A. PRÁTICAS EXTERIORES
226. Embora o essencial desta devoção
consista no interior, não deixa de ter várias práticas exteriores
que não devem ser negligenciadas: "Eis o que era preciso fazer em
primeiro lugar, sem, contudo, deixar o restante" (Mt 23, 23). Seja
porque as práticas exteriores bem feitas ajudam as interiores, seja
porque recordam ao homem, que se conduz sempre pelos sentidos, o que
ele fez ou deve fazer; seja, ainda, porque podem edificar o próximo
que as vê, o que não ocorre com as práticas puramente interiores.
Portanto, que nenhum mundano critique
nem aqui se intrometa, para dizer que a verdadeira devoção reside
no coração, que é preciso evitar as exterioridades, pois pode
haver nisso vaidade, que é preciso ocultar a devoção, etc. Eu lhe
respondo com meu Mestre: "Que os homens vejam vossas boas obras, a
fim de que glorifiquem vosso Pai que está nos céus" (Mt 5, 16).
Não que se deva fazer suas ações e devoções exteriores, como diz
São Gregório, para agradar aos homens e disso tirar qualquer
louvor, pois tal seria vaidade. Mas algumas vezes são feitas diante
dos homens no intuito de agradar a Deus e de fazê-Lo glorificar por
esse meio, sem se preocupar com desprezos ou louvores dos homens.
Mencionarei apenas resumidamente algumas práticas exteriores, que
chamo de exteriores não porque são feitas sem o interior, mas
porque têm algo de exterior que as distingue das que são puramente
interiores.
B. CONSAGRAÇÃO APÓS EXERCÍCIOS
PREPARATÓRIOS
227. Primeira prática. Aqueles e
aquelas que quiserem abraçar esta devoção particular (que não
está erigida em confraria, embora isto fosse de desejar), depois de
terem empregado pelo menos doze dias para esvaziar-se do espírito do
mundo, contrário ao de Jesus Cristo, como disse na primeira parte
desta preparação para o Reino de Jesus Cristo, empregarão três
semanas para se encher de Jesus Cristo por meio da Santíssima
Virgem. Eis a ordem que poderão seguir:
228. Durante a primeira semana,
empregarão todas as suas orações e atos de piedade para pedir o
conhecimento de si mesmos e a contrição de seus pecados. Farão
tudo em espírito de humildade. Para isso, poderão, se quiserem,
meditar no que eu disse sobre nosso fundo mau e se considerar, nos
dias dessa semana, como caracóis, lesmas, sapos, porcos, cobras e
bodes. Ou ainda meditar nestas três palavras de São Bernardo: Pensa
no que foste, um pouco de lama; no que és, um vaso de estrume; no
que serás, alimento de vermes. Pedirão a Nosso Senhor e ao Espírito
Santo que os iluminem, por estas palavras: "Senhor, que eu veja"
(Lc 18, 41); ou Que eu me conheça; ou Vinde, Espírito Santo, e
dirão todos os dias a ladainha do Espírito Santo e a oração que
segue. Recorrerão à Santíssima Virgem e Lhe pedirão essa grande
graça que deve ser o fundamento das outras. Para isso dirão, todos
os dias, o Ave maris Stella e sua ladainha.
229. Durante a segunda semana,
aplicar-se-ão em todas as suas orações e obras de cada dia, para
conhecer a Santíssima Virgem. Pedirão esse conhecimento ao Espírito
Santo. Poderão ler e meditar o que sobre isso dissemos. Recitarão,
como na primeira semana, a ladainha do Espírito Santo e o Ave maris
Stella, e, além disso, um rosário todos os dias, ou pelo menos um
terço, nessa intenção.
230. Empregarão a terceira semana em
conhecer Jesus Cristo. Poderão ler e meditar o que dissemos a esse
respeito, e dizer a oração de Santo Agostinho que vem no começo da
segunda parte (n. 67).
Poderão, com o mesmo Santo, dizer e
repetir cem e cem vezes por dia: "Senhor, que eu Vos conheça!"
ou então, "Senhor, que eu veja quem sois!". Recitarão, como nas
semanas precedentes, a ladainha do Espírito Santo e o Ave maris
Stella, e acrescentarão todos os dias a ladainha do Santíssimo Nome
de Jesus.
231. Ao cabo dessas três semanas,
confessar-se-ão e comungarão na intenção de se darem a Jesus
Cristo, na qualidade de escravos de amor, pelas mãos de Maria. E
após a Comunhão, que procurarão fazer segundo o método indicado
adiante, recitarão a fórmula de sua consagração, que encontrarão
também mais adiante. Deverão escrevê-la ou mandá-la escrever, se
não estiver impressa, e assiná-la no mesmo dia em que a fizerem.
232. Será bom que, nesse dia, paguem
algum tributo a Jesus Cristo e à sua Santa Mãe, quer como
penitência pela infidelidade passada aos votos de seu Batismo, quer
para manifestar a sua submissão ao domínio de Jesus e de Maria.
Esse tributo será segundo a devoção e a capacidade de cada qual:
como um jejum, uma mortificação, uma esmola, uma vela. Mesmo que
não dessem senão um alfinete em homenagem, mas de bom coração,
isso bastaria a Jesus, que só olha a boa vontade.
233. Todos os anos, pelo menos,
renovarão a mesma consagração no mesmo dia em que a fizeram,
observando as mesmas práticas durante três semanas. Poderão até,
todos os meses e todos os dias, renovar tudo o que fizeram, através
destas poucas palavras: Sou todo vosso, e tudo o que tenho vos
pertence1 , ó meu amável Jesus, por Maria, vossa Santa Mãe.
C. RECITAÇÃO DA PEQUENA COROA DA
SANTÍSSIMA VIRGEM
234. Segunda prática. Recitarão todos
os dias de sua vida, mas sem a isso se obrigarem, a pequena coroa da
Santíssima Virgem, composta de três Pai-Nossos e doze Ave-Marias,
em honra dos doze privilégios e grandezas da Santíssima Virgem.
Essa prática é muito antiga e tem seu fundamento na Sagrada
Escritura. São João viu uma mulher coroada de doze estrelas,
revestida de sol e tendo a lua sob seus pés. Segundo os intérpretes,
essa mulher é a Santíssima Virgem.
235. Há várias maneiras de rezar bem
essa coroinha, mas seria demasiado longo mencioná-las. O Espírito
Santo as ensinará aos que forem mais fiéis a esta devoção. No
entanto, para rezá-la do modo mais simples, dir-se- -á ao começar:
Dignai-Vos conceder-me que Vos louve, ó Virgem Sagrada, dai-me força
contra os vossos inimigos. Em seguida reza-se o Credo, depois um
Pai-Nosso, quatro Ave-Marias e um Glória ao Pai. E novamente um Pai-
-Nosso, quatro Ave-Marias e um Glória ao Pai; e assim por diante. No
final, se dirá: "Sob a vossa proteção nos acolhemos, Santa Mãe
de Deus; não desprezeis as nossa súplicas em nossas necessidades;
mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e
bendita".
D. USO DAS PEQUENAS CORRENTES DE FERRO
236. Terceira prática. É bastante
louvável, muito glorioso e muito útil àqueles e àquelas que assim
se fizeram escravos de Jesus em Maria, que usem como sinal de sua
escravidão de amor, pequenas correntes de ferro bentas com uma
bênção própria (indicada mais adiante). Esses sinais exteriores,
na verdade, não são essenciais, e uma pessoa pode muito bem
dispensá-los, embora tenha abraçado esta devoção. No entanto, não
posso deixar de louvar muito aqueles e aquelas que, depois de terem
sacudido as correntes vergonhosas da escravidão do demônio (à qual
o pecado original e talvez os pecados atuais os reduziram), se
puseram voluntariamente sob a gloriosa escravidão de Jesus Cristo.
Eles se gloriam, com São Paulo, de estarem em correntes por Jesus
Cristo, mil vezes mais gloriosas e preciosas, mesmo sendo de ferro e
sem brilho, que todos os colares de ouro dos imperadores.
237. Embora outrora nada houvesse de
mais infame que a cruz, no presente esse madeiro é o que há de mais
glorioso no Cristianismo. O mesmo se diga dos ferros da escravidão.
Nada havia de mais ignominioso entre os antigos, e ainda
presentemente entre os pagãos. Porém, entre os cristãos, nada há
de mais ilustre do que as correntes de Jesus Cristo, porque elas nos
livram e preservam dos laços infames do pecado e do demônio, nos
colocam em liberdade e nos ligam a Jesus Cristo e a Maria, não por
constrangimento e força, como se faz a forçados, mas por caridade e
amor, como a filhos: "Eu os atrairei a Mim", diz Deus pela boca
de um profeta, "pelo vínculo da caridade" (Os 11, 4). Estas, por
conseguinte, são fortes como a morte, e, de certo modo, mais fortes
ainda nas pessoas que forem fiéis em usar esses gloriosos sinais até
o fim da vida. Pois, apesar de a morte aniquilar seus corpos,
reduzindo-os à podridão, não destruirá os elos de sua escravidão,
já que sendo de ferro, não se corrompem facilmente. E talvez no dia
da ressurreição dos corpos, no grande Juízo Final, essas
correntes, que ainda lhes ligarão os ossos, façam parte de sua
glória e sejam transformadas em gloriosas correntes de luz. Felizes,
pois, mil vezes felizes os escravos ilustres de Jesus em Maria que
usarem suas correntes até o túmulo!
238. Eis as razões por que se usam
essas correntes: Primeiro, é para que o cristão se lembre dos votos
e promessas do seu Batismo, a renovação perfeita que deles fez por
esta devoção, e a estreita obrigação que tem de lhes permanecer
fiel. O homem se conduz muitas vezes mais pelos sentidos do que pela
pura fé, e se esquece facilmente de suas obrigações para com Deus,
se não tiver alguma coisa exterior que o faça se lembrar delas.
Ora, essas correntes servem maravilhosamente para recordar ao cristão
as correntes do pecado e da escravidão do demônio, das quais o
santo Batismo o livrou. E para lembrá-lo da dependência de Jesus
Cristo em que se colocou pelo santo Batismo, bem como da ratificação
que dela fez ao renovar as suas promessas. Uma das razões por que
tão poucos cristãos pensam nas promessas do seu santo Batismo e
vivem com tanta libertinagem como se nada tivessem prometido a Deus,
como os pagãos, é que não trazem nenhum sinal exterior que os faça
lembrar disso.
239. Segundo, é para mostrar que não
nos envergonhamos absolutamente da escravidão e servidão a Jesus
Cristo, e que renunciamos à escravidão funesta do mundo, do pecado
e do demônio. Terceiro, é para se garantir e se preservar das
correntes da iniquidade. Pois temos de trazer as correntes da
iniquidade ou as correntes da caridade e da salvação.
240. Ah! meu querido irmão, quebremos
as correntes do pecado e dos pecadores, do mundo e dos mundanos, do
demônio e de seus asseclas, e lancemos para longe de nós seu jugo
funesto: "Quebremos as suas correntes e sacudamos de nós os seus
laços!" (Sl 2, 3). "Ponhamos nossos pés", para me servir das
palavras do Espírito Santo, "em seus grilhões gloriosos, e nosso
pescoço em suas coleiras" (Eclo 6, 25). Curvemos nossos ombros e
carreguemos a Sabedoria, que é Jesus Cristo, e não nos aborreçamos
com suas correntes (Cf. Eclo 6, 26). Notareis que o Espírito Santo,
antes de dizer essas palavras, prepara a alma para que esta não
rejeite seu importante conselho.
Eis suas palavras: "Escuta meu filho,
e aceita um conselho de sabedoria, e não rejeites meu conselho"
(Eclo 6, 24).
241. Consenti, meu caríssimo amigo,
que eu me una ao Espírito Santo, para vos dar o mesmo conselho: "As
suas correntes são correntes de salvação" (Eclo 6, 31). Como
Jesus Cristo na cruz deve atrair tudo a Si, de bom ou mau grado, Ele
atrairá os réprobos pelas correntes de seus pecados, para os
prender como forçados e demônios à sua ira eterna e à sua justiça
vingadora. Mas, nesses últimos tempos, Ele atrairá especialmente os
predestinados pelas correntes da caridade: "Eu atrairei tudo a Mim"
(Jo 12, 32). "Eu os atrairei pelo vínculo da caridade" (Os 11,
4).
242. Esses escravos de amor de Jesus
Cristo ou "prisioneiros de Jesus Cristo" (Ef 3, 1), podem usar
suas correntes ao pescoço, nos braços, na cintura ou nos pés. O
Padre Vicente Caraffa, sétimo geral da Companhia de Jesus, que
faleceu em odor de santidade em 1643, trazia, como sinal de sua
escravidão, uma argola de ferro nos pés e dizia que lamentava não
poder arrastar publicamente sua corrente. A Madre Inês de Jesus, de
quem falamos, trazia uma corrente de ferro na cintura. Outras a
trouxeram ao pescoço, por penitência pelos colares de pérolas que
tinham usado no mundo. Alguns a trouxeram no braço, para se
lembrarem, nos seus trabalhos manuais, de que eram escravos de Jesus
Cristo.
E. DEVOÇÃO ESPECIAL AO MISTÉRIO DA
ENCARNAÇÃO
243. Quarta prática. Terão uma
especial devoção ao grande mistério da Encarnação do Verbo,
celebrado no dia 25 de março, que é o mistério próprio desta
devoção, uma vez que ela foi inspirada pelo Espírito Santo: a)
Para honrar e imitar a dependência inefável que Deus Filho quis ter
de Maria, para a glória de Deus seu Pai e para nossa salvação.
Essa dependência se manifesta particularmente neste mistério em que
Jesus Cristo Se torna cativo e escravo no seio da divina Maria, e
onde depende d'Ela para todas as coisas; b) Para agradecer a Deus
pelas graças incomparáveis que Ele deu a Maria e, particularmente,
por tê-La escolhi do por sua digníssima Mãe, escolha que se
realizou neste mistério. Eis os dois fins principais da escravidão
de Jesus em Maria.
244. Reparai, por favor, que digo
habitualmente: escravo de Jesus em Maria, escravidão de Jesus em
Maria. Pode-se, na verdade, como vários o fizeram até aqui,
dizer-se escravo de Maria, escravidão da Santíssima Virgem.
Parece-me, contudo, preferível dizer escravo de Jesus em Maria, como
aconselhou o Pe. Tronson – superior geral do Seminário de São
Sulpício, renomado pela sua rara prudência e sua piedade consumada
– a um eclesiástico que o consultou sobre este assunto. Eis as
razões:
245. a) Como vivemos num século
orgulhoso1 , em que há um grande número de sábios soberbos, de
espíritos fortes e críticos, que notam defeitos nas práticas de
piedade mais bem estabelecidas e mais sólidas, para não lhes dar
uma ocasião de crítica sem necessidade, vale mais dizer escravidão
de Jesus em Maria, e dizer-se escravo de Jesus Cristo, do que escravo
de Maria. Assim denomina-se esta devoção mais de acordo com o seu
fim último, que é Jesus Cristo, do que com o caminho e meio para lá
chegar, que é Maria. Embora se possa, na verdade, usar uma ou outra
denominação, sem escrúpulos, como eu faço. Por exemplo, um homem
que vai de Orleans a Tours, pelo caminho de Amboise, pode muito bem
dizer que vai a Amboise e que vai a Tours; que é viajante para
Amboise e para Tours. Com a diferença, no entanto, de que Amboise é
apenas seu caminho direto para ir a Tours, e que Tours é o fim
último e termo de sua viagem.
246. b) Como o principal mistério que
se celebra e que se honra nesta devoção é o mistério da
Encarnação, no qual se pode ver Jesus Cristo em Maria, encarnado no
seu seio, é mais apropriado dizer escravidão de Jesus em Maria, de
Jesus habitando e reinando em Maria, segundo esta linda prece de
tantos grandes homens: Ó Jesus, que viveis em Maria, vinde e vivei
em nós, no espírito de vossa santidade, na plenitude de vossa
força, na perfeição de vossas vias, na verdade de vossas virtudes,
na comunhão de vossos mistérios, dominai sobre toda a potestade
inimiga, em vosso espírito para a glória do Pai. Amém.
247. c) Essa maneira de falar mostra
mais claramente a união íntima que há entre Jesus e Maria. Estão
unidos tão intimamente que um está todo no outro: Jesus está em
Maria e Maria toda em Jesus; ou antes, Ela não existe, mas Jesus
sozinho n'Ela; e seria mais fácil separar a luz do Sol, do que
Maria de Jesus. Pelo que se pode chamar Nosso Senhor de Jesus de
Maria, e a Santíssima Virgem, Maria de Jesus.
248. O tempo não permite deter-me aqui
para explicar as excelências e as grandezas do mistério de Jesus
vivendo e reinando em Maria, ou da Encarnação do Verbo.
Contentar-me-ei em dizer, em poucas palavras, que este é o primeiro
mistério de Jesus Cristo, o mais oculto, o mais elevado e o menos
conhecido. Foi neste mistério que Jesus escolheu todos os eleitos,
com a colaboração de Maria, escondido no seu seio, que por isso é
chamado pelos santos de "a sala dos segredos de Deus" (S.
Ambrósio, De Instit. Virg., cap. VII, n.50). Foi neste mistério que
Ele operou todos os mistérios que se seguiram depois em sua vida,
pela aceitação que deles fez: "Eis que venho, ó Deus, para fazer
a tua vontade" (Hb 10, 7). Por conseguinte, este mistério é um
resumo de todos os outros, encerra a vontade e a graça de todos.
Enfim, este mistério é o trono da misericórdia, da liberdade e da
glória de Deus. O trono de sua misericórdia para nós, porque, como
não podemos nos aproximar de Jesus senão por Maria, não podemos
ver Jesus nem Lhe falar senão por intermédio de Maria.
Jesus, que atende sempre à sua querida
Mãe, concede neste mistério sempre sua graça e sua misericórdia
aos pobres pecadores: "Vamos, pois, com confiança ao trono da
graça" (Hb 4, 16). É o trono de sua liberalidade para Maria,
porque, enquanto esse novo Adão permaneceu nesse verdadeiro paraíso
terrestre, nele operou tantas maravilhas às ocultas que nem os
anjos, nem os homens as podem compreender. Por isso os santos chamam
Maria a magnificência de Deus, como se Deus só fosse magnífico em
Maria: "Somente ali Nosso Senhor ostenta a sua magnificência"
(Is 33, 21). É o trono de sua glória para seu Pai, porque é em
Maria que Jesus Cristo aplacou perfeitamente seu Pai, irritado contra
os homens, e reparou perfeitamente a glória que o pecado Lhe havia
roubado. Pelo sacrifício que fez de sua vontade e de Si mesmo, Ele
deu a Deus Pai mais glória do que nunca Lhe haviam dado todos os
sacrifícios da Antiga Lei. Por fim, Ele Lhe deu [em Maria] uma
glória infinita, que jamais havia recebido do homem.
F. GRANDE DEVOÇÃO À AVE MARIA E AO
TERÇO
249. Quinta prática. Terão uma grande
devoção em recitar a Ave Maria, ou a Saudação Angélica, da qual
poucos cristãos, embora esclarecidos, conhecem o valor, o mérito, a
excelência e a necessidade. Foi preciso que a Virgem Maria
aparecesse várias vezes a grandes santos muito esclarecidos para
lhes mostrar o mérito desta oração, como a São Domingos, a São
João de Capistrano, ao Beato Alano de la Roche.
Eles compuseram livros inteiros sobre
as maravilhas e a eficácia desta prece para converter os pecadores.
Publicaram e pregaram abertamente que a salvação do mundo tendo
começado pela Ave Maria, a salvação de cada um em particular
estava ligada a esta prece. Foi esta prece que trouxe à terra seca e
estéril o fruto da vida, e é esta mesma prece, bem rezada, que deve
fazer germinar em nossas almas a palavra de Deus e dar o fruto de
vida, Jesus Cristo. A Ave Maria, dizem, é um orvalho celeste que
rega a terra, quer dizer, a alma para fazê-la dar seu fruto no tempo
oportuno. E a alma que não for regada por esta prece ou orvalho
celeste, não dará fruto, mas apenas sarças e espinhos, e está
prestes a ser amaldiçoada.
250. Eis o que a Santíssima Virgem
revelou ao Beato Alano de la Roche, como está assinalado em seu
livro De dignitate Rosarii, depois citado por Cartagena: "Sabe, meu
filho, e faze-o conhecer a todos, que um sinal provável e próximo
de condenação eterna é ter aversão, tibieza e negligência em
rezar a Saudação Angélica, que salvou todo o mundo" (Lib. de
Dignit., cap II). Palavras tão consoladoras quanto terríveis, a que
dificilmente se daria crédito se não tivéssemos esse santo por
garantia, São Domingos antes dele, e depois vários grandes
personagens, com a experiência de muitos séculos. Pois sempre se
verificou que os que trazem o sinal da condenação, como todos os
hereges, os ímpios, os orgulhosos e os mundanos, odeiam e desprezam
a Ave Maria e o terço.
Os hereges ainda aprendem e rezam o
Pai-Nosso, mas não a Ave Maria, nem o terço. Têm horror a eles:
preferiam trazer consigo uma serpente a um terço. Os orgulhosos
também, embora católicos, como têm as mesmas inclinações que seu
pai Lúcifer, desprezam ou votam indiferença à Ave Maria,
considerando o terço como uma devoção para efeminados, própria
para ignorantes e analfabetos. Pelo contrário, a experiência tem
mostrado que aqueles e aquelas que apresentam grandes sinais de
predestinação, amam, saboreiam e rezam com prazer a Ave Maria, e
que quanto mais são de Deus tanto mais amam esta prece. É o que
Nossa Senhora diz também ao Beato Alano na sequência das palavras
que acabo de citar.
251. Não sei como isto se faz nem por
que, mas não deixa de ser verdadeiro: não tenho melhor segredo para
conhecer se uma pessoa é de Deus, do que ver se ela ama rezar a Ave
Maria e o terço. E digo ama, porque pode acontecer que uma pessoa
esteja na impossibilidade natural ou mesmo sobrenatural de a rezar,
mas sempre a ama e a aconselha aos outros.
252. Almas predestinadas, escravas de
Jesus em Maria, ficai sabendo que a Ave-Maria é a mais bela de todas
as orações, depois do Pai-Nosso. É a saudação mais perfeita que
podemos dirigir a Maria, porque é a que o Altíssimo Lhe transmitiu
por um arcanjo, a fim de Lhe ganhar o coração. E teve sobre este
tanto poder, pelos encantos secretos de que está cheia, que Maria
consentiu na encarnação do Verbo, apesar da sua profunda humildade.
Será também por meio desta saudação
que Lhe ganharemos infalivelmente o Coração, se a rezarmos como
convém.
253. A Ave Maria bem rezada, isto é,
dita com atenção, devoção e modéstia, segundo os santos, é a
adversária que põe o demônio em fuga e o martelo que o esmaga; é
a santificação da alma, a alegria dos anjos, a melodia dos
predestinados, o cântico do Novo Testamento, o gozo de Maria e a
glória da Santíssima Trindade. A Ave Maria é um orvalho do Céu,
que torna a alma fecunda; é um ósculo puro e amoroso que se dá em
Maria; é uma rosa vermelha que se Lhe oferece, uma pérola preciosa
que se Lhe dá, é uma taça de ambrosia e de néctar divino que se
Lhe entrega. Todas essas comparações são dos santos.
254. Portanto, rogo-vos
encarecidamente, pelo amor que vos tenho em Jesus e Maria, que não
vos contenteis em recitar a coroinha da Santíssima Virgem, mas que
rezeis o terço, e até, se tiverdes tempo, o rosário diariamente. E
vós bendireis, na hora da morte, o dia e a hora em que me
acreditastes. Depois de terdes semeado sob as bênçãos de Jesus e
de Maria, recolhereis bênçãos eternas no Céu: "Aquele que
semeia em abundância, colherá em abundância" (2Cor 9, 6).
G. RECITAÇÃO DO MAGNIFICAT
255. Sexta prática. Para agradecer a
Deus as graças que concedeu à Santíssima Virgem, dirão
frequentemente o Magnificat, a exemplo da beata Maria de Oignies e de
vários outros santos.
É a única prece e a única composição
da Virgem Maria, ou melhor, que Jesus realizou n'Ela, pois Ele
falava pela sua boca. É o maior sacrifício de louvor que Deus
recebeu na lei da graça. É, de um lado, o mais humilde e o mais
agradecido, e de outro, o mais sublime e o mais elevado de todos os
cânticos. Há nele mistérios tão grandes e tão escondidos que os
anjos os ignoram. Gerson, que foi um médico tão piedoso e tão
sábio, depois de ter empregado uma grande parte de sua vida em
compor tratados tão cheios de erudição e de piedade sobre as mais
difíceis matérias, no fim da sua vida, empreendeu com tremor, a
explicação do Magnificat, a fim de com isso coroar todas as suas
obras. Num volume in-folio que sobre ele escreveu, diz coisas
admiráveis desse belo e divino cântico. Entre outras coisas, afirma
que a própria Santíssima Virgem o recitava muitas vezes, e
particularmente depois da Santa Comunhão, em ação de graças. O
sábio Benzônio, explicando o mesmo Magnificat, relata vários
milagres operados pela sua força, e diz que os demônios tremem e
fogem quando ouvem estas palavras do cântico: "Manifestou o poder
do seu braço e confundiu os orgulhosos nos pensamentos de seus
corações" (Lc 1, 51).
H. O DESPREZO DO MUNDO
256. Sétima prática. Os fiéis
servidores de Maria devem desprezar, odiar e fugir muito do mundo
corrompido, e servir-se das práticas de desprezo do mundo, que
indicamos na primeira parte.
I. PRÁTICAS PARTICULARES E INTERIORES
PARA AQUELES
QUE QUEREM SE TORNAR PERFEITOS
257. Além das práticas exteriores que
acabamos de indicar, as quais não se devem omitir por negligência
nem desprezo, tanto quanto o estado e a condição de cada um o
permitam, há ainda práticas interiores muito santificantes para
aqueles chamados pelo Espírito Santo a uma alta perfeição.
Consistem, em poucas palavras, em fazer todas essas ações POR
MARIA, COM MARIA, EM MARIA e PARA MARIA, a fim de fazê-las mais
perfeitamente por Jesus Cristo, com Jesus Cristo, em Jesus e para
Jesus.
J. FAZER TODAS ESSAS AÇÕES POR MARIA
258. É preciso fazer suas ações por
Maria, ou seja, é preciso que obedeçamos à Santíssima Virgem em
todas as coisas, e nos deixemos conduzir em tudo por seu espírito,
que é o Espírito Santo de Deus: "Aqueles que são conduzidos
segundo o espírito de Deus são filhos de Deus" (Rm 8, 14).
Aqueles que são conduzidos pelo espírito de Maria, são filhos de
Maria, e, por conseguinte, filhos de Deus, como já mostrado. E entre
tantos devotos da Santíssima Virgem, os devotos verdadeiros e fiéis
são somente aqueles que se deixam conduzir pelo seu espírito. Eu
disse que o espírito de Maria era o Espírito de Deus, porque Ela
nunca Se conduziu pelo seu próprio espírito, mas sempre pelo de
Deus, que d'Ela tomou posse, de tal modo que passou a ser o seu
próprio espírito. É por isso que Santo Ambrósio diz: Que a alma
de Maria esteja em cada um para glorificar o Senhor; que o espírito
de Maria esteja em cada um para se regozijar em Deus. Como é feliz
uma alma quando, a exemplo de um bom irmão jesuíta chamado
Rodriguez, falecido em odor de santidade, ela é toda possuída e
governada pelo espírito de Maria, que é um espírito doce e forte,
zeloso e prudente, humilde e corajoso, puro e fecundo!
259. A fim de que a alma se deixe
conduzir por este espírito de Maria, é preciso: 1) Renunciar ao seu
próprio espírito, às suas próprias luzes e vontades antes de
fazer qualquer coisa: por exemplo, antes de rezar, antes de celebrar
ou ouvir a Santa Missa, antes de comungar, etc. Porque as trevas de
nosso espírito próprio e a malícia de nossa própria vontade e
operação, se as seguíssemos, embora nos parecessem boas, poriam
obstáculos ao espírito de Maria.
2) É preciso se entregar ao espírito
de Maria para ser movido e conduzido da maneira que Ela quiser. Temos
de nos pôr e nos abandonar nas suas mãos virginais, como um
instrumento nas mãos do operário, como um alaúde nas mãos de um
bom músico. É preciso se perder e se abandonar n'Ela, como uma
pedra que se atira ao mar, o que se faz tão simplesmente, num
instante, por um olhar do espírito, um pequeno movimento da vontade,
ou verbalmente, dizendo por exemplo: Renuncio a mim mesmo e dou-me a
Vós, ó minha querida Mãe! E ainda que não se experimente qualquer
doçura sensível neste ato de união, ele não deixa de ser
verdadeiro, assim como se alguém dissesse, o que Deus não permita:
"Dou-me ao demônio", se o dissesse com sinceridade, embora sem
qualquer mudança sensível, não seria menos de fato do demônio. 3)
É preciso, de tempos em tempos, durante sua ação e depois da ação,
renovar o mesmo ato de oferecimento e de união. Quanto mais o
fizermos, mais cedo nos santificaremos e chegaremos à união com
Jesus Cristo, a qual se segue sempre à união com Maria, pois o
espírito de Maria é o espírito de Jesus.
K. FAZER SUAS AÇÕES COM MARIA
260. É preciso fazer suas ações com
Maria. Ou seja, é preciso, nas suas ações, olhar para Maria como o
modelo acabado de toda virtude e perfeição que o Espírito Santo
formou em uma pura criatura, para o imitar segundo nosso pequeno
alcance.
É preciso, pois, que em cada ação
consideremos como Maria a fez ou a faria, se Ela estivesse em nosso
lugar. Devemos para isso examinar e meditar nas grandes virtudes que
Ela praticou durante sua vida, particularmente: 1) Sua fé viva, pela
qual Ela acreditou sem hesitar na palavra do anjo; acreditou fiel e
constantemente até o pé da cruz no Calvário; 2) Sua humildade
profunda, que A fez Se esconder, Se calar, Se submeter a tudo e Se
pôr no último lugar;
3) Sua pureza toda divina, que nunca
teve nem terá jamais igual sob o céu. Enfim, todas as suas outras
virtudes. Lembremo-nos, torno a repetir, que Maria é o grande e o
único molde de Deus, próprio para formar imagens vivas de Deus,
facilmente e em pouco tempo. Uma alma que encontrou este molde e nele
se lança, em breve se transformará em Jesus Cristo, que esse molde
representa ao natural.
L. FAZER TODAS AS SUAS AÇÕES EM MARIA
261. É preciso fazer suas ações em
Maria. Para bem entender esta prática é preciso saber: 1) Que a
Santíssima Virgem é o verdadeiro Paraíso terrestre do novo Adão,
e que o antigo Paraíso terrestre não era senão sua imagem. Há
pois, nesse Paraíso terrestre, riquezas, belezas, raridades e
doçuras inexplicáveis, que o novo Adão, Jesus Cristo, aí deixou.
É nesse Paraíso que Ele tomou suas complacências durante nove
meses, operou suas maravilhas e exibiu suas riquezas com a
magnificência de um Deus. Esse santíssimo lugar não é composto
senão de uma terra virgem e imaculada, da qual foi formado e se
alimentou o novo Adão, sem mancha nem sujeira alguma, pela operação
do Espírito Santo que aí habita. É nesse Paraíso terrestre que
está verdadeiramente a árvore da vida que produziu Jesus Cristo, o
fruto da vida; a árvore da ciência do bem e do mal que deu a luz ao
mundo. Há nesse lugar divino árvores plantadas pela mão de Deus e
regadas por sua unção divina, que produziram e produzem ainda,
todos os dias, frutos de um sabor divino. Há canteiros esmaltados de
belas e diferentes flores de virtudes, que exalam aromas que perfumam
até os anjos. Há nesse lugar prados verdes de esperança, torres
inexpugnáveis de força, casas encantadoras de confiança, etc.
Somente o Espírito Santo pode dar a conhecer a verdade escondida sob
essas figuras de coisas materiais. Há ainda nesse lugar um ar puro e
incontaminado, um ar de pureza; um dia radiante, sem noite, da
humanidade santa; um belo sol, sem sombra, da Divindade; uma fornalha
ardente e contínua de caridade, onde todo ferro que ali é posto se
abrasa e se transforma em ouro. Há um rio de humildade que brota da
terra e que, dividindo-se em quatro braços, banha todo esse lugar
encantado: são as quatro virtudes cardeais.
262. 2) O Espírito Santo, pela boca
dos santos Padres, chama também a Santíssima Virgem de: a) A porta
oriental, por onde o sumo sacerdote Jesus Cristo entra e sai no
mundo; por Ela entrou na primeira vez, e por Ela virá na segunda; b)
O santuário da Divindade, o repouso da Santíssima Trindade, o trono
de Deus, a cidade de Deus, o altar de Deus, o templo de Deus, o mundo
de Deus. Todos esses diferentes títulos e louvores são muito
verdadeiros em relação às diferentes maravilhas de graças que o
Altíssimo realizou em Maria. Oh! que riquezas! Oh! que glória! Oh!
que prazer! Oh! que felicidade poder entrar e permanecer em Maria,
onde o Altíssimo colocou o trono de sua glória suprema!
263. Mas como é difícil a pecadores
como nós obter permissão e ter capacidade e luz para entrar num
lugar tão alto e tão santo, guardado não por um querubim, como o
antigo Paraíso terrestre, mas pelo próprio Espírito Santo que dele
Se tornou o senhor absoluto, e do qual Ele diz: "Tu és um jardim
fechado, ó minha irmã e esposa, tu és um jardim fechado e uma
fonte selada" (Ct 4, 12). Maria é fechada; Maria é selada. Os
miseráveis filhos de Adão e Eva, banidos do Paraíso terrestre, não
podem entrar nele senão por uma graça particular do Espírito
Santo, que devem merecer.
264. Quando, pela sua fidelidade,
tiverem alcançado essa insigne graça, é preciso permanecer no belo
interior de Maria com complacência, nele repousar em paz, apoiar-se
com confiança, esconder-se com segurança e nele se perder sem
reserva, a fim de que neste seio virginal: 1) A alma seja alimentada
pelo leite de sua graça e de sua misericórdia maternal; 2) Seja
livre de suas perturbações, receios e escrúpulos; 3) Esteja em
segurança contra todos os seus inimigos, o demônio, o mundo e o
pecado, que nele nunca tiveram entrada. Por isso Ela diz que "Aqueles
que operam em Mim, não pecarão" (Eclo 24, 30). Quer dizer,
aqueles que permanecem na Virgem Maria em espírito não cometerão
pecado grave; 4) Seja a alma formada em Jesus Cristo e Jesus Cristo
formado nela: porque o seio de Maria, como dizem os Padres, é a sala
dos sacramentos divinos, onde Jesus Cristo e todos os eleitos foram
formados: "Um homem e um homem nasceu dela" (Sl 86, 5).
M. FAZER TODAS AS SUAS AÇÕES PARA
MARIA
265. Finalmente, é preciso fazer todas
as suas ações para Maria. Pois, uma vez que nos entregamos
inteiramente ao seu serviço, é justo que se faça tudo por Ela como
um criado, um servo e um escravo. Não que A tomemos como o fim
último de nossos serviços, pois só Jesus Cristo o é. Mas, como
nosso fim próximo, nosso meio misterioso e fácil para ir a Ele.
Como bons servos e escravos, não devemos ficar ociosos, mas é
preciso que, apoiados na sua proteção, empreendamos e realizemos
grandes coisas para esta augusta Soberana. É preciso defender seus
privilégios quando alguém lhos disputar; é preciso apoiar sua
glória quando a atacarem. É preciso atrair todo o mundo, se for
possível, ao seu serviço e a esta verdadeira e sólida devoção. É
preciso falar e clamar contra aqueles que abusam de sua devoção
para ultrajar seu Filho. É preciso pretender apenas, como recompensa
de seus pequenos serviços, a honra de pertencer a tão amável
Princesa, e a felicidade de ser por Ela unido a Jesus, com um laço
indissolúvel no tempo e na eternidade.
GLÓRIA A JESUS EM MARIA!
GLÓRIA A MARIA EM JESUS!
GLÓRIA A DEUS SÓ!