Afirmo que, entre
todas as práticas devotas, nenhuma há que tanto agrade à nossa
Mãe, como recorrer frequentemente à sua intercessão. Peçamos-lhe,
pois, auxílio em todas as necessidades particulares. Por exemplo:
quando vamos tomar ou dar conselhos, nos perigos, nas aflições e
tentações, principalmente nas tentações contra a pureza.
Certamente nos há de socorrer a divina Mãe, se a ela recorrermos
com a antífona Sub tuum praesidium, ou com a Ave Maria, ou com a
simples invocação de seu santíssimo nome, que terá uma força
particular contra os demônios.
O beato Sante,
franciscano, em uma tentação contra a pureza, recorreu a Maria e
ela, aparecendo-lhe imediatamente, lhe pôs a mão sobre o peito e o
livrou. Era tais ocasiões também é bom beijar ou tomar na mão o
Rosário ou o escapulário, ou então olhar para uma imagem da Virgem
Maria. Note-se que lucra cada vez 300 dias de indulgência (=
indulgência parcial) quem pronunciar devotamente os nomes de Jesus
ou de Maria.
Diz o padre
Segneri que o demônio não achou meio melhor para consolar-se das
perdas que sofreu com a extinção da idolatria, que fazendo
perseguir as imagens pelos hereges. Porém a Santa Igreja defende-as
até com o sangue dos mártires. A própria Mãe de Deus tem
demonstrado, mesmo com milagres, quanto lhe agradam as visitas e o
culto às imagens.
Assim certa vez
abriu-se, diante de São João de Deus, o véu que caia sobre uma
estátua de Nossa Senhora. Julgando o sacristão que se tratasse de
um ladrão, correu e deu um pontapé no santo, mas instantaneamente o
teve o pé paralisado.
Todos os servos
de Maria costumam visitar frequentemente e com grande afeto as
imagens e as igrejas erguidas em sua honra. São essas, segundo São
João Damasceno, as cidades de refúgio, onde nos achamos ao abrigo
das tentações e castigos que merecemos por nossas culpas. Ao entrar
em qualquer cidade, a primeira coisa que o imperador Santo Henrique
fazia, era visitar alguma igreja de Nossa Senhora. O padre Tomás
Sanchez nunca voltava para casa sem ter feito a mesma coisa.
Não nos seja,
portanto, demasiado trabalho o visitar todos os dias nossa Rainha em
alguma igreja ou capela, ou mesmo em casa, onde seria bom arranjar
para esse fim, no lugar mais retirado, um pequeno oratório com uma
imagem sua, e adorná-lo com cortinas, flores e velas, ou lâmpadas,
para aí recitarmos as Ladainhas, o Rosário, etc. Com esse intento
escrevi um livrinho, que contém visitas ao Santíssimo Sacramento e
à Bem-aventurada Virgem, para todos os dias do mês.
Celebrar ou fazer
celebrar, ou pelo menos ouvir Missa em honra da Santíssima Virgem. É
verdade que o Santo Sacrifício só se pode oferecer a Deus,
principalmente em reconhecimento de seu supremo domínio. Isso,
porém, não impede, diz o Sagrado Concílio de Trento, que ele possa
ser oferecido ao mesmo tempo a Deus para agradecer-lhe as graças
concedidas aos santos e à divina Mãe, a fim de que, celebrando nós
sua memória, eles se dignem interceder por nós. Assim o indicam as
próprias palavras da Santa Missa. Essa prática, assim como a
recitação de três Pai Nossos, Ave Marias e Glória ao Pai à
Santíssima Trindade, para agradecer-lhe as graças feitas a Maria,
revelou a própria Santíssima Virgem a uma alma ser-lhe muito
agradável.
Os devotos de
Maria celebram com muita atenção e fervor as novenas de suas
festividades. E durante elas a Santa Virgem lhes dispensa, com muito
amor, as graças inúmeras especialíssimas. Viu um dia Santa
Gertrudes, debaixo do manto de Maria, uma multidão de almas que nos
dias precedentes se tinham preparado, por meio de devotos exercícios,
para celebrar a festa da Assunção.
PRÁTICAS
PIEDOSAS
São os seguintes
os exercícios que se podem praticar nas novenas:
a) Fazer oração
mental, de manhã e à tarde, e visitar o Santíssimo Sacramento,
acrescentando o Pai Nosso e Glória ao Pai.
b) Todos os dias
visitar alguma imagem da Virgem e então agradecer ao Senhor as
mercês que lhe concedeu, e pedir a Maria um favor especial para si
mesmo.
c) Fazer
numerosas jaculatórias a Jesus e a Maria. Nada podemos fazer que
seja mais agradável à nossa Mãe, do que amar a seu Filho. Disse
ela a Santa Brígida:
"Se queres que
eu seja tua devedora, ama o meu Filho Jesus"
— Agradam
também muito a Nossa Senhora Ladainhas, pelas quais se ganham
indulgências, o hino Ave Maris Stella – Eu te saúdo, Estrela do
mar, que ela encomendou a Santa Brígida recitasse todos os dias.
Sobretudo estima o Magnificat, porque, recitando-o, louvamos a Deus
com as mesmas palavras com que ela O louvou.
Muitos são os
devotos de Maria que, nos sábados, ou nas vigílias de suas festas,
lhe oferecem o jejum. Como se sabe, a Santa Igreja consagrou a Virgem
o sábado, porque nesse dia ela se conservou firme na fé, depois da
morte de seu Filho, diz um venerável escritor nas obras de São
Bernardo. Não deixam, por isso, os servos de Maria de oferecer-lhe
nesse dia algum obséquio particular, especialmente o jejum (ou outra
qualquer mortificação). São Carlos Borromeu, o cardeal Toledo e
tantos outros nos deixaram exemplos neste ponto. Nitardo, bispo de
Bamberg, e Arriaga, da Companhia de Jesus, até se abstinham de
qualquer alimento aos sábados. Auriema fala das grandes mercês
obtidas por Maria aos que praticam essa devoção. Não deve parecer
difícil esse jejum do sábado, àqueles que se dizem especialmente
filhos de Maria, e que têm consciência de ter merecido o inferno.
Afirmo que quem pratica esta devoção dificilmente se há de
condenar. Pois é fácil para Maria obter-lhe a perseverança na
graça de Deus e uma morte bem-aventurada. Todos os irmãos de nossa
pequena Congregação, que podem fazê-lo, observam ao sábado esse
jejum, em honra de Maria. Mas se alguém não o pode fazer por falta
de saúde, ao menos faça qualquer outro sacrifício de alguma coisa
que lhe agrade.
Finalmente, se
pode mostrar aos sábados especial amor a Nossa Senhora por meio de
algum exercício de piedade, como fazendo a comunhão, ouvindo Missa,
visitando alguma imagem da Virgem, trazendo o cilício, etc. E ao
menos nas vigílias das sete festas de Maria, procurem seus devotos
oferecer-lhe esse jejum ou outra abstinência conforme lhes for
possível.
Observação.
Desde os séculos IX e X vem sendo o sábado dedicado especialmente a
Nossa Senhora. Nessa época cantava-se uma missa votiva em sua honra.
Mais tarde foi o sábado distinguido por penitências em honra de
Maria Santíssima. Os teólogos do século XII motivavam o culto do
sábado, em honra de Nossa Senhora, pela constância que ela mostrou
no sábado da soledade após o sepultamento de Jesus.
EXEMPLO
Era quase meia
noite quando puxaram com insistência a campainha da casa paroquial
de uma cidade. Estava à porta uma senhora de idade que pediu o
Viático para um doente cuja rua e número da casa indicou. Ela mesma
acompanhou o sacerdote até perto da casa, onde de repente
desapareceu.
O sacerdote tocou
a campainha, mas ninguém apareceu. Afinal do terceiro andar um velho
perguntou quem queria entrar tão tarde. Respondeu o sacerdote que
vinha sacramentar um doente.
— Aqui, quanto
sei, não há doente, replicou o velho, mas está chovendo, suba e
espere passar a chuva, eu sofro mesmo de insônia.
O sacerdote subiu
e entrando no quarto viu logo uma imagem de Nossa Senhora e uma
lamparina acesa diante da mesma.
— Eis que
acertei com uma casa religiosa, exclamou contente.
— Eu sou homem
do tempo moderno, respondeu o velho, e não dou importância a
imagens, mas em memória de minha mãe que era muito piedosa e
estimava muito esta, conservei-a e até guardei o seu costume de
acender diante dela a lamparina aos sábados.
Vendo que o padre
olhava com muito interesse para o retrato de uma senhora idosa, em
frente à escrivaninha, ele disse comovido:
— É minha mãe;
era tão religiosa e rezava tanto a Nossa Senhora. Antes de morrer
ela disse-me:
"Pobre filho,
quando estiver no céu, rezarei muito por ti para que te convertas"
Mas eu não chego
a isto, porque não quero saber de confissão.
Em seguida foi
contando a sua vida, mas com tanta sinceridade que o sacerdote lhe
disse:
— Pois o amigo
não quer saber de confissão, e, entretanto acaba de manifestar-me
seu interior tão claramente que poderia dar-lhe a absolvição.
— Oh! Que
felicidade, se pudesse fazer isto. Exclamou o ancião, há trinta
anos que não me confesso, mas agora a lembrança da minha mãe dá-me
vontade de confessar-me.
Caindo de joelhos
completou muito comovido a confissão, foi absolvido e recebeu a
Santa Comunhão. Depois de dirigir-lhe mais algumas palavras de
conselho e animação, o sacerdote retirou-se. O retrato da mãe
parecia ter agora expressão de júbilo, e descendo a escada e
voltando à sua casa, veio ao Padre a intuição clara de que o
retrato era o da senhora que o chamara e depois desaparecera.
De manhã o
sacerdote acordou pelo som de um dobre dos sinos. Perguntando quem
tinha falecido, informaram-no que o velho que ele confessara de
noite, sucumbiu a um colapso cardíaco. Salvo na última hora pela
bondade da Mãe do céu e os rogos da mãe terrestre.
ORAÇÃO
Ó Virgem
imaculada e santa, ó criatura a mais humilde e a mais excelsa diante
de Deus! Fostes tão pequena aos vossos olhos, porém tão grande aos
olhos do Senhor, que ele vos exaltou a ponto de vos escolher para sua
Mãe e fazer- vos depois Rainha do céu e da terra. Dou, pois, graças
àquele Deus, que tanto vos sublimou, e me alegro convosco por
ver-vos tão unida a Deus, que mais não é possível a uma pura
criatura. Diante de vós que sois tão humilde, com tantos dotes, me
envergonho de comparecer, eu, miserável, tão soberbo e tão
carregado de pecados. Entretanto, mesmo assim, quero saudar-vos:
Ave, Maria cheia
de graça. Sois cheia de graça, impetrai também a graça para mim,
O Senhor é convosco. Aquele Senhor que esteve sempre convosco desde
o primeiro instante de vossa criação, uniu-se agora a vós mais
estreitamente, fazendo-se vosso Filho. Bendita sois vós, entre as
mulheres: ó Mulher bendita entre todas as mulheres, alcançai-me
também a divina bênção. E bendito é o fruto de vosso ventre: ó
planta bem-aventurada, que destes ao mundo um fruto tão nobre e tão
santo! Santa Maria, Mãe de Deus: ó Maria, confesso que sois
verdadeiramente a Mãe de Deus, e por esta verdade estou pronto a dar
mil vezes à vida. Rogai por nós, pecadores. Mas se vós sois a Mãe
de Deus, sois também a Mãe de nossa salvação, e de nós pobres
pecadores. Pois para salvar-nos foi que Deus se fez homem, e vos fez
sua Mãe para que vossos rogos tenham a virtude de salvar qualquer
pecador. Eia, pois, ó Maria, rogai por nós: agora e na hora de
nossa morte. Rogai sempre; rogai agora, que estamos em vida no meio
de tantas tentações e perigos de perder a Deus. Mas, sobretudo
rogai por nós na hora da nossa morte, quando estivermos a ponto de
deixar este mundo, e sermos apresentados ao divino tribunal a fim de
que, salvando-nos pelos merecimentos de Jesus Cristo, e pela vossa
intercessão, possamos um dia, sem perigo de jamais nos perder,
saudar-vos e louvar-vos com o vosso Filho no céu, por toda a
eternidade.