Digite seu texto aqui...O louvor de Maria
é um tão abundante manancial que quanto mais se escoa, mais
aumenta, e quanto mais aumenta mais se escoa (Biblioteca dos Padres).
Em outras palavras: Esta Virgem é tão grande e sublime, que, quanto
mais a louvamos, mais nos resta a louvar. Tanto é isso verdade, que
— diz Santo Agostinho — todas as línguas dos homens não
bastariam para exaltá-la, ainda que eles só línguas tivessem no
corpo.
No mundo é uso
dos que se amam falar muitas vezes e tecer frequentemente o
panegírico da pessoa amada. Pois querem vê-la louvada e aplaudida
por todos. Bem mesquinho é, portanto, o amor daqueles que se gabam
de amar a Maria e não obstantes mal se lembram de falar dela muitas
vezes, e tão pouco procuram torná-la amada por outros. Os
verdadeiros servos desta amabilíssima Senhora não procedem assim.
Preferem celebrá-la por toda parte e vê-la amada pelo mundo
inteiro. Quer em público, quer em particular, procuram sempre atear
nos corações as abençoadas chamas de que eles mesmos se sentem
abrasados para com sua querida Rainha.
A propagação da
devoção a Maria Santíssima é de muita importância para cada um
de nós e para o povo. Convencer-nos-ão dessa verdade as palavras de
sábios e atacados doutores. É recomendável ouvi-las. Na frase de
São Boaventura têm o paraíso seguro todos os que anunciam as
glórias de Maria. E isso confirma Ricardo de São Lourenço,
dizendo:
"Venerar a
Rainha dos anjos é adquirir a vida eterna; pois essa gratíssima
Senhora saberá honrar na outra vida quem nesta a procurou celebrar"
Quem haverá que
desconheça a promessa feita pela própria Virgem, a quantos se
empenham em torná-la conhecida e amada neste mundo? "Possuirão a
vida os que me esclarecem" (Eclo 24, 31), — eis as palavras que
lhe aplica a Santa Igreja na festividade de sua Imaculada Conceição.
Exulta, minha alma — exclama São Boaventura, o solícito cantor
dos louvores de Maria — exulta e alegra-te em Maria, porque muita
ventura está prometida aos que a louvarem. E já que as Sagradas
Escrituras, ajunta ele, cantam os louvores de Maria, empenhemo-nos
também nós em louvar sempre a Mãe de Deus, com a língua e com o
coração, para que por ela sejamos um dia introduzidos na mansão
dos bem-aventurados.
Lemos nas
revelações de Santa Brígida que o beato Hemingo, bispo, costumava
celebrar os louvores de Maria no começo de cada sermão. Um dia,
apareceu, pois, a Santíssima Virgem à referida Santa e disse-lhe:
"Faz ciente ao
bispo, que sempre começa os sermões por meus louvores, de que lhe
quero servir de Mãe e apresentarei sua alma a Deus, depois da boa
morte que lhe alcançarei"
De fato, o bispo
morreu como um Santo, orando na mais celeste paz. A um religioso
dominicano, cujos sermões terminavam sempre com Maria, apareceu a
Virgem na hora da morte, defendeu-o contra os demônios, confortou-o
e consigo levou-lhe a alma ao céu. O devoto Tomás de Kempis
representa Maria Santíssima assim encomendando a seu Filho quantos
lhe publicam os louvores:
"Meu Filho
compadeça-vos da alma daquele por quem fostes amados e eu fui
louvada!"
Quanto ao
proveito do povo em geral, diz Eadmero (discípulo de Santo Anselmo),
ser impossível que se não salvem e convertam os pecadores pelos
sermões sobre a Santíssima Virgem. Para isso estriba-se no fato de
ter sido o puríssimo seio de Maria o caminho por onde passou a
salvação dos pecadores. Provarei no capítulo V que todas as graças
são dispensadas pelas mãos de Maria, e que todos os eleitos só se
salvam pela mediação dessa divina Mãe. E se esta sentença tem a
verdade por si, tal é minha firme convicção, dizer então se pode,
como necessária consequência, que, da pregação sobre Maria e
sobre a confiança em sua intercessão, depende a salvação de
todos. Foi assim, todos o sabem que São Bernardino de Sena
santificou a Itália e que São Domingos converteu tantas províncias.
Em seus sermões, nunca São Luís Beltrão deixava de exortar os
fiéis à devoção para com Nossa Senhora. Assim praticaram
igualmente muitos outros.
Li que também o
padre Paulo Segneri Júnior, afamado missionário, fazia em todas as
suas missões um sermão em honra de Maria. Dava-lhe o nome do
"sermão predileto". Jamais omitir o sermão sobre Nossa Senhora,
é igualmente uma regra impreterível em nossas missões. E podemos
atestar, com toda a verdade, que nada opera tanto proveito e
compunção no povo, como o sermão sobre a misericórdia de Maria.
Digo sobre a misericórdia de Maria. Pois, louvamos, diz São
Bernardo, sua humildade, admiramos sua virgindade, mas, sendo pobres
pecadores, o que mais nos deleita é ouvir falar de sua misericórdia.
A esta apegamo-nos com mais ternura, mais vezes a recordamos e
invocamo-la com mais frequência. A outros autores remeto o cuidado
de escrever sobre as demais prerrogativas de Maria. Quero falar
principalmente de sua grande misericórdia e poderosa intercessão.
Nesse sentido tenho recolhido, durante muitos anos, tudo quanto os
Santos Padres e os mais célebres autores têm dito sobre a bondade e
o poder da Mãe de Deus.
Feliz aquele que
se abraça amorosa e confiadamente a essas duas âncoras de salvação:
Jesus e Maria! Não perecerá eternamente. Digamos, pois, devoto
leitor, do fundo de nosso coração, como o beato Afonso Rodrigues:
"Jesus e Maria,
doces objetos do meu amor, por vós quero sofrer, por vós morrer;
fazei que eu deixe de pertencer-me, para ser todo vosso"
— Amemos a
Jesus e Maria, e santifiquemo-nos. Eis aí a maior fortuna que
podemos aspirar e esperar. Adeus! até à vista no paraíso, aos pés
dessa Mãe suavíssima e desse Filho muito amado. Juntos haveremos
então de louvá-los, de agradecer-lhes, de amá-los, face a face,
portada a eternidade. Assim seja.
EXEMPLO
A ermida da
Bertioga, junto à fortaleza do mesmo nome, de que só existem as
ruínas. À sombra do forte e da ermida, pelos anos de 1570, viviam
aldeias de índios cristianizados, que o jesuíta Anchieta e, depois
deste, João de Almeida, acomodaram ali.
Do Colégio de
São Vicente, o famoso Taumaturgo saia muitas vezes a visitar seus
discípulos da Bertioga.
De uma feita,
depois de passar dois dias na vizinha aldeia dos índios, veio o
padre agasalhar-se na casa do comandante do forte, para, na manhã
seguinte, regressar ao seu colégio.
Em sendo noite,
como ficava a ermida de fronte da casa onde se hospedara, José de
Anchieta pediu licença ao comandante para passar as horas em oração
na capela. Acedendo a isso o oficial, veio seguido de seu genro,
Afonso Gonçalves, acompanhar o padre até a porta da ermida,
trazendo à mão uma vela acesa. Aí, despediu-se deles Anchieta,
pedindo-lhes tornasse a casa com luz e cerrassem as portas da ermida
porque ele queria ficar só, tendo como única luz, a das estrelas,
coada pelos interstícios do telhado ou pelas vidraças. Assim foi
feito.
Recolheram-se os
homens, deixando o jesuíta só e às escuras. No correr da noite,
desperta a filha do comandante vendo estranha claridade e ouvindo
cantos celestiais. A ermida em que ficara orando o padre José de
Anchieta fulgia toda, derramando pelas portas e janelas cascatas
deslumbrantes. Ao mesmo tempo um coro de vozes angelicais
transpassava os corações.
A moça despertou
o marido para juntos averiguarem o estranho caso, mas no mesmo
instante foram tomados de um pasmo que os privou de todo o movimento.
Na manhã
seguinte, depois de se terem certificado de que não ficara luz
alguma na igreja, referiram o sucedido a Anchieta. Este em resposta
rogou-lhes como amigo e ordenou-lhes como confessor guardassem
segredo dessa visão enquanto ele vivesse.
Outra vez
pregando na mesma igreja de Itanhaém, durante a festa da Conceição,
perdeu os sentidos. Quando o povo acudiu, julgando tratar-se de
enfermidade ou acidente, tornou a si o jesuíta e continuando o
sermão exclamou:
"Quereis saber
as mercês da Virgem Nossa Senhora? Pois ainda agora veio de fora de
acudir a uma sua devota que por ela tinha chamado; e por sinal vereis
seus vestidos molhados de orvalho"
E o povo atônito
notou que o manto e a saia que vestiam a imagem traziam vestígios do
caminho!
ORAÇÃO
Ó Maria!
Falsamente ou em vão vos chamaria a Igreja sua advogada e refúgio
dos miseráveis? Não suceda jamais que minhas culpas vos possam
impedir de exercerdes o vosso grande ofício de piedade, que vos
constitui advogada e medianeira de paz, única esperança e refúgio
seguríssimo dos miseráveis! Não suceda jamais que a Mãe de Deus,
que deu ao mundo para salvação do gênero humano a fonte da
misericórdia, negue sua piedade a um infeliz que a invoca. Vosso
ofício é ser medianeira de paz entre Deus e os homens: conceda-me,
pois, o vosso auxílio vossa imensa piedade, que é incomparavelmente
maior que todos os meus pecados.