183. De todas as verdades que acabo de
escrever em relação à Santíssima Virgem e a seus filhos e servos,
o Espírito Santo nos dá, na Sagrada Escritura, uma imagem admirável
na história de Jacó, que recebeu a bênção de seu pai Isaac
graças aos desvelos e à diligência de sua mãe Rebeca. Ei-la como
a narra o Espírito Santo. Em seguida, acrescentarei a sua
explicação.
A. HISTÓRIA DE JACÓ
184. Esaú tinha vendido a Jacó seu
direito de primogenitura. Vários anos depois, Rebeca, mãe dos dois
irmãos, que amava ternamente Jacó, assegurou-lhe essa vantagem por
meio de um expediente santo e cheio de mistérios. Aconteceu que
Isaac, sentindo-se muito velho, quis abençoar seus filhos antes de
morrer. Chamou seu filho Esaú, a quem amava, e mandou-o caçar algo
para ele comer e, em seguida, dar-lhe a sua bênção. Rebeca avisou
imediatamente Jacó sobre o que se passava e o mandou ir pegar dois
cabritos no rebanho. Logo que este os entregou à sua mãe, ela os
preparou como sabia que Isaac gostava. Vestiu Jacó com as roupas de
Esaú, que ela guardava. Cobriu-lhe as mãos e o pescoço com a pele
dos cabritos, para que o pai, que estava cego, julgasse, pelo contato
com os pelos da mão, que se tratava de Esaú, embora ouvisse a voz
de Jacó. Isaac, com efeito, surpreendido com a voz que acreditava
ser a de Jacó, mandou-o se aproximar. Tendo tocado os pelos da pele
de cabrito que cobria as mãos dele, disse que, na verdade, a voz era
a de Jacó, mas as mãos eram as de Esaú. Depois de ter comido e
sentido, ao beijar Jacó, o cheiro de suas roupas perfumadas, ele o
abençoou e lhe desejou o orvalho do céu e a fecundidade da terra;
estabeleceu-o senhor de todos os seus irmãos, e terminou sua bênção
por estas palavras: "Maldito seja quem te amaldiçoar e bendito
quem te abençoar" (Gen 27,29). Assim que Isaac terminou de
pronunciar essas palavras, entrou Esaú trazendo já preparado o que
tinha apanhado na caça, para que o pai comesse e o abençoasse em
seguida. Esse santo patriarca ficou tomado de incrível surpresa ao
compreender o que tinha se passado. Porém, longe de retratar o que
fizera, o confirmou, pois reconhecia no ocorrido claramente o dedo de
Deus. Esaú então lançou rugidos, como nota a Sagrada Escritura, e,
acusando com fúria o ardil de seu irmão, perguntou a seu pai se
tinha apenas uma bênção. Neste ponto, como observam os santos
Padres, Esaú é a imagem daqueles que, conciliando facilmente Deus
com o mundo, querem gozar ao mesmo tempo as consolações do Céu e
as da terra. Isaac, tocado pelos gritos de Esaú, o abençoou afinal,
mas com uma bênção terrena, sujeitando-o ao seu irmão, o que fez
Esaú conceber um ódio tão entranhado contra Jacó que, para
matá-lo, só esperava pela morte do pai. E Jacó não teria podido
evitar a morte, se Rebeca, sua querida mãe, não o tivesse salvado
pelas diligências e pelos bons conselhos que lhe deu, os quais ele
seguiu.
B. INTERPRETAÇÃO DA HISTÓRIA DE JACÓ
185. Antes de explicar essa história,
que é tão bela, cumpre notar que, segundo todos os santos Padres e
os intérpretes da Sagrada Escritura, Jacó é a figura de Jesus
Cristo e dos predestinados, e Esaú a dos réprobos. Basta examinar
as ações e a conduta de um e de outro para comprová-lo.
1) Esaú, o mais velho, era forte e
robusto de corpo, habilidoso ao atirar flechas e apanhar muitas
presas na caçada.
2) Quase não ficava em casa e,
confiando somente na sua força e destreza, trabalhava sempre fora.
3) Não se esforçava muito em agradar
sua mãe Rebeca, e nada fazia para isso.
4) Era tão guloso e gostava tanto de
comer, que vendeu seu direito de primogenitura por um prato de
lentilhas.
5) Era, como Caim, cheio de inveja
contra seu irmão Jacó e o perseguia sem trégua.
186. Eis a conduta diária dos
réprobos.
1) Confiam em sua força e seus
talentos para os negócios temporais; são muito fortes, muito hábeis
e muito esclarecidos para as coisas do mundo, porém muito fracos e
ignorantes nas coisas do Céu. É por isso que:
187. 2) Nunca ou quase nunca permanecem
em casa, quer dizer, no seu íntimo, que é a casa interior e
essencial que Deus deu a cada homem para, a seu exemplo, nela morar,
pois Deus permanece sempre em Si mesmo. Os réprobos não gostam do
recolhimento nem da espiritualidade, nem da devoção interior, e
tratam de acanhados, carolas e primitivos aqueles que são interiores
e retirados do mundo, e que trabalham mais no interior do que no
exterior.
188. 3) Os réprobos pouco se preocupam
com a devoção à Santíssima Virgem, a Mãe dos predestinados. É
verdade que não A odeiam formalmente, e às vezes Lhe dirigem
louvores, dizem que A amam e praticam até alguma devoção em sua
honra. Mas, de resto, não suportariam que alguém A amasse
ternamente, porque não têm por Ela as ternuras de Jacó. Notam
defeitos nas práticas de devoção às quais os bons filhos e servos
d'Ela se entregam fielmente para ganhar seu afeto. Não acreditam
que esta devoção lhes seja necessária para a salvação, e acham
que basta não odiarem formalmente a Virgem Maria ou não desprezarem
abertamente sua devoção para ganharem as boas graças d'Ela.
Acham que já são seus servos, recitando e sussurrando algumas
orações em sua honra, sem ternura por Ela nem emenda da própria
vida.
189. 4) Os réprobos vendem seu direito
de primogenitura, quer dizer, os prazeres do Paraíso por um prato de
lentilhas, isto é, pelos prazeres da terra. Riem, bebem, comem,
divertem-se, brincam, dançam, etc., como Esaú, sem a preocupação
de se tornarem dignos da bênção do Pai celeste. Numa palavra, não
pensam senão na terra, não gostam senão da terra, não falam e não
agem senão pela terra e seus prazeres, vendendo por um pequeno
momento de prazer, por uma vã fumaça de honra e por um pedaço de
terra dura, amarela ou branca, a graça batismal, sua veste de
inocência, sua herança celeste.
190. 5) Enfim, os réprobos odeiam e
perseguem todos os dias os predestinados, aberta ou veladamente.
Desprezam-nos, criticam-nos, contrariam-nos, injuriam-nos,
roubam-nos, enganam-nos, empobrecem-nos, escorraçam- -nos e os
reduzem a pó. Quanto a eles, fazem fortuna, curtem seus prazeres,
estão em boa situação, se enriquecem, se engrandecem e vivem à
vontade.
191. 1) Jacó, o caçula, era de
compleição fraca, meigo e sossegado, e ficava normalmente em casa
para ganhar as boas graças de sua mãe Rebeca, a quem amava
ternamente. Se saía, não era por sua própria vontade, nem pela
confiança que tivesse em sua habilidade, mas por obediência à sua
mãe.
192. 2) Amava e honrava sua mãe, pelo
que ficava em casa junto dela. Sua maior felicidade era vê-la, e
evitava tudo o que podia lhe desagradar. Isso aumentava o amor que
Rebeca tinha por ele.
193. 3) Era submisso em todas as coisas
à sua mãe e em tudo lhe obedecia, imediata e amorosamente, sem se
queixar. Ao menor sinal da vontade materna, o pequeno Jacó corria e
trabalhava. Acreditava em tudo o que ela lhe dizia, sem discutir. Por
exemplo, quando ela lhe disse que fosse buscar dois cabritos e os
trouxesse para preparar do que comer ao seu pai Isaac, Jacó não lhe
respondeu que bastava um para dar de comer a um só homem. Mas, sem
discutir, fez o que ela lhe dissera.
194. 4) Tinha uma confiança sem
limites na sua querida mãe. Como não se fiava de modo algum no seu
próprio saber, apoiava-se unicamente nos cuidados e proteção da
mãe. Recorria a ela em todas as suas necessidades e a consultava em
todas as suas dúvidas. Por exemplo, quando lhe perguntou se, ao
invés da bênção, não receberia a maldição de seu pai,
acreditou e confiou nela, quando a mãe lhe disse que tomaria sobre
si essa maldição.
195. 5) Enfim, imitava, na medida das
suas forças, as virtudes que via em sua mãe. Parece que uma das
razões pelas quais permanecia recolhido em casa, era para imitar a
mãe, tão virtuosa, e fugir das más companhias que corrompem os
costumes. Por esse meio, tornou-se digno de receber a dupla bênção
de seu pai.
196. Eis também a conduta diária dos
predestinados: 1) Permanecem em casa com sua mãe, quer dizer, amam o
recolhimento, são interiores e se entregam à oração. Mas o fazem
seguindo o exemplo de sua Mãe e na companhia d'Ela, a Virgem
Maria, cuja glória reside toda no interior, e que em sua vida sempre
amou o retiro e a oração. Verdade é que algumas vezes eles
aparecem no mundo, mas por obediência à vontade de Deus e à de sua
querida Mãe, a fim de cumprir os deveres de seu estado. Por maiores
que sejam, na aparência, as coisas que fazem exteriormente, estimam
muito mais as coisas que fazem dentro de si, no seu interior, em
companhia da Santíssima Virgem, porque n'Ela realizam a grande
obra de sua perfeição, perto da qual todas as outras obras não são
senão brinquedos de criança. É por isso que, enquanto algumas
vezes seus irmãos e irmãs trabalham exteriormente com muita força,
diligência e sucesso, no meio do louvor e aprovação do mundo,
sabem eles, pela luz do Espírito Santo, que há muito mais glória,
benefício e prazer em permanecer escondido no retiro com Jesus
Cristo, seu modelo, numa inteira e perfeita submissão à sua Mãe,
do que fazer por si mesmos maravilhas da natureza e da graça no
mundo, como tantos Esaús e condenados. A glória de Deus e as
riquezas para o homem se encontram na casa de Maria (Cf. Sl 112, 3).
Senhor Jesus, como são amáveis vossos tabernáculos! O passarinho
achou uma casa para se alojar e a rola um ninho onde abrigar seus
filhotes. Oh! quão feliz é o homem que permanece na casa de Maria,
onde primeiro fizestes vossa morada! É nesta morada dos
predestinados que o homem recebe socorro de Vós somente, e que
dispõe no seu coração as ascensões e graus de todas as virtudes,
a fim de se elevar à perfeição neste vale de lágrimas: "Como
são amáveis as vossas moradas, Senhor dos exércitos" (Sl 84, 2).
197. 2) Amam-Na ternamente e honram
verdadeiramente a Santíssima Virgem como sua boa Mãe e Senhora.
Amam-Na não apenas de boca, mas em verdade; honram-Na não apenas
por fora, mas no fundo do coração; evitam, como Jacó, tudo o que
pode Lhe desagradar, e praticam com fervor tudo o que acreditam poder
atrair sua benevolência. Trazem-Lhe e Lhe dão, não dois cabritos,
como Jacó a Rebeca, mas seu corpo e sua alma, com tudo o que deles
depende, simbolizado pelos dois cabritos de Jacó, a fim de que: a)
Ela os receba como algo que Lhe pertence; b) Ela os mate e os faça
morrer para o pecado e para eles mesmos, despojando-os de sua própria
pele e de seu amor próprio, e, por esse meio, agradar a Jesus, seu
Filho, que só quer como amigos e discípulos seus os que morreram
para si mesmos; c) Ela os prepare ao gosto do Pai celeste e para sua
maior glória, que Ela conhece melhor que nenhuma criatura; d) Pelos
desvelos e intercessões da Mãe, esse corpo e essa alma, bem
purificados de toda mancha, bem mortos, bem despojados e bem
preparados, sejam uma iguaria delicada, digna do paladar e da bênção
do Pai celeste. Não é isto o que hão de fazer as pessoas
predestinadas, que apreciam e praticam a consagração perfeita a
Jesus Cristo pelas mãos de Maria que nós ensinamos, para demonstrar
a Jesus e a Maria um amor efetivo e corajoso? Os condenados dizem
bastante que amam Jesus, que amam e honram Maria, mas não com seus
haveres, não até Lhes sacrificar seus corpos com seus sentidos e
sua alma com suas paixões, como os predestinados.
198. 3) Estes são submissos e
obedientes à Santíssima Virgem, como à sua boa Mãe, seguindo o
exemplo de Jesus Cristo que, dos trinta e três anos que viveu na
terra, empregou trinta a glorificar Deus seu Pai, por uma perfeita e
inteira submissão à sua Santa Mãe. A Ela obedecem seguindo
exatamente seus conselhos, como o pequeno Jacó seguiu os de Rebeca,
que lhe disse: "Meu filho, segue meus conselhos" (Gen 27, 8). Ou
como os convidados nas bodas de Caná, aos quais a Virgem Maria
disse: "Fazei tudo o que meu Filho vos disser" (Jo 2, 5). Jacó,
por ter obedecido à sua mãe, recebe a bênção como por milagre,
embora naturalmente não lhe coubesse. Os convidados às bodas de
Caná, por terem seguido o conselho da Santíssima Virgem, foram
honrados com o primeiro milagre de Jesus Cristo, que ali converteu a
água em vinho, a pedido de sua Santa Mãe. De igual modo, todos
aqueles que, até o fim dos séculos, receberem a bênção do Pai
celeste e forem honrados com as maravilhas de Deus, não receberão
essas graças senão em consequência de sua perfeita obediência a
Maria. Os Esaús, ao contrário, perdem sua bênção, por falta de
submissão à Santíssima Virgem.
199. 4) Esses predestinados têm uma
grande confiança na bondade e no poder da Santíssima Virgem, sua
boa Mãe. Reclamam sem cessar seu socorro; olham para Ela como sua
estrela polar, para chegar a bom porto; revelam-Lhe suas dificuldades
e suas necessidades com muita abertura de coração; apegam-se aos
seus seios de misericórdia e suavidade, para ter o perdão de seus
pecados pela sua intercessão ou para provar suas doçuras maternais
em meio às penas e aborrecimentos. Lançam-se mesmo, escondem-se e
se perdem de modo admirável no seu seio amoroso e virginal, para
nele serem abrasados de um puro amor, purificados das menores manchas
e encontrarem plenamente Jesus, que aí reside como no seu mais
glorioso trono. Oh! que felicidade!
Não creiais, diz o abade Guerrico, que
haja mais felicidade em morar no seio de Abraão do que no seio de
Maria, pois o Senhor nele colocou seu trono. Os réprobos, pelo
contrário, põem toda sua confiança em si mesmos. Como o filho
pródigo, não comem senão o alimento dos porcos; não se alimentam
senão de terra como os sapos, e só amam as coisas visíveis e
exteriores como os mundanos. Eles não apreciam as doçuras das
entranhas e dos seios de Maria; não sentem um certo apoio e uma
certa confiança que os predestinados sentem pela Virgem Maria, sua
boa Mãe. Amam miseravelmente a sua fome das coisas exteriores, como
diz São Gregório, porque não querem saborear a doçura que lhes
está preparada dentro de si mesmos e dentro de Jesus e de Maria.
200. 5) Enfim, os predestinados seguem
as vias da Santíssima Virgem, sua boa Mãe. Isto é, eles A imitam,
e nisto são verdadeiramente felizes e devotos, trazendo o sinal
infalível de sua predestinação, como lhes diz esta boa Mãe:
"Bem-aventurados os que praticam minhas virtudes e que seguem as
pegadas de minha vida, com o socorro da divina graça" (Pr 8, 32).
São felizes neste mundo, durante a vida, pela abundância das graças
e doçuras que da minha plenitude lhes comunico mais abundantemente
que àqueles que não Me imitam de tão perto. São felizes na morte,
que é doce e tranquila, e a qual assisto ordinariamente, para os
conduzir, Eu mesma, às alegrias eternas. Finalmente, serão felizes
na eternidade, porque nunca algum dos meus dedicados servos, que
imitou as minhas virtudes durante a vida, se perdeu.
Os réprobos, ao contrário, são
infelizes durante sua vida, em sua morte e na eternidade, porque não
imitam a Santíssima Virgem em suas virtudes, contentando-se em
pertencer a alguma de suas confrarias, em recitar algumas preces em
sua honra ou em praticar alguma outra devoção exterior. Ó Virgem
Maria, minha boa Mãe, quão felizes – repito-o com transportes do
meu coração – quão felizes são aqueles e aquelas que, não se
deixando seduzir por uma falsa devoção para conVosco, guardam
fielmente vossas vias, vossos conselhos e vossas ordens! Mas quão
infelizes e malditos são aqueles que, abusando de vossa devoção,
não guardam os mandamentos de vosso Filho: "Malditos os que se
afastam de vossos mandamentos" (Sl 118, 21).
C. DEVERES CARIDOSOS QUE A SANTÍSSIMA
VIRGEM PRESTA A SEUS FIÉIS SERVOS
201. Eis agora os deveres caridosos que
a Virgem Maria, como a melhor de todas as mães, presta a estes fiéis
servos, que se deram a Ela da maneira que expus, e segundo a figura
de Jacó.
1) ELA OS AMA
"Eu amo os que me amam" (Pr 8, 17).
Ela os ama:
a) Porque é sua verdadeira Mãe. Ora,
uma mãe ama sempre seu filho, o fruto de suas entranhas;
b) Ela os ama por reconhecimento,
porque efetivamente eles A amam como sua boa Mãe;
c) Ela os ama porque, sendo
predestinados, Deus os ama: "Amei Jacó, porém aborreci Esaú"
(Rm 9, 13);
d) Ela os ama porque todos se
consagraram a Ela, e são seu quinhão e sua herança: "Recebe
Israel por tua herança" (Eclo 24, 13).
202. Ela os ama ternamente, e mais
ternamente que todas as mães juntas. Reuni, se puderdes, todo o amor
natural que as mães de todo o mundo têm pelos seus filhos, num
mesmo coração de uma mãe por um filho único: certamente essa mãe
amará muito esse filho. No entanto, é verdade que Maria ama ainda
mais ternamente seus filhos do que aquela mãe amaria o seu. Ela não
os ama somente com afeição, mas eficazmente. Seu amor por eles é
ativo e efetivo, como o de Rebeca por Jacó, e ainda mais. Eis o que
esta boa Mãe – da qual Rebeca era apenas a imagem – faz para
obter a seus filhos a bênção do Pai celeste:
203. a) Ela espreita, como Rebeca, as
ocasiões favoráveis para lhes fazer bem, os engrandecer e os
enriquecer. Como Ela vê claramente em Deus todos os bens e todos os
males, os bons e os maus acontecimentos, dispõe de longe tudo para
isentar de todo tipo de males seus servos e os cumular de toda sorte
de bens. De modo que, se há um bom proveito a se obter em Deus, pela
fidelidade de uma criatura em algum elevado propósito, é certo que
Maria alcançará essa dádiva para um de seus bons filhos e servos,
e lhe dará a graça de tudo levar a cabo com fidelidade: Ela mesma
Se ocupa dos nossos negócios, diz um santo.
204. b) Ela lhes dá bons conselhos,
como Rebeca a Jacó: "Meu filho, segue meus conselhos" (Gen 27,
8). E, entre outros conselhos, inspira-lhes de Lhe trazerem dois
cabritos, isto é, seu corpo e sua alma, para consagrá-los a Ela, a
fim de que Ela prepare com eles um guisado agradável a Deus; e
também a fazerem tudo o que Jesus Cristo, seu Filho, ensinou com
suas palavras e exemplos. Se não lhes dá esses conselhos
diretamente, Ela o faz pelo ministério dos anjos, cuja maior honra e
prazer é obedecer a alguma de suas ordens para vir à terra em
socorro de algum dos seus servos.
205. c) Quando lhe trazemos e
consagramos nosso corpo e nossa alma e tudo o que deles depende, sem
nada excetuar, o que faz esta boa Mãe? O que fez outrora Rebeca com
os dois cabritos que lhe trouxe Jacó: • Ela os mata e faz morrer
para a vida do velho Adão; • Ela os esfola e despoja de sua pele
natural, de suas inclinações naturais, de sua vontade e amor
próprios, e de todo apego à criatura; • Ela os purifica de todas
as manchas e sujeiras de pecados; • Ela os prepara ao gosto de Deus
e para sua maior glória. Como só Ela conhece perfeitamente esse
gosto divino e a maior glória do Altíssimo, também só Ela pode
aprontar e preparar, sem errar, nosso corpo e nossa alma segundo esse
gosto infinitamente nobre e essa glória infinitamente oculta.
206. d) Esta boa Mãe, tendo recebido o
oferecimento perfeito que Lhe fizemos de nós mesmos e de nossos
próprios méritos e satisfações, através da devoção que
indiquei, e tendo-nos despojado de nossas velhas roupas, prepara-nos
e nos torna dignos de comparecer diante de nosso Pai celeste. • Ela
nos reveste das roupas limpas, novas, preciosas e perfumadas de Esaú,
o primogênito, isto é, de Jesus Cristo, seu Filho. Ela as guarda em
sua casa, quer dizer, Ela as tem em seu poder, sendo a tesoureira e a
dispensadora única e eterna dos méritos e das virtudes de seu
Filho, Jesus Cristo, e pode dá-los e comunicá-los a quem quiser,
quando quiser, como quiser e tanto quanto quiser, como vimos mais
acima. • Ela envolve o pescoço e as mãos de seus servos com as
peles de cabritos mortos e esfolados, quer dizer, adorna- -os com os
méritos e o valor de suas próprias ações. Ela mata e mortifica,
na verdade, tudo o que há de impuro e imperfeito em suas pessoas,
mas não perde nem dissipa todo o bem que a graça neles operou.
Guarda-o e o aumenta, para fazer dele o ornamento e a força de seu
pescoço e de suas mãos, isto é, para fortificá-los ao levarem o
jugo do Senhor, que se carrega sobre o pescoço, e para realizarem
grandes coisas para a glória de Deus e a salvação de seus pobres
irmãos. • Ela esparge um novo perfume e uma nova graça nessas
roupas e ornamentos ao lhes comunicar suas próprias roupas: seus
méritos e suas virtudes, que Ela lhes legou ao morrer, por
testamento, como diz uma santa religiosa do século passado, morta em
odor de santidade, e que o soube por revelação. De maneira que
todos os seus criados, seus fiéis servos e escravos são duplamente
vestidos, com as roupas de seu Filho e as suas: "Toda a sua família
tem vestes forradas" (Pr 31, 21). Por isso não têm a recear o
frio de Jesus Cristo, branco como a neve, que os réprobos,
inteiramente nus e despojados dos méritos de Jesus Cristo e da
Virgem Maria, não poderão suportar.
207. e) Ela lhes faz obter, enfim, a
bênção do Pai celeste, embora naturalmente não a devessem
receber, uma vez que são apenas os caçulas e os filhos adotivos.
Com essas roupas inteiramente novas, muito preciosas e perfumadas,
com seu corpo e sua alma bem preparados e dispostos, eles se
aproximam confiantes do leito de repouso de seu Pai celeste.
Ele ouve e distingue sua voz, que é
aquela do pecador; toca suas mãos cobertas de peles; sente o bom
odor de suas roupas; come com júbilo o que Maria, Mãe deles, Lhe
preparou. E, reconhecendo neles os méritos e o bom odor de seu Filho
e de sua Santa Mãe: • Dá-lhes sua dupla bênção: a do orvalho
do céu (Cf. Gen 27, 28), quer dizer, da graça divina que é semente
da glória: "Deus nos abençoou com toda bênção espiritual em
Cristo" (Ef 1, 3). E a bênção da fecundidade da terra (Cf. Gen
27, 28), quer dizer, esse bom Pai lhes dá seu pão quotidiano e uma
suficiente abundância dos bens deste mundo; • Ele os constitui
senhores de seus outros irmãos, os réprobos. Não que essa primazia
apareça sempre neste mundo, que passa num instante e onde muitas
vezes os condenados dominam: "Até quando, Senhor, triunfarão os
ímpios? Até quando se desmandarão em discursos arrogantes, e
jactanciosos estarão esses obreiros do mal?" (Sl 93, 3-4). No
entanto, essa primazia é verdadeira e aparecerá manifestamente no
outro mundo, por toda a eternidade, onde os justos, como diz o
Espírito Santo, dominarão e comandarão as nações (Cf. Sb 3, 8).
• Sua Majestade, não contente de abençoá-los em suas pessoas e
em seus bens, abençoa ainda todos os que os abençoarem, e amaldiçoa
todos os que os amaldiçoarem e perseguirem (Cf. Gn 27, 29).
2) ELA OS SUSTENTA EM TUDO
208. O segundo dever de caridade que
Nossa Senhora exerce para com estes fiéis servos é o de provê-los
de tudo, para o corpo e para a alma.
Ela lhes dá roupas forradas, como
acabamos de ver; alimenta-os com as iguarias excelentes da mesa de
Deus; dá-lhes de comer o pão da vida, que Ela formou: Meus queridos
filhos, Ela lhes diz pela boca da Sabedoria, enchei-vos de minhas
gerações, quer dizer, de Jesus, o fruto de vida, que Eu pus no
mundo para vós (Cf. Eclo 24, 26). Vinde, lhes repete Ela noutro
lugar, comei do meu pão, que é Jesus, e bebei do vinho de seu amor,
que para vós misturei com o leite de minhas entranhas (Cf. Pr 9, 5;
Ct 5, 1). Sendo a tesoureira e a dispensadora dos dons e das graças
do Altíssimo, Ela destina uma boa parte, a melhor, para nutrir e
prover seus filhos e servos. Eles são saciados com o pão vivo e
inebriados com o vinho que engendra virgens. Eles são amamentados ao
peito (Cf. Is 66, 12). Eles têm tanta facilidade para carregar o
jugo de Jesus Cristo que nem sentem seu peso, por causa do azeite da
devoção com o qual Ela o faz apodrecer (Cf. Is 10, 27).
3) ELA OS CONDUZ E DIRIGE
209. O terceiro bem que a Santíssima
Virgem faz aos seus fiéis servos é o de conduzi-los e orientá-los
segundo a vontade de seu Filho. Rebeca conduzia seu pequeno Jacó e
lhe dava de tempos em tempos bons conselhos, seja para atrair sobre
ele a bênção de seu pai, seja para evitar o ódio e a perseguição
de seu irmão Esaú. Maria, que é a Estrela do mar, conduz todos os
seus servos a bom porto. Mostra-lhes o caminho da vida eterna;
evita-lhes os passos perigosos; os conduz pela mão nas veredas da
justiça; auxilia-os quando estão prestes a cair; levanta-os quando
estão caídos; repreende-os como mãe caridosa, quando erram; e
algumas vezes até os castiga amorosamente. Um filho obediente a
Maria, sua mãe nutrícia e sua diretora esclarecida, pode se
extraviar nos caminhos da eternidade? Seguindo-A, diz São Bernardo,
não vos extraviareis. Não temais que um verdadeiro filho de Maria
seja enganado pelo maligno e caia em qualquer heresia formal. Onde é
Maria que conduz, não há lugar para o espírito maligno com suas
ilusões, nem para os heréticos com suas artimanhas: "Se Ela te
sustém, não cais" (S. Bernardo).
4) ELA OS DEFENDE E PROTEGE
210. O quarto benefício, que a Virgem
Maria presta a seus filhos e fiéis servos, é que Ela os defende e
os protege contra seus inimigos. Rebeca, por seus desvelos e
diligências, livrou Jacó de todos os perigos que este correu,
particularmente da morte que seu irmão Esaú lhe teria provavelmente
dado, como fizera Caim a seu irmão Abel, pelo ódio e pela inveja
que tinha dele. Maria, a boa Mãe dos predestinados, os esconde sob
as asas de sua proteção, como uma galinha aos seus pintinhos.
Fala-lhes, abaixa-se até eles, condescende com as suas fraquezas.
Cerca-os e os acompanha "como um exército em ordem de batalha"
(Ct 6, 4). Um homem rodeado de um exército bem enfileirado de cem
mil homens pode temer seus inimigos? Um fiel servo de Maria, cercado
de sua proteção e de seu poder imperial, tem ainda menos a temer.
Esta boa Mãe e poderosa Princesa dos Céus despacharia batalhões de
milhões de anjos em socorro de um dos seus servos, antes que se
pudesse jamais dizer que um fiel servidor de Maria, que n'Ela
confiou, sucumbiu à malícia, ao número e à força de seus
inimigos.
5) ELA INTERCEDE POR ELES
211. Enfim, o quinto e maior benefício
que a amável Maria presta a seus fiéis devotos, é que Ela
intercede por eles junto de seu Filho, apaziguando-O com suas preces.
Ela os une a Ele com vínculo muito íntimo e nesta união os
conserva.
Rebeca fez aproximar Jacó do leito de
seu pai. O bom homem o tocou, o abraçou e até o beijou com alegria.
Ficou contente e saciado com as carnes bem preparadas que Jacó lhe
trouxe. E tendo aspirado com muito contentamento os perfumes
preciosos de suas vestes, exclamou: "Eis o cheiro de meu filho, que
é como o cheiro de um campo fecundo, que o Senhor abençoou" (Gn
27, 27). Esse campo fecundo, cujo perfume encanta o coração de um
pai, não é outro senão o odor das virtudes e dos méritos de
Maria, que é um campo cheio de graça, onde Deus Pai semeou, qual
grão de trigo dos eleitos, seu Filho único. Oh! como um filho
perfumado do bom odor de Maria é bem acolhido por Jesus Cristo, Pai
do século futuro! Oh! como se une imediata e perfeitamente a Ele! Já
o demonstramos longamente mais acima [n. 152- 168].
212. Ademais, depois que Ela cumulou
seus filhos e fiéis servos de seus favores, depois de lhes obter a
bênção do Pai celeste e a união com Jesus Cristo, Ela os conserva
em Jesus Cristo, e Jesus Cristo neles. Ela os guarda e vela sempre
sobre eles, para que não percam a graça de Deus nem caiam nas
ciladas de seus inimigos. Ela mantém os santos na sua plenitude, e
nela os faz perseverar até o fim, como já vimos. Eis a explicação
dessa grande e antiga figura da predestinação e da condenação,
tão desconhecida e tão cheia de mistérios.