5. A ANUNCIAÇÃO DE NOSSA SENHORA
No dia 25 de
março, a Igreja celebra o anúncio do cumprimento das promessas de
salvação. É a festa da Encarnação: o Filho eterno do Pai entra
na história. Quinto capítulo sobre a vida de Nossa Senhora, no qual
se contempla a anunciação Anjo à Virgem Maria: a porta de Cristo
no mundo.
O diálogo mais
importante da história teve lugar no interior de uma casa pobre de
Nazaré. Os seus protagonistas são o próprio Deus, que se serve do
ministério de um Arcanjo e uma Virgem chamada Maria, da casa de
David, desposada com um artesão de nome José.
Muito
provavelmente Maria encontrava-se recolhida em oração, talvez
meditando alguma passagem da Sagrada Escritura referente à salvação
prometida pelo Senhor. É assim que a mostra a arte cristã, que se
inspirou nessa cena para compor as melhores representações da
Virgem. Ou talvez estivesse ocupada nos trabalhos da casa e, nesse
caso, também se encontraria absorvida em oração: tudo n'Ela era
ocasião e motivo para manter um diálogo constante com Deus.
— Salve, ó
cheia de graça, o Senhor é contigo (Lc 1, 28).
Ao ouvir estas
palavras, Maria perturbou-se e discorria pensativa que saudação
seria esta (Lc 1, 29). Fica confusa, não tanto pela aparição do
anjo, mas pelas suas palavras. Sobressaltada, questiona-se sobre o
motivo de tais louvores. Perturba-se porque, na sua humildade,
sente-se pouca coisa. Boa conhecedora da Escritura, dá-se
imediatamente conta de que o mensageiro celestial lhe está a
transmitir uma mensagem inaudita. Quem é Ela para merecer esses
elogios? O que é que fez na sua breve existência? Certamente deseja
servir a Deus com todo o seu coração e com toda a sua alma; mas
vê-se muito longe daquelas façanhas que valeram louvores a Débora,
a Judite, a Ester, mulheres muito exaltadas na Bíblia. No entanto,
compreende que a embaixada divina é para Ela. Ave, gratia plena!
Neste primeiro
momento, Gabriel dirige-se a Maria dando-lhe um nome – a cheia de
graça – que explica a profunda perturbação de Nossa Senhora. São
Lucas utiliza um verbo que, em língua grega, indica que a Virgem de
Nazaré estava completamente transformada, santificada pela graça de
Deus. Como posteriormente definiria a Igreja, isto tinha ocorrido no
primeiro momento da sua conceção, em consideração da missão que
havia de cumprir: ser Mãe de Deus na Sua natureza humana,
permanecendo ao mesmo tempo Virgem.
O Arcanjo
apercebe-se do sobressalto da Senhora e, para a tranquilizar,
dirige-se a Ela chamando-a — agora sim — pelo seu próprio nome e
explicando-lhe as razões dessa saudação excecional.
— Não temas,
Maria, pois achaste graça diante de Deus; eis que conceberás no teu
ventre e darás à luz um filho, a Quem porás o nome de Jesus. Será
grande e será chamado Filho do Altíssimo e o Senhor Deus Lhe dará
o trono de Seu pai David; reinará sobre a casa de Jacob eternamente
e o Seu reino não terá fim (Lc 1, 30-33).
Maria, que
conhece bem as profecias messiânicas e as meditou muitas vezes,
compreende que será a Mãe do Messias. Não há na sua resposta a
mínima sombra de dúvida ou de incredulidade; sim, desde a sua mais
tenra infância, só ansiava por cumprir a Vontade divina! Mas deseja
saber como se realizará esse prodígio, pois, inspirada pelo
Espírito Santo, tinha decidido entregar-se a Deus em virgindade de
coração, de corpo e de mente.
São Gabriel
comunica-lhe então o modo diviníssimo em que maternidade e
virgindade se conciliarão no seu seio.
— O Espírito
Santo descerá sobre ti e o poder do Altíssimo te cobrirá com a Sua
sombra; por isso mesmo o Santo que há de nascer de ti será chamado
Filho de Deus. Eis que também Isabel, tua parenta, concebeu um filho
na sua velhice; e este é o sexto mês da que se dizia estéril,
porque a Deus nada é impossível (Lc 1, 35-37):
O anjo cala-se.
Um grande silêncio se apodera do céu e da terra, enquanto Maria
medita no seu coração a resposta que vai dar ao mensageiro divino.
Tudo depende dos lábios desta Virgem: a Encarnação do Filho de
Deus, a salvação da humanidade inteira.
Maria não
demora. E, ao responder ao convite do Céu, fá-lo com toda a energia
da sua vontade. Não se limita a um genérico dar licença, mas
pronuncia um sim – fiat! – no qual envolve toda a sua alma e todo
o seu coração, aderindo plenamente à Vontade de Deus: Eis aqui a
escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1, 38).
E o Verbo se fez
carne e habitou entre nós (Jo 1, 14). Ao contemplar uma vez mais
este mistério da humildade de Deus e a humildade da criatura,
irrompemos numa exclamação de gratidão que gostaríamos que não
terminasse nunca: «Ó Mãe, Mãe! com essa tua palavra – "fiat"
– tornaste-nos irmãos de Deus e herdeiros da Sua glória. –
Bendita sejas!» (Caminho, n. 512).