). Além disso, Maria compreendeu que Jesus devia ser conduzido ao
Templo, não para O resgatar como aos outros primogénitos, mas para
ser oferecido a Deus em verdadeiro sacrifício. Assim o expressa a
Carta aos Hebreus: «entrando no mundo, diz: "Não quiseste
sacrifício nem oblação, mas formaste-Me um corpo; os holocaustos e
sacrifícios pelo pecado não Te agradaram". Então Eu disse:
"Eis-Me que venho, segundo está escrito de Mim no rolo do livro,
para fazer, ó Deus, a Tua vontade"» (Hb 10, 5-7). A apresentação
de Jesus no Templo poder-se-ia comparar, de certo modo, ao Ofertório
do Sacrifício do Calvário, que a Missa tornaria presente em todos
os pontos do tempo e do espaço. Na preparação desse sacrifício,
como depois na sua realização no cume do Gólgota, estava reservado
um lugar especial para a Mãe de Jesus. Desde os primeiros momentos
da Sua vida terrena, Jesus associa Maria ao sacrifício redentor que
tinha vindo cumprir.
Esta
participação no mistério da Redenção foi, pouco a pouco,
revelada à Virgem. O anjo da Anunciação nada lhe tinha dito a este
propósito, mas agora ser-lhe-á comunicado pelas palavras de Simeão,
um ancião justo e temente a Deus a quem «tinha sido revelado pelo
Espírito Santo que não veria a morte sem ver primeiro o Cristo do
Senhor» (Lc 2, 26).
O encontro entre
a Virgem e ancião deve ter acontecido frente à porta de Nicanor,
por onde se acedia ao átrio dos israelitas. Naquele lugar situava-se
um dos sacerdotes encarregados de atender as mulheres que ofereciam o
sacrifício por si próprias e pelos seus filhos. Maria, acompanhada
de José, pôs-se na fila. Enquanto aguardava a sua vez, houve um
acontecimento que encheu de assombro os circunstantes. Um venerável
ancião aproximou-se da fila. O seu rosto resplandecia de alegria.
«Quando os pais levaram o Menino Jesus, para cumprirem as
prescrições da Lei a Seu respeito, Simeão tomou o Menino nos
braços e louvou a Deus, dizendo: "Agora, Senhor, conforme a Tua
promessa, podes deixar o teu servo partir em paz. Porque os meus
olhos viram a Tua Salvação, que preparaste diante de todos os
povos: luz para iluminar as nações e glória do Teu povo Israel"»
(Lc 2, 29-32).
Ao ouvir estas
palavras, apoderou-se de Maria e de José um sentimento de admiração:
o ancião Simeão confirmava-lhes o que o anjo lhes tinha comunicado
da parte de Deus. Mas, logo a seguir, aquele anúncio ensombrou a
alegria: o Messias cumpriria a Sua missão por meio do sofrimento; e
a Mãe ficava misteriosamente associada à dor do Filho. «Simeão
abençoou-os e disse a Maria, Mãe do Menino: "Eis que este Menino
vai ser causa de queda e elevação de muitos em Israel. Ele será um
sinal de contradição. Quanto a Ti, uma espada há de atravessar-Te
a alma. Assim serão revelados os pensamentos de muitos corações"»
(Lc 2, 34-35). Também Ana, uma profetisa com mais de oitenta anos,
se associou ao anúncio de Simeão, pois «chegou nesse instante,
louvava a Deus e falava do Menino a todos os que esperavam a
libertação de Jerusalém» (Lc 2, 38).
Do evangelho de
São Lucas deduz-se que a Virgem apresentou Jesus só depois de ouvir
a profecia. Ofereceu pelo seu resgate um par de rolas ou dois
pombinhos, a oferenda dos pobres, em lugar do cordeiro prescrito na
Lei de Moisés. No entanto, à luz das palavras de Simeão,
compreendeu — para além das aparências — que Jesus era o
verdadeiro Cordeiro que redimiria os homens dos seus pecados. E que
Ela, como Mãe, de um modo que não compreendia, estaria unida
estreitamente à sorte do seu Filho.
A VOZ DO
MAGISTÉRIO
«Maria é a
Virgem oferente. No episódio da apresentação de Jesus no Templo
(cf. Lc 2, 22-35), a Igreja, guiada pelo Espírito Santo, descobriu,
para além do cumprimento das leis respeitantes à oblação do
primogénito (cf. Ex 13, 11-16) e à purificação da mãe (cf. Lv
12, 68), um mistério "salvífico" relativo à história da
Salvação, precisamente: e em tal mistério realçou a continuidade
da oferta fundamental que o Verbo encarnado fez ao Pai, ao entrar no
mundo (cf. Hb 10, 5-7); viu nele proclamada a universalidade da
Salvação, porque Simeão, ao saudar no Menino a luz para iluminar
as nações e a glória de Israel (cf. Lc 2, 32), reconhecia n'Ele
o Messias, o Salvador de todos; entendeu aí uma referência
profética à Paixão de Cristo: é que as palavras de Simeão, as
quais uniam num único vaticínio o Filho, "sinal de contradição"
(Lc 2, 34), e a Mãe, a quem a espada haveria de trespassar a alma
(cf. Lc 2, 35), verificaram-se no Calvário.
Mistério de
salvação, portanto, que nos seus vários aspetos, orienta o
episódio da apresentação no Templo para o acontecimento
"salvífico" da Cruz. Mas a mesma Igreja, sobretudo a partir dos
séculos da Idade Média, entreviu no coração da Virgem Maria, que
leva o Filho a Jerusalém "para o oferecer ao Senhor" (cf. Lc 2,
22), uma vontade oblativa, que transcendia o sentido ordinário do
rito. Dessa intuição temos um testemunho na afetuosa apóstrofe de
São Bernardo: "Oferece, Virgem santa, o teu Filho e apresenta ao
Senhor o fruto bendito do teu ventre. Sim! Oferece a hóstia santa e
agradável a Deus, para reconciliação de todos nós!" (São
Bernardo, Sermão na festa da Purificação, III, 2: PL183, 370)».
São Paulo VI
(séc. XX), Exortação apostólica Marialis cultu, 02/02/1974, n.
20.
* * *
«A primeira
pessoa que se une a Cristo no caminho da obediência, da fé provada
e do sofrimento partilhado é a sua mãe, Maria. O texto evangélico
mostra-no-la no gesto de oferecer o Filho: uma oferenda incondicional
que a envolve em primeira pessoa: Maria é a Mãe d'Aquele que é
«glória do seu povo, Israel» e "luz que ilumina as nações"
(Lc 2, 32.34). E ela mesma, na sua alma imaculada, deverá ser
trespassada pela espada do sofrimento, mostrando assim que o seu
papel na história da salvação não termina no mistério da
Encarnação, mas se completa na amorosa e dolorosa participação na
morte e na ressurreição do seu Filho. Levando o Filho a Jerusalém,
a Virgem Mãe oferece-o a Deus como verdadeiro Cordeiro que tira os
pecados do mundo: apresenta-o a Simeão e a Ana como anúncio de
redenção; apresenta-o a todos como luz para um caminho seguro pela
via da verdade e do amor.
As palavras que
neste encontro vêm aos lábios do idoso Simeão – "Os meus olhos
viram a tua salvação" (Lc 2, 30) – encontraram eco no coração
da profetisa Ana. Estas pessoas justas e piedosas, envolvidas pela
luz de Cristo, podem contemplar no Menino Jesus "a consolação de
Israel" (Lc 2, 25). A sua expectativa transforma-se assim em luz
que ilumina a história. Simeão é portador de uma antiga esperança
e o Espírito do Senhor fala ao seu coração: por isso pode
contemplar aquele que muitos profetas e reis tinham desejado ver,
Cristo, luz que ilumina as nações. Reconhece naquele Menino o
Salvador, mas intui no espírito que em seu redor se jogará o
destino da humanidade, e que deverá sofrer muito por parte de
quantos o rejeitarão; proclama a sua identidade e a missão de
Messias com as palavras que formam um dos hinos da Igreja nascente,
do qual irradia toda a exultação comunitária e escatológica da
expectativa salvífica realizada. O entusiasmo é tão grande que
viver e morrer são a mesma coisa, e a "luz" e a "glória"
tornam-se uma revelação universal».
Bento XVI (séc.
XXI), Homilia na festa da Apresentação do Senhor, 02/02/2006.
* * *
«As palavras do
velho Simeão, anunciando a Maria a Sua participação na missão
salvífica do Messias, põem em evidência o papel da mulher no
mistério da redenção. Com efeito, Maria é não só uma pessoa
individual, mas também a «filha de Sião», a mulher nova que, ao
lado do Redentor, partilha a Sua paixão e gera no Espírito os
filhos de Deus. Essa realidade é expressa pela imagem popular das
«sete espadas» que trespassam o coração de Maria. Essa
representação evidencia o profundo vínculo que existe entre a mãe,
que se identifica com a filha de Sião e com a Igreja, e o destino de
sofrimento do Verbo encarnado.
Ao entregar o
Filho, há pouco recebido de Deus, para O consagrar à Sua missão de
salvação, Maria entrega-se também a si mesma a essa missão.
Trata-se de um gesto de participação interior, que não só é
fruto do natural afeto materno, mas exprime sobretudo o consentimento
da mulher nova à obra redentora de Cristo.
Na sua
intervenção, Simeão indica a finalidade do sacrifício de Jesus e
do sofrimento de Maria: estes acontecerão "a fim de se revelarem
os pensamentos de muitos corações" (Lc 2, 35). Jesus "sinal de
contradição" (Lc 2, 34) que envolve a mãe no Seu sofrimento,
conduzirá os homens a tomar posição relativamente a Ele,
convidando-os a uma decisão fundamental. Ele, com efeito, "está
aqui para queda e ressurgimento de muitos em Israel" (Lc 2, 34).
Maria está,
pois, unida ao Seu divino Filho com vista à obra da salvação.
Existe certamente o perigo de queda para quem rejeita Cristo, mas um
efeito maravilhoso da redenção é a levantar de muitos. Este
simples anúncio acende uma grande esperança nos corações, aos
quais já testemunha o fruto do sacrifício.
Pondo sob o
olhar da Virgem estas perspetivas da salvação antes da oferta
ritual, Simeão parece sugerir a Maria que ela cumpra este gesto para
contribuir no resgate da humanidade. De facto, ele não fala com José
nem de José: as suas palavras dirigem-se a Maria, que ele associa ao
destino do Filho (…).
A conclusão do
episódio da apresentação de Jesus no templo parece confirmar o
significado e o valor da presença feminina na economia da salvação.
O encontro com uma mulher, Ana, conclui estes momentos singulares,
nos quais o Antigo Testamento quase se entrega ao Novo».
São João Paulo
II (séc. XX), Discurso na audiência geral, 08/01/1997.
A VOZ DOS PADRES
DA IGREJA
«Do mesmo modo
que a Mãe de Deus e Virgem intacta susteve nos seus braços a Luz
verdadeira e a entregou aos que jaziam nas trevas, também nós,
iluminados com a Sua luz, e sustendo nas nossas mãos a luz que a
todos ilumina, apressemo-nos a sair ao encontro d'Aquele que é a
Luz verdadeira.
Assim,
verdadeiramente "veio a luz ao mundo" (Jo 3, 19) e iluminou este
mundo rodeado de trevas; "e visitou-nos o Sol que vem do alto e
iluminou os que se encontravam nas trevas" (Lc 1, 78-79). É este o
nosso mistério. Por isso caminhamos segurando os círios, para
significar a Luz que nos iluminou e o esplendor futuro que esperamos
receber d'Ele. Corramos todos juntos ao encontro de Deus.
Veio "a luz
verdadeira que ilumina todo o homem" (Jo 1, 9); portanto, irmãos,
deixemo-nos iluminar. Que todos sejamos participantes do seu
resplendor; que ninguém, encobrindo o seu resplendor, permaneça na
noite, mas que todos, resplandecentes e iluminados, vamos ao seu
encontro para receber, juntamente com o velho Simeão, aquela Luz
clara e sempiterna. E todos, participando da alegria do ancião,
entoemos um cântico de ação de graças ao Pai da luz, que nos
enviou a Luz verdadeira, eliminou as trevas e nos fez a todos
resplandecentes.
Também nós
vimos por Ele o "teu Salvador, que apresentaste diante de todos os
povos" (Lc 2, 30-31), a quem manifestaste para glória do novo
Israel e sem dilação fomos libertados do antigo pecado, do mesmo
modo que Simeão, uma vez que tendo visto Cristo, foi libertado das
ataduras da vida presente.
Também nós
abraçámos a Cristo com a fé que nos vem de Belém; fomos
constituídos Povo de Deus, os que antes éramos gentios; vimos com
os nossos olhos Deus feito carne e, aceite nos braços do nosso
espírito a presença visível de Deus, somos o novo Israel».
São Sofrónio
de Jerusalém (séc. VII), Discurso III na Apresentação do Senhor.
* * *
«Simeão não
tinha ido ao templo por casualidade, mas movido pelo Espírito Santo:
"todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de
Deus" (Rm 8, 14). O Espírito Santo levou-o ao templo. Também tu,
se queres abraçar Jesus e tê-lo entre as tuas mãos, se desejas
tornar-te digno de ser libertado da prisão, põe todo o teu esforço
em ser dirigido pelo Espírito e em vir ao templo de Deus. Agora
encontras-te no templo do Senhor Jesus, ou seja, na Sua Igreja; é
este o templo construído com "pedras vivas" (1Pe 2, 5). Mas tu
estás no templo do Senhor quando a tua vida e os teus costumes são
dignos do nome que designa a Igreja. Se vens ao templo movido pelo
Espírito, encontrarás Jesus Menino, acolhê-l'O-ás nos teus braços
e dirás: "agora, Senhor, podes levar em paz deste mundo o teu
servo, segundo a Tua palavra" (Lc 2, 29)».
Orígenes (séc.
III), Tratado sobre o Evangelho de São Lucas 15, 1-5.
A VOZ DOS SANTOS
«A Lei antiga
impunha dois preceitos, relativos ao nascimento dos filhos
primogénitos: um obrigava a mãe, pois ficava impura, a permanecer
retirada na sua casa por um período de quarenta dias, decorridos os
quais ia purificar-se no templo; o outro impunha aos pais a obrigação
de levar o primogénito ao templo para o oferecer ao Senhor. A Virgem
Santíssima quis cumprir nesse dia um e outro preceito.
É verdade que
Maria não estava obrigada à lei da purificação por ter
permanecido sempre virgem puríssima; mas amava com tão entranhável
amor a humildade e a obediência que, como as outras mães, quis
apresentar-se no templo para se purificar. Cumpriu também o segundo
mandamento da lei apresentando o seu Filho e oferecendo-o ao eterno
Pai, como diz São Lucas: "cumprido o tempo da purificação da
Mãe, segundo a lei de Moisés, levaram o Menino a Jerusalém para O
apresentar ao Senhor" (Lc 2, 22). Mas a Virgem Maria ofereceu-O de
modo muito diverso do que costumavam fazer as outras mães ao
oferecerem os seus filhos.
As outras mães
ofereciam os seus filhos, mas sabiam muito bem que esta oblação não
passava de uma mera cerimónia legal; pois, uma vez resgatados,
recuperavam o direito que tinham sobre eles, sem o temor de os terem
depois que oferecer à morte. Maria, pelo contrário, ofereceu
realmente o seu Filho à morte e sabia muito bem que o sacrifício
que então fazia da vida de Jesus Cristo se havia de consumar um dia
na ara da Cruz; de maneira que, oferecendo a vida do seu Filho pelo
imenso amor que lhe tinha, Maria fez um perfeito holocausto de si
mesma a Deus».
Santo Afonso
Maria de Ligório (séc. XVIII), As glórias de Maria.