Afirmamos ser
impossível, moralmente falando, que se perca um devoto de Maria.
Verifica-se, entre-tanto isso, com a condição que ele viva sem
pecado, ou que pelo menos tenha desejo de converter-se. Nesse caso,
certamente, Maria o ajudará. Quisesse alguém, ao contrário, pecar
na esperança de ser salvo por Nossa Senhora, esse se tornaria por
sua culpa indigno e incapaz da proteção de Maria.
Em segundo lugar
nossa devoção deve ser perseverante. Só quem persevera recebe a
coroa, diz São Bernardo. Tomás de Kempis, sendo menino, costumava
todos os dias recorrer à Virgem Maria, com certas orações. Um dia,
porém, delas se esqueceu, e depois as omitiu durante umas semanas.
Finalmente, as abandonou por completo. Certa noite viu em sonho como
Maria abraçava os seus companheiros, mas em lhe chegando a vez de
ser abraçado, ela disse:
"Que esperas de
mim, tu que deixaste as tuas devoções? Afasta-te, que és indigno
de um abraço meu"
Tomás despertou
aterrorizado e recomeçou com as costumadas devoções.
"Com razão
assegura por isso Ricardo de São Lourenço: Quem é perseverante na
devoção a Maria, pode nutrir a bela esperança de ver realizados
todos os seus desejos. Como ninguém, entretanto, pode estar certo de
tal perseverança, ninguém por isso pode também ter certeza de sua
salvação, antes da morte"
Memorável
ensinamento deixou a seus companheiros São João Berchmams, da
Companhia de Jesus. Estando ele para morrer, perguntaram-lhe por um
obséquio que fosse muito agradável a Nossa Senhora e dela lhes
obtivesse a proteção. O santo respondeu:
"Pouca coisa,
mas com constância"
Vou, contudo,
indicar, de um modo simples e sucinto, diversos obséquios que
podemos ofertar à nossa boa Mãe, para alcançar sua benevolência.
É esta, em minha opinião, a coisa mais importante, de quantas deixo
escritas nesta obra. Mas não recomendo a meu leitor que as pratique
todas. Pratique antes aquelas que escolher, mas com perseverança e
com temor de perder a proteção da divina Mãe, se vier a deixá-las.
Ah! Quantos dos condenados de hoje se teriam salvado, se houvessem
perseverado nas práticas de devoção em honra de Nossa Senhora!
1. MUITO AGRADA À
SANTÍSSIMA VIRGEM A SAUDAÇÃO ANGÉLICA
Por ela lhe
renovamos a alegria que sentiu, quando São Gabriel lhe anunciou que
fora eleita para Mãe de Deus. Nessa intenção devemos saudá-la
muitas vezes com a Ave Maria.
Saudai-a com a
Ave Maria, diz Tomás de Kempis, porque ela gosta muito dessa
saudação. Que não lhe podemos dirigir saudação mais agradável,
do que com a Ave Maria, disse-o a Virgem a Santa Matilde. Por ele
será também saudado todo aquele que a saúde. São Bernardo, certa
ocasião, ouviu de uma estátua da Senhora as palavras: Eu te saúdo,
Bernardo! Ora, a saudação de Maria consiste sempre em alguma nova
graça, diz Conrado de Saxônia. Pergunta Ricardo:
"É possível
que Maria recuse mais uma graça a quem dela se aproxima e diz: Ave,
Maria?"
A Santa Gertrudes
pro-meteu a Mãe de Deus tantos auxílios na hora da morte, quantas
Ave Marias lhe houvesse recitado em vida. Alano a Rupe afirma que, ao
ouvir essa saudação angélica, alegra-se o céu, treme o inferno e
foge o demônio. Com efeito, atesta-o Tomás de Kempis, pois com uma
Ave Maria pôs em fuga o demônio que lhe aparecera.
A PRÁTICA DESSA
DEVOÇÃO PODE SER A SEGUINTE:
a) Dizer de manhã
e de noite, ao levantar e ao deitar-se, 3 Ave Marias, ajuntando
depois de cada uma a pequena jaculatória: Por vossa pura e imaculada
Conceição, ó Maria, purificai meu corpo e santificai minha alma.
Em seguida,
devemos pedir a bênção a Maria, conforme fazia sempre Santo
Estanislau, pondo-nos sob o manto de nossa Mãe e pedindo que naquele
dia ou naquela noite nos livre de todo pecado. É recomendável que,
para esse fim, tenhamos junto ao leito uma bela imagem da Santíssima
Virgem.
b) Recitar o Anjo
do Senhor com as três Aves Marias usuais, pela manhã, ao meio dia e
à noite.
Foi João XXII o
primeiro Papa que indulgenciou esta devoção (1328). Em 1724, Bento
XIII concedeu cem dias de indulgências a quem recitar o Anjo do
Senhor, e indulgência plenária a quem rezar durante um mês,
confessando-se e comungando.
Outrora, ao som
das Ave Marias, todos se ajoelhavam para rezar o Anjo do Senhor. São
Carlos Borromeu não se acanhava de descer da carruagem, para
recitá-lo de joelhos na rua, mesmo na lama muitas vezes. Aos sábados
de tarde e durante todo o domingo recita-se de pé. No tempo de
Páscoa, como explica Bento XIV, em lugar dele recita-se a antífona
Regina caeli laetare – Rainha do céu, alegra-te.
c) Saudar a Mãe
de Deus com a Ave Maria, sempre que se ouve soar o relógio
À imitação de
Santo Afonso Rodriguez, irmão da Companhia de Jesus (1617), o qual à
noite era acordado pelos anjos para saudar a Senhora. Saudá-la ao
sair de casa e ao entrar nela, para que a Virgem dentro e fora de
casa nos livre do pecado. E depois, em espírito, beijar-lhe os pés,
como fazem os Cartuxos.
d) Fazer o mesmo
quando se passa diante de uma imagem da Mãe de Deus.
É bom colocar,
quando se pode, uma bela imagem de Maria na parede da casa, para que
o transeunte a possam venerar. Em Nápoles e Roma há esse belo
costume.
e) Por ordem da
Santa Igreja, começa e termina cada hora do Divino Ofício com a
recitação da Ave Maria.
f) Ler, durante
um quarto de hora, algum livro que lhe trate das glórias.
2. EXERCÍCIOS DE
PENITÊNCIA
a) Com a devida
licença do confessor, impor-se alguma mortificação exterior, como
o cilício, o jejum, a abstinência de frutas à mesa, de comidas
mais saborosas. Melhores são, entretanto, durante essas novenas, as
mortificações interiores, como abster-se de ver e ouvir
curiosidades, entregar-se ao retiro, ao silêncio, à obediência;
evitar a impaciência nas respostas, suportar as contrariedades e
outras semelhantes. Elas se podem praticar com menor perigo de
vanglória e maior merecimento, dispensando até a licença do
diretor espiritual.
b) Exercício
mais proveitoso, porém, será tomar, desde o princípio da novena, o
propósito, de corrigir-se de algum defeito a que se é mais
inclinado. Por isso é bom, por ocasião das visitas acima
mencionadas, pedir perdão das culpas passadas, renovar o propósito
de nunca mais cair, e implorar para esse fim o auxílio de Maria.
c) O obséquio
mais agradável a Maria, entretanto, é a imitação de suas
virtudes. Assim é bom, em cada novena, propormo-nos alguma virtude
especial de Maria, a mais adaptada ao mistério que se celebra. Por
exemplo:
Na festa da
Conceição, a pureza de intenção;
Na festa da
Natividade, a renovação do espírito;
Na Apresentação,
o desapego daquilo a que nos sentimos mais presos;
Na Anunciação,
a humildade e o amor dos desprezos;
Na Visitação, a
caridade para com o próximo, fazendo esmolas, ou pelo menos rezando
pelos pecadores;
Na Purificação,
a obediência aos superiores;
Na Assunção, a
prática do desapego, fazendo tudo como preparação à morte, e
aplicando-nos em viver cada dia como se fosse o último da vida.
Desse modo as
novenas produzirão grandes resultados.
d) Muito
recomendável é a comunhão frequente, e mesmo diária, durante a
novena. Dizia o padre Segneri, que não podemos honrar melhor a
Maria, do que por meio de Jesus. A Virgem, segundo o padre Crasset,
revelou a uma alma santa, que não se lhe pode oferecer coisa mais
cara do que a santa comunhão, porque é aí que o Salvador colhe nas
almas os frutos de sua Paixão. É claro, pois, que a Santíssima
Virgem nada deseja mais de seus devotos, que os ver receberem a santa
comunhão.
e) Finalmente, no
dia da festa, depois da comunhão, é preciso oferecermo-nos ao
serviço dessa divina Mãe, pedindo-lhe a virtude que nos propusemos
na novena, ou alguma outra graça especial. E é bom escolher cada
ano, entre as festas da Virgem, uma para a qual nos prepararemos com
maior fervor. Nesse dia então de novo nos consagraremos de um modo
mais especial ao seu serviço, elegendo-a por Senhora nossa, Advogada
e nossa Mãe. Então lhe pediremos perdão das negligências
cometidas em seu serviço, durante o ano findo, com a promessa de
maior fidelidade para o ano vindouro. Pedir-lhe-emos, finalmente, que
nos aceite por servos, e nos alcance uma santa morte.
EXEMPLO
Quantas
conversões não se têm visto, devidas a uma simples Ave Maria, a um
obséquio devoto à Virgem Santíssima! Contam-se inúmeros exemplos
edificantes e impressionantes. Quanto é preciosa a devoção a Maria
ainda que mínima! Nos dias da Revolução francesa havia um monstro
em carne humana que se chamava Laly, capitão da nau Deux Associees,
que era uma espécie de prisão flutuante, na qual se trucidavam
sacerdotes e religiosas perseguidas pela Revolução. Não se podem
ler sem horror as infâmias e crueldades praticadas por este bandido
nos dias do Terror. Suas mãos haviam se manchado do sangue de
inúmeros sacerdotes e mártires da Revolução. Homem mau, viciado,
uma fera humana. Todos fugiam dele horrorizados. Passaram-se os dias
da Revolução e no começo do século XX, Laly já velho e doente
caiu numa miséria extrema com toda a família. Viu-se abandonado. Um
sacerdote compadeceu-se do miserável e o foi procurar cheio de
bondade tentando convertê-lo e a fim de ajudá-lo naquela extrema
pobreza e abandono. Laly não podia nem sequer sair à rua, porque o
povo o odiava e ameaçava matá-lo em praça pública. Neste
miserável estado se achava o pobre pecador, e desesperado, respondia
ao Capelão do Hospital, que se interessava pela sua conversão, com
injúrias grosseiras e torpezas indignas. Parecia um caso desesperado
e perdido.
Todavia uma manhã
contra toda expectativa viu-se o infeliz sair de casa e procurar a
Igreja. Ajoelhou-se ante o Altar da Virgem Santíssima, humilhado,
arrependido, em pranto convulso. Não era mais o mesmo homem.
Confessou arrependidos seus enormes crimes, e recebeu absolvição.
Que teria se passado naquela alma? Declarou ao confessor:
"Meu padre,
sempre guardei, embora no meio dos meus crimes, uma devoção a Maria
Santíssima. Nunca passei um só dia sem recitar uma Ave Maria que
prometi rezar toda minha vida, à minha mãe antes da morte"
A Ave Maria o
salvou.
ORAÇÃO
Rogai, pois, o
Maria, e recomendai-me a vosso Filho. Vós melhor do que eu conheço
as minhas misérias e necessidades. Que mais posso dizer-vos? Tende
piedade de mim. Sou tão miserável e ignorante que nem sei conhecer
e pedir as graças que mais necessárias me são. Mãe e Rainha minha
dulcíssima, pedi por mim, e impetrai-me de vosso Filho as graças
que sabeis mais convenientes e necessárias para minha alma. Nas
vossas mãos todo me entrego, pedindo apenas à Divina Majestade que,
pelos merecimentos de Jesus, meu Salvador, me conceda as graças que
para mim solicitais. Vossas súplicas não conhecem repulsas: são
súplicas de Mãe junto de um Filho que tanto vos ama, e se compraz
em fazer quanto lhe pedis, para assim vos honrar mais e mostrar-vos
ao mesmo tempo o grande amor que vos tem. Senhora, façamos este
contrato: quero viver fiado em vós inteiramente; a vós compete
cuidar da minha salvação. Amém.