3. FIGURA BÍBLICA DESTA PERFEITA DEVOÇÃO: REBECA E JACÓ

183. De todas as verdades que acabo de escrever em relação à Santíssima Virgem e a seus filhos e servos, o Espírito Santo nos dá, na Sagrada Escritura, uma imagem admirável na história de Jacó, que recebeu a bênção de seu pai Isaac graças aos desvelos e à diligência de sua mãe Rebeca. Ei-la como a narra o Espírito Santo. Em seguida, acrescentarei a sua explicação.

A. HISTÓRIA DE JACÓ

184. Esaú tinha vendido a Jacó seu direito de primogenitura. Vários anos depois, Rebeca, mãe dos dois irmãos, que amava ternamente Jacó, assegurou-lhe essa vantagem por meio de um expediente santo e cheio de mistérios. Aconteceu que Isaac, sentindo-se muito velho, quis abençoar seus filhos antes de morrer. Chamou seu filho Esaú, a quem amava, e mandou-o caçar algo para ele comer e, em seguida, dar-lhe a sua bênção. Rebeca avisou imediatamente Jacó sobre o que se passava e o mandou ir pegar dois cabritos no rebanho. Logo que este os entregou à sua mãe, ela os preparou como sabia que Isaac gostava. Vestiu Jacó com as roupas de Esaú, que ela guardava. Cobriu-lhe as mãos e o pescoço com a pele dos cabritos, para que o pai, que estava cego, julgasse, pelo contato com os pelos da mão, que se tratava de Esaú, embora ouvisse a voz de Jacó. Isaac, com efeito, surpreendido com a voz que acreditava ser a de Jacó, mandou-o se aproximar. Tendo tocado os pelos da pele de cabrito que cobria as mãos dele, disse que, na verdade, a voz era a de Jacó, mas as mãos eram as de Esaú. Depois de ter comido e sentido, ao beijar Jacó, o cheiro de suas roupas perfumadas, ele o abençoou e lhe desejou o orvalho do céu e a fecundidade da terra; estabeleceu-o senhor de todos os seus irmãos, e terminou sua bênção por estas palavras: "Maldito seja quem te amaldiçoar e bendito quem te abençoar" (Gen 27,29). Assim que Isaac terminou de pronunciar essas palavras, entrou Esaú trazendo já preparado o que tinha apanhado na caça, para que o pai comesse e o abençoasse em seguida. Esse santo patriarca ficou tomado de incrível surpresa ao compreender o que tinha se passado. Porém, longe de retratar o que fizera, o confirmou, pois reconhecia no ocorrido claramente o dedo de Deus. Esaú então lançou rugidos, como nota a Sagrada Escritura, e, acusando com fúria o ardil de seu irmão, perguntou a seu pai se tinha apenas uma bênção. Neste ponto, como observam os santos Padres, Esaú é a imagem daqueles que, conciliando facilmente Deus com o mundo, querem gozar ao mesmo tempo as consolações do Céu e as da terra. Isaac, tocado pelos gritos de Esaú, o abençoou afinal, mas com uma bênção terrena, sujeitando-o ao seu irmão, o que fez Esaú conceber um ódio tão entranhado contra Jacó que, para matá-lo, só esperava pela morte do pai. E Jacó não teria podido evitar a morte, se Rebeca, sua querida mãe, não o tivesse salvado pelas diligências e pelos bons conselhos que lhe deu, os quais ele seguiu.

B. INTERPRETAÇÃO DA HISTÓRIA DE JACÓ

185. Antes de explicar essa história, que é tão bela, cumpre notar que, segundo todos os santos Padres e os intérpretes da Sagrada Escritura, Jacó é a figura de Jesus Cristo e dos predestinados, e Esaú a dos réprobos. Basta examinar as ações e a conduta de um e de outro para comprová-lo.

1) Esaú, o mais velho, era forte e robusto de corpo, habilidoso ao atirar flechas e apanhar muitas presas na caçada.

2) Quase não ficava em casa e, confiando somente na sua força e destreza, trabalhava sempre fora.

3) Não se esforçava muito em agradar sua mãe Rebeca, e nada fazia para isso.

4) Era tão guloso e gostava tanto de comer, que vendeu seu direito de primogenitura por um prato de lentilhas.

5) Era, como Caim, cheio de inveja contra seu irmão Jacó e o perseguia sem trégua.

186. Eis a conduta diária dos réprobos.

1) Confiam em sua força e seus talentos para os negócios temporais; são muito fortes, muito hábeis e muito esclarecidos para as coisas do mundo, porém muito fracos e ignorantes nas coisas do Céu. É por isso que:

187. 2) Nunca ou quase nunca permanecem em casa, quer dizer, no seu íntimo, que é a casa interior e essencial que Deus deu a cada homem para, a seu exemplo, nela morar, pois Deus permanece sempre em Si mesmo. Os réprobos não gostam do recolhimento nem da espiritualidade, nem da devoção interior, e tratam de acanhados, carolas e primitivos aqueles que são interiores e retirados do mundo, e que trabalham mais no interior do que no exterior.

188. 3) Os réprobos pouco se preocupam com a devoção à Santíssima Virgem, a Mãe dos predestinados. É verdade que não A odeiam formalmente, e às vezes Lhe dirigem louvores, dizem que A amam e praticam até alguma devoção em sua honra. Mas, de resto, não suportariam que alguém A amasse ternamente, porque não têm por Ela as ternuras de Jacó. Notam defeitos nas práticas de devoção às quais os bons filhos e servos d'Ela se entregam fielmente para ganhar seu afeto. Não acreditam que esta devoção lhes seja necessária para a salvação, e acham que basta não odiarem formalmente a Virgem Maria ou não desprezarem abertamente sua devoção para ganharem as boas graças d'Ela. Acham que já são seus servos, recitando e sussurrando algumas orações em sua honra, sem ternura por Ela nem emenda da própria vida.

189. 4) Os réprobos vendem seu direito de primogenitura, quer dizer, os prazeres do Paraíso por um prato de lentilhas, isto é, pelos prazeres da terra. Riem, bebem, comem, divertem-se, brincam, dançam, etc., como Esaú, sem a preocupação de se tornarem dignos da bênção do Pai celeste. Numa palavra, não pensam senão na terra, não gostam senão da terra, não falam e não agem senão pela terra e seus prazeres, vendendo por um pequeno momento de prazer, por uma vã fumaça de honra e por um pedaço de terra dura, amarela ou branca, a graça batismal, sua veste de inocência, sua herança celeste.

190. 5) Enfim, os réprobos odeiam e perseguem todos os dias os predestinados, aberta ou veladamente. Desprezam-nos, criticam-nos, contrariam-nos, injuriam-nos, roubam-nos, enganam-nos, empobrecem-nos, escorraçam- -nos e os reduzem a pó. Quanto a eles, fazem fortuna, curtem seus prazeres, estão em boa situação, se enriquecem, se engrandecem e vivem à vontade.

191. 1) Jacó, o caçula, era de compleição fraca, meigo e sossegado, e ficava normalmente em casa para ganhar as boas graças de sua mãe Rebeca, a quem amava ternamente. Se saía, não era por sua própria vontade, nem pela confiança que tivesse em sua habilidade, mas por obediência à sua mãe.

192. 2) Amava e honrava sua mãe, pelo que ficava em casa junto dela. Sua maior felicidade era vê-la, e evitava tudo o que podia lhe desagradar. Isso aumentava o amor que Rebeca tinha por ele.

193. 3) Era submisso em todas as coisas à sua mãe e em tudo lhe obedecia, imediata e amorosamente, sem se queixar. Ao menor sinal da vontade materna, o pequeno Jacó corria e trabalhava. Acreditava em tudo o que ela lhe dizia, sem discutir. Por exemplo, quando ela lhe disse que fosse buscar dois cabritos e os trouxesse para preparar do que comer ao seu pai Isaac, Jacó não lhe respondeu que bastava um para dar de comer a um só homem. Mas, sem discutir, fez o que ela lhe dissera.

194. 4) Tinha uma confiança sem limites na sua querida mãe. Como não se fiava de modo algum no seu próprio saber, apoiava-se unicamente nos cuidados e proteção da mãe. Recorria a ela em todas as suas necessidades e a consultava em todas as suas dúvidas. Por exemplo, quando lhe perguntou se, ao invés da bênção, não receberia a maldição de seu pai, acreditou e confiou nela, quando a mãe lhe disse que tomaria sobre si essa maldição.

195. 5) Enfim, imitava, na medida das suas forças, as virtudes que via em sua mãe. Parece que uma das razões pelas quais permanecia recolhido em casa, era para imitar a mãe, tão virtuosa, e fugir das más companhias que corrompem os costumes. Por esse meio, tornou-se digno de receber a dupla bênção de seu pai.

196. Eis também a conduta diária dos predestinados: 1) Permanecem em casa com sua mãe, quer dizer, amam o recolhimento, são interiores e se entregam à oração. Mas o fazem seguindo o exemplo de sua Mãe e na companhia d'Ela, a Virgem Maria, cuja glória reside toda no interior, e que em sua vida sempre amou o retiro e a oração. Verdade é que algumas vezes eles aparecem no mundo, mas por obediência à vontade de Deus e à de sua querida Mãe, a fim de cumprir os deveres de seu estado. Por maiores que sejam, na aparência, as coisas que fazem exteriormente, estimam muito mais as coisas que fazem dentro de si, no seu interior, em companhia da Santíssima Virgem, porque n'Ela realizam a grande obra de sua perfeição, perto da qual todas as outras obras não são senão brinquedos de criança. É por isso que, enquanto algumas vezes seus irmãos e irmãs trabalham exteriormente com muita força, diligência e sucesso, no meio do louvor e aprovação do mundo, sabem eles, pela luz do Espírito Santo, que há muito mais glória, benefício e prazer em permanecer escondido no retiro com Jesus Cristo, seu modelo, numa inteira e perfeita submissão à sua Mãe, do que fazer por si mesmos maravilhas da natureza e da graça no mundo, como tantos Esaús e condenados. A glória de Deus e as riquezas para o homem se encontram na casa de Maria (Cf. Sl 112, 3). Senhor Jesus, como são amáveis vossos tabernáculos! O passarinho achou uma casa para se alojar e a rola um ninho onde abrigar seus filhotes. Oh! quão feliz é o homem que permanece na casa de Maria, onde primeiro fizestes vossa morada! É nesta morada dos predestinados que o homem recebe socorro de Vós somente, e que dispõe no seu coração as ascensões e graus de todas as virtudes, a fim de se elevar à perfeição neste vale de lágrimas: "Como são amáveis as vossas moradas, Senhor dos exércitos" (Sl 84, 2).

197. 2) Amam-Na ternamente e honram verdadeiramente a Santíssima Virgem como sua boa Mãe e Senhora. Amam-Na não apenas de boca, mas em verdade; honram-Na não apenas por fora, mas no fundo do coração; evitam, como Jacó, tudo o que pode Lhe desagradar, e praticam com fervor tudo o que acreditam poder atrair sua benevolência. Trazem-Lhe e Lhe dão, não dois cabritos, como Jacó a Rebeca, mas seu corpo e sua alma, com tudo o que deles depende, simbolizado pelos dois cabritos de Jacó, a fim de que: a) Ela os receba como algo que Lhe pertence; b) Ela os mate e os faça morrer para o pecado e para eles mesmos, despojando-os de sua própria pele e de seu amor próprio, e, por esse meio, agradar a Jesus, seu Filho, que só quer como amigos e discípulos seus os que morreram para si mesmos; c) Ela os prepare ao gosto do Pai celeste e para sua maior glória, que Ela conhece melhor que nenhuma criatura; d) Pelos desvelos e intercessões da Mãe, esse corpo e essa alma, bem purificados de toda mancha, bem mortos, bem despojados e bem preparados, sejam uma iguaria delicada, digna do paladar e da bênção do Pai celeste. Não é isto o que hão de fazer as pessoas predestinadas, que apreciam e praticam a consagração perfeita a Jesus Cristo pelas mãos de Maria que nós ensinamos, para demonstrar a Jesus e a Maria um amor efetivo e corajoso? Os condenados dizem bastante que amam Jesus, que amam e honram Maria, mas não com seus haveres, não até Lhes sacrificar seus corpos com seus sentidos e sua alma com suas paixões, como os predestinados.

198. 3) Estes são submissos e obedientes à Santíssima Virgem, como à sua boa Mãe, seguindo o exemplo de Jesus Cristo que, dos trinta e três anos que viveu na terra, empregou trinta a glorificar Deus seu Pai, por uma perfeita e inteira submissão à sua Santa Mãe. A Ela obedecem seguindo exatamente seus conselhos, como o pequeno Jacó seguiu os de Rebeca, que lhe disse: "Meu filho, segue meus conselhos" (Gen 27, 8). Ou como os convidados nas bodas de Caná, aos quais a Virgem Maria disse: "Fazei tudo o que meu Filho vos disser" (Jo 2, 5). Jacó, por ter obedecido à sua mãe, recebe a bênção como por milagre, embora naturalmente não lhe coubesse. Os convidados às bodas de Caná, por terem seguido o conselho da Santíssima Virgem, foram honrados com o primeiro milagre de Jesus Cristo, que ali converteu a água em vinho, a pedido de sua Santa Mãe. De igual modo, todos aqueles que, até o fim dos séculos, receberem a bênção do Pai celeste e forem honrados com as maravilhas de Deus, não receberão essas graças senão em consequência de sua perfeita obediência a Maria. Os Esaús, ao contrário, perdem sua bênção, por falta de submissão à Santíssima Virgem.

199. 4) Esses predestinados têm uma grande confiança na bondade e no poder da Santíssima Virgem, sua boa Mãe. Reclamam sem cessar seu socorro; olham para Ela como sua estrela polar, para chegar a bom porto; revelam-Lhe suas dificuldades e suas necessidades com muita abertura de coração; apegam-se aos seus seios de misericórdia e suavidade, para ter o perdão de seus pecados pela sua intercessão ou para provar suas doçuras maternais em meio às penas e aborrecimentos. Lançam-se mesmo, escondem-se e se perdem de modo admirável no seu seio amoroso e virginal, para nele serem abrasados de um puro amor, purificados das menores manchas e encontrarem plenamente Jesus, que aí reside como no seu mais glorioso trono. Oh! que felicidade!

Não creiais, diz o abade Guerrico, que haja mais felicidade em morar no seio de Abraão do que no seio de Maria, pois o Senhor nele colocou seu trono. Os réprobos, pelo contrário, põem toda sua confiança em si mesmos. Como o filho pródigo, não comem senão o alimento dos porcos; não se alimentam senão de terra como os sapos, e só amam as coisas visíveis e exteriores como os mundanos. Eles não apreciam as doçuras das entranhas e dos seios de Maria; não sentem um certo apoio e uma certa confiança que os predestinados sentem pela Virgem Maria, sua boa Mãe. Amam miseravelmente a sua fome das coisas exteriores, como diz São Gregório, porque não querem saborear a doçura que lhes está preparada dentro de si mesmos e dentro de Jesus e de Maria.

200. 5) Enfim, os predestinados seguem as vias da Santíssima Virgem, sua boa Mãe. Isto é, eles A imitam, e nisto são verdadeiramente felizes e devotos, trazendo o sinal infalível de sua predestinação, como lhes diz esta boa Mãe: "Bem-aventurados os que praticam minhas virtudes e que seguem as pegadas de minha vida, com o socorro da divina graça" (Pr 8, 32). São felizes neste mundo, durante a vida, pela abundância das graças e doçuras que da minha plenitude lhes comunico mais abundantemente que àqueles que não Me imitam de tão perto. São felizes na morte, que é doce e tranquila, e a qual assisto ordinariamente, para os conduzir, Eu mesma, às alegrias eternas. Finalmente, serão felizes na eternidade, porque nunca algum dos meus dedicados servos, que imitou as minhas virtudes durante a vida, se perdeu.

Os réprobos, ao contrário, são infelizes durante sua vida, em sua morte e na eternidade, porque não imitam a Santíssima Virgem em suas virtudes, contentando-se em pertencer a alguma de suas confrarias, em recitar algumas preces em sua honra ou em praticar alguma outra devoção exterior. Ó Virgem Maria, minha boa Mãe, quão felizes – repito-o com transportes do meu coração – quão felizes são aqueles e aquelas que, não se deixando seduzir por uma falsa devoção para conVosco, guardam fielmente vossas vias, vossos conselhos e vossas ordens! Mas quão infelizes e malditos são aqueles que, abusando de vossa devoção, não guardam os mandamentos de vosso Filho: "Malditos os que se afastam de vossos mandamentos" (Sl 118, 21).

C. DEVERES CARIDOSOS QUE A SANTÍSSIMA VIRGEM PRESTA A SEUS FIÉIS SERVOS

201. Eis agora os deveres caridosos que a Virgem Maria, como a melhor de todas as mães, presta a estes fiéis servos, que se deram a Ela da maneira que expus, e segundo a figura de Jacó.

1) ELA OS AMA

"Eu amo os que me amam" (Pr 8, 17). Ela os ama:

a) Porque é sua verdadeira Mãe. Ora, uma mãe ama sempre seu filho, o fruto de suas entranhas;

b) Ela os ama por reconhecimento, porque efetivamente eles A amam como sua boa Mãe;

c) Ela os ama porque, sendo predestinados, Deus os ama: "Amei Jacó, porém aborreci Esaú" (Rm 9, 13);

d) Ela os ama porque todos se consagraram a Ela, e são seu quinhão e sua herança: "Recebe Israel por tua herança" (Eclo 24, 13).

202. Ela os ama ternamente, e mais ternamente que todas as mães juntas. Reuni, se puderdes, todo o amor natural que as mães de todo o mundo têm pelos seus filhos, num mesmo coração de uma mãe por um filho único: certamente essa mãe amará muito esse filho. No entanto, é verdade que Maria ama ainda mais ternamente seus filhos do que aquela mãe amaria o seu. Ela não os ama somente com afeição, mas eficazmente. Seu amor por eles é ativo e efetivo, como o de Rebeca por Jacó, e ainda mais. Eis o que esta boa Mãe – da qual Rebeca era apenas a imagem – faz para obter a seus filhos a bênção do Pai celeste:

203. a) Ela espreita, como Rebeca, as ocasiões favoráveis para lhes fazer bem, os engrandecer e os enriquecer. Como Ela vê claramente em Deus todos os bens e todos os males, os bons e os maus acontecimentos, dispõe de longe tudo para isentar de todo tipo de males seus servos e os cumular de toda sorte de bens. De modo que, se há um bom proveito a se obter em Deus, pela fidelidade de uma criatura em algum elevado propósito, é certo que Maria alcançará essa dádiva para um de seus bons filhos e servos, e lhe dará a graça de tudo levar a cabo com fidelidade: Ela mesma Se ocupa dos nossos negócios, diz um santo.

204. b) Ela lhes dá bons conselhos, como Rebeca a Jacó: "Meu filho, segue meus conselhos" (Gen 27, 8). E, entre outros conselhos, inspira-lhes de Lhe trazerem dois cabritos, isto é, seu corpo e sua alma, para consagrá-los a Ela, a fim de que Ela prepare com eles um guisado agradável a Deus; e também a fazerem tudo o que Jesus Cristo, seu Filho, ensinou com suas palavras e exemplos. Se não lhes dá esses conselhos diretamente, Ela o faz pelo ministério dos anjos, cuja maior honra e prazer é obedecer a alguma de suas ordens para vir à terra em socorro de algum dos seus servos.

205. c) Quando lhe trazemos e consagramos nosso corpo e nossa alma e tudo o que deles depende, sem nada excetuar, o que faz esta boa Mãe? O que fez outrora Rebeca com os dois cabritos que lhe trouxe Jacó: • Ela os mata e faz morrer para a vida do velho Adão; • Ela os esfola e despoja de sua pele natural, de suas inclinações naturais, de sua vontade e amor próprios, e de todo apego à criatura; • Ela os purifica de todas as manchas e sujeiras de pecados; • Ela os prepara ao gosto de Deus e para sua maior glória. Como só Ela conhece perfeitamente esse gosto divino e a maior glória do Altíssimo, também só Ela pode aprontar e preparar, sem errar, nosso corpo e nossa alma segundo esse gosto infinitamente nobre e essa glória infinitamente oculta.

206. d) Esta boa Mãe, tendo recebido o oferecimento perfeito que Lhe fizemos de nós mesmos e de nossos próprios méritos e satisfações, através da devoção que indiquei, e tendo-nos despojado de nossas velhas roupas, prepara-nos e nos torna dignos de comparecer diante de nosso Pai celeste. • Ela nos reveste das roupas limpas, novas, preciosas e perfumadas de Esaú, o primogênito, isto é, de Jesus Cristo, seu Filho. Ela as guarda em sua casa, quer dizer, Ela as tem em seu poder, sendo a tesoureira e a dispensadora única e eterna dos méritos e das virtudes de seu Filho, Jesus Cristo, e pode dá-los e comunicá-los a quem quiser, quando quiser, como quiser e tanto quanto quiser, como vimos mais acima. • Ela envolve o pescoço e as mãos de seus servos com as peles de cabritos mortos e esfolados, quer dizer, adorna- -os com os méritos e o valor de suas próprias ações. Ela mata e mortifica, na verdade, tudo o que há de impuro e imperfeito em suas pessoas, mas não perde nem dissipa todo o bem que a graça neles operou. Guarda-o e o aumenta, para fazer dele o ornamento e a força de seu pescoço e de suas mãos, isto é, para fortificá-los ao levarem o jugo do Senhor, que se carrega sobre o pescoço, e para realizarem grandes coisas para a glória de Deus e a salvação de seus pobres irmãos. • Ela esparge um novo perfume e uma nova graça nessas roupas e ornamentos ao lhes comunicar suas próprias roupas: seus méritos e suas virtudes, que Ela lhes legou ao morrer, por testamento, como diz uma santa religiosa do século passado, morta em odor de santidade, e que o soube por revelação. De maneira que todos os seus criados, seus fiéis servos e escravos são duplamente vestidos, com as roupas de seu Filho e as suas: "Toda a sua família tem vestes forradas" (Pr 31, 21). Por isso não têm a recear o frio de Jesus Cristo, branco como a neve, que os réprobos, inteiramente nus e despojados dos méritos de Jesus Cristo e da Virgem Maria, não poderão suportar.

207. e) Ela lhes faz obter, enfim, a bênção do Pai celeste, embora naturalmente não a devessem receber, uma vez que são apenas os caçulas e os filhos adotivos. Com essas roupas inteiramente novas, muito preciosas e perfumadas, com seu corpo e sua alma bem preparados e dispostos, eles se aproximam confiantes do leito de repouso de seu Pai celeste.

Ele ouve e distingue sua voz, que é aquela do pecador; toca suas mãos cobertas de peles; sente o bom odor de suas roupas; come com júbilo o que Maria, Mãe deles, Lhe preparou. E, reconhecendo neles os méritos e o bom odor de seu Filho e de sua Santa Mãe: • Dá-lhes sua dupla bênção: a do orvalho do céu (Cf. Gen 27, 28), quer dizer, da graça divina que é semente da glória: "Deus nos abençoou com toda bênção espiritual em Cristo" (Ef 1, 3). E a bênção da fecundidade da terra (Cf. Gen 27, 28), quer dizer, esse bom Pai lhes dá seu pão quotidiano e uma suficiente abundância dos bens deste mundo; • Ele os constitui senhores de seus outros irmãos, os réprobos. Não que essa primazia apareça sempre neste mundo, que passa num instante e onde muitas vezes os condenados dominam: "Até quando, Senhor, triunfarão os ímpios? Até quando se desmandarão em discursos arrogantes, e jactanciosos estarão esses obreiros do mal?" (Sl 93, 3-4). No entanto, essa primazia é verdadeira e aparecerá manifestamente no outro mundo, por toda a eternidade, onde os justos, como diz o Espírito Santo, dominarão e comandarão as nações (Cf. Sb 3, 8). • Sua Majestade, não contente de abençoá-los em suas pessoas e em seus bens, abençoa ainda todos os que os abençoarem, e amaldiçoa todos os que os amaldiçoarem e perseguirem (Cf. Gn 27, 29).

2) ELA OS SUSTENTA EM TUDO

208. O segundo dever de caridade que Nossa Senhora exerce para com estes fiéis servos é o de provê-los de tudo, para o corpo e para a alma.

Ela lhes dá roupas forradas, como acabamos de ver; alimenta-os com as iguarias excelentes da mesa de Deus; dá-lhes de comer o pão da vida, que Ela formou: Meus queridos filhos, Ela lhes diz pela boca da Sabedoria, enchei-vos de minhas gerações, quer dizer, de Jesus, o fruto de vida, que Eu pus no mundo para vós (Cf. Eclo 24, 26). Vinde, lhes repete Ela noutro lugar, comei do meu pão, que é Jesus, e bebei do vinho de seu amor, que para vós misturei com o leite de minhas entranhas (Cf. Pr 9, 5; Ct 5, 1). Sendo a tesoureira e a dispensadora dos dons e das graças do Altíssimo, Ela destina uma boa parte, a melhor, para nutrir e prover seus filhos e servos. Eles são saciados com o pão vivo e inebriados com o vinho que engendra virgens. Eles são amamentados ao peito (Cf. Is 66, 12). Eles têm tanta facilidade para carregar o jugo de Jesus Cristo que nem sentem seu peso, por causa do azeite da devoção com o qual Ela o faz apodrecer (Cf. Is 10, 27).

3) ELA OS CONDUZ E DIRIGE

209. O terceiro bem que a Santíssima Virgem faz aos seus fiéis servos é o de conduzi-los e orientá-los segundo a vontade de seu Filho. Rebeca conduzia seu pequeno Jacó e lhe dava de tempos em tempos bons conselhos, seja para atrair sobre ele a bênção de seu pai, seja para evitar o ódio e a perseguição de seu irmão Esaú. Maria, que é a Estrela do mar, conduz todos os seus servos a bom porto. Mostra-lhes o caminho da vida eterna; evita-lhes os passos perigosos; os conduz pela mão nas veredas da justiça; auxilia-os quando estão prestes a cair; levanta-os quando estão caídos; repreende-os como mãe caridosa, quando erram; e algumas vezes até os castiga amorosamente. Um filho obediente a Maria, sua mãe nutrícia e sua diretora esclarecida, pode se extraviar nos caminhos da eternidade? Seguindo-A, diz São Bernardo, não vos extraviareis. Não temais que um verdadeiro filho de Maria seja enganado pelo maligno e caia em qualquer heresia formal. Onde é Maria que conduz, não há lugar para o espírito maligno com suas ilusões, nem para os heréticos com suas artimanhas: "Se Ela te sustém, não cais" (S. Bernardo).

4) ELA OS DEFENDE E PROTEGE

210. O quarto benefício, que a Virgem Maria presta a seus filhos e fiéis servos, é que Ela os defende e os protege contra seus inimigos. Rebeca, por seus desvelos e diligências, livrou Jacó de todos os perigos que este correu, particularmente da morte que seu irmão Esaú lhe teria provavelmente dado, como fizera Caim a seu irmão Abel, pelo ódio e pela inveja que tinha dele. Maria, a boa Mãe dos predestinados, os esconde sob as asas de sua proteção, como uma galinha aos seus pintinhos. Fala-lhes, abaixa-se até eles, condescende com as suas fraquezas. Cerca-os e os acompanha "como um exército em ordem de batalha" (Ct 6, 4). Um homem rodeado de um exército bem enfileirado de cem mil homens pode temer seus inimigos? Um fiel servo de Maria, cercado de sua proteção e de seu poder imperial, tem ainda menos a temer. Esta boa Mãe e poderosa Princesa dos Céus despacharia batalhões de milhões de anjos em socorro de um dos seus servos, antes que se pudesse jamais dizer que um fiel servidor de Maria, que n'Ela confiou, sucumbiu à malícia, ao número e à força de seus inimigos.

5) ELA INTERCEDE POR ELES

211. Enfim, o quinto e maior benefício que a amável Maria presta a seus fiéis devotos, é que Ela intercede por eles junto de seu Filho, apaziguando-O com suas preces. Ela os une a Ele com vínculo muito íntimo e nesta união os conserva.

Rebeca fez aproximar Jacó do leito de seu pai. O bom homem o tocou, o abraçou e até o beijou com alegria. Ficou contente e saciado com as carnes bem preparadas que Jacó lhe trouxe. E tendo aspirado com muito contentamento os perfumes preciosos de suas vestes, exclamou: "Eis o cheiro de meu filho, que é como o cheiro de um campo fecundo, que o Senhor abençoou" (Gn 27, 27). Esse campo fecundo, cujo perfume encanta o coração de um pai, não é outro senão o odor das virtudes e dos méritos de Maria, que é um campo cheio de graça, onde Deus Pai semeou, qual grão de trigo dos eleitos, seu Filho único. Oh! como um filho perfumado do bom odor de Maria é bem acolhido por Jesus Cristo, Pai do século futuro! Oh! como se une imediata e perfeitamente a Ele! Já o demonstramos longamente mais acima [n. 152- 168].

212. Ademais, depois que Ela cumulou seus filhos e fiéis servos de seus favores, depois de lhes obter a bênção do Pai celeste e a união com Jesus Cristo, Ela os conserva em Jesus Cristo, e Jesus Cristo neles. Ela os guarda e vela sempre sobre eles, para que não percam a graça de Deus nem caiam nas ciladas de seus inimigos. Ela mantém os santos na sua plenitude, e nela os faz perseverar até o fim, como já vimos. Eis a explicação dessa grande e antiga figura da predestinação e da condenação, tão desconhecida e tão cheia de mistérios.