Motivo tem a
Igreja em aplicar a Maria as palavras do Eclesiástico (24, 24), com
as quais lhe chama a Mãe da santa esperança, Mãe que faz nascer em
nós, não a esperança vã dos bens transitórios desta vida, mas a
santa esperança dos bens imensos e eternos da vida bem-aventurada.
Salve, esperança de minha alma, saudava-a Santo Efrém, salve, ó
segura salvação dos cristãos, auxílio dos pecadores, defesa dos
fiéis, salvação do mundo. Aqui pondera São Boaventura que, depois
de Deus, outra esperança não temos senão Maria e por isso a invoca
"como única esperança nossa depois de Deus". Também é esta a
convicção de Santo Efrém. Reflete o Santo sobre a presente ordem
da Providência, com que Deus tem determinado (como diz São Bernardo
e adiante nós demonstraremos largamente) que todos, que se hão de
salvar, hajam de consegui-lo por meio de Maria. E diz-lhe então:
"Senhora não
deixe de guardar-nos e de proteger-nos sob vosso manto, já que
depois de Deus não temos outra esperança senão a vós"
O mesmo diz Santo
Tomás de Vilanova, para quem Maria é nosso único refúgio, socorro
e asilo. São Bernardo parece nos dar o motivo de tudo isso, quando
diz:
"Considera, ó
homem, o desígnio de Deus, desígnio cuja finalidade é
dispensar-nos mais profundamente sua misericórdia. Querendo ele
remir o gênero humano, depositou o preço inteiro da redenção nas
mãos de Maria para que o reparta à sua vontade"
Por este motivo
diz o abade de Celes:
"Todos os bens,
todas as graças, os auxílios todos que jamais receberam ou até ao
fim do mundo receberão os homens, lhes tem vindo e hão de vir por
intermédio de Maria"
É, portanto mui
justa a exclamação do piedoso Blósio:
"Ó Maria, sois
tão amável e agradecida para com os que vos amam; quem será tão
louco ou infeliz que não vos ame? Nas dúvidas e confusões
ilustrais o entendimento daqueles que a vós recorrem nas suas
aflições. Consolais nos perigos aqueles que em vós confiam. Acudis
a quem por vós chama; vós, depois do vosso divino Filho, sois a
segura salvação de vossos fiéis servos. Salve, pois, ó esperança
dos desesperados, ó refúgio dos abandonados. Sois onipotente, ó
Maria, visto que vosso Filho quer vos honrar, fazendo sem demora tudo
quanto vós quereis"
MARIA É A
ESPERANÇA DE TODOS
São Germano,
reconhecendo em Maria a fonte de todo nosso bem e a libertação de
todos os males, assim a invoca:
Ó Senhora minha,
sois a minha única consolação dada por Deus, vós o guia da minha
peregrinação, vós a fortaleza das minhas débeis forças; a
riqueza das minhas misérias, a liberdade das minhas cadeias, e a
esperança da minha salvação. Ouvi as minhas orações, tende
compaixão dos meus suspiros, ó minha Rainha, que sois meu refúgio,
minha vida, meu auxílio, minha esperança, minha fortaleza!
Tem, portanto,
razão Santo Antonino ao aplicar a Maria estas palavras da Sabedoria
(7,11):
"Juntamente com
ela me vieram todos os bens"
Já que MARIA é
a Mãe e a dispensadora de todos os bens, diz ele, bem se pode
afirmar que todos os homens, especialmente os que vivem no mundo como
devotos desta Soberana, juntamente com a devoção de Maria
adquiriram todos os bens. Por isso, sem mais restrições, dizia o
abade de Celes:
"Quem ama
Maria, acha todo o bem, acha todas as graças e todas as virtudes,
porque ela por sua intercessão lhe alcança tudo quanto lhe é
necessário para enriquecê-lo com a divina graça"
— Ela própria
nos faz cientes de ter consigo todas as opulências de Deus, isto é,
as divinas misericórdias, para dispensá-las aos que a amam.
"Comigo estão
às riquezas… a magnífica opulência… para enriquecer os que me
amam" (Pr 8, 18. 21)
Exorta-nos por
isso Conrado de Saxônia a que não retiremos os olhos das mãos de
Maria, a fim de, por seu intermédio, recebermos os bens que
almejamos.
Oh! Quantos
soberbos, com a devoção de Maria, acharam a humildade; quantos
coléricos, a mansidão; quantos cegos, a luz; quantos desesperados,
a confiança, quantos transviados, a salvação! E isto mesmo o
profetizou ela, quando proferiu em casa de Isabel aquele seu sublime
cântico:
"Eis que já
desde agora todas as gerações me chamarão de bem-aventurada" (Lc
1,48)
Sim ó Maria,
todas as gerações chamar-vos-ão de bem-aventurada— comenta São
Bernardo — porque a todas tendes dado a vida e a glória, pois em
vós acham perdão os pecadores e perseverança os justos. O piedoso
Lanspérgio imagina o Senhor falando assim ao mundo:
"Homens, pobres
filhos de Adão que viveis no meio de tantos inimigos e de tantas
misérias, procurai honrar com especial afeto minha e vossa Mãe,
pois eu dei Maria ao mundo para vosso exemplo, para que dela
aprendais a viver como é devido. Dei-a como vosso refúgio para que
ela recorra em vossas aflições. Esta minha filha eu a fiz tal, que
ninguém a pudesse temer, nem ter repugnância de recorrer a ela.
Exatamente por isso a formei tão benigna e compassiva, que nem sabe
desprezar os que a invocam, nem sonegar seus favores a quem a
suplica. A todos abre o manto de sua misericórdia e não despede
alma nenhuma desconsolada"
Louvada seja,
pois, e bendita a imensa bondade de nosso Deus, que nos concedeu esta
excelsa Mãe e advogada tão terna e amorosa!
Como são ternos
os sentimentos de confiança de um São Boaventura, tão abrasado de
amor para com nosso Redentor e nossa amantíssima advogada, Maria!
Ainda que o Senhor me tenha reprovado quanto quiser, exclama o Santo,
eu sei que ele não pode negar-se a quem ama e a quem de todo coração
o busca. Eu o abraçarei com o meu amor e sem me abençoar não o
deixarei; sem me levar consigo, ele não poderá ausentar-se.
Se mais não
puder, ao menos esconder-me-ei dentro das suas chagas, onde ficarei
para que me não possa encontrar fora de si. Finalmente, se o meu
Redentor, por causa de minhas culpas, me lançar fora dos seus pés,
eu me prostrarei aos pés de Maria, sua Mãe, e deles não me
afastarei enquanto ela não me alcançar o perdão. Por ser Mãe de
misericórdia, nem recusa nem jamais recusou compadecer-se de nossas
misérias, e socorrer os infelizes que imploram o auxílio. E assim,
senão por obrigação, ao menos por compaixão, não deixará de
induzir o Filho a perdoar-me.
Olhai, pois, para
nós, concluamos com Eutímio, olhai para nós finalmente com vossos
olhos piedosos, ó Mãe nossa misericordiosíssima! Pois somos servos
vossos e em vós temos colocado toda a nossa esperança.
EXEMPLO
São Francisco de
Sales sofreu na juventude uma violenta tentação contra a esperança.
Venceu-a graças à proteção de Maria, esperança dos cristãos.
Como estudante,
com dezessete anos de idade, vivia em Paris todo entregue a seus
estudos, ao amor de Deus e aos exercidos de piedade que formavam sua
delícia. Para experimentá-lo e mais uni-lo com Deus, permitiu o
Senhor que o demônio o persuadisse de que sua reprovação estava
pronunciada nos decretos divinos. Inútil, portanto, lhe seria tudo
quanto fizesse. A obscuridade e a aridez em que Deus o deixou ao
mesmo tempo tornavam-no insensível aos mais suaves pensamentos sobre
a divina bondade. Tanto o afligiu a tentação, que ao santo jovem
lhe roubou o sono, a saúde e a alegria. A quantos o viam inspirava
compaixão.
Durante esta
horrorosa tempestade, dominado pela tristeza e melancolia, dizia o
Santo: Assim, pois, serei privado da graça de Deus, que me era tão
amável e cheia de suavidade? Ó amor, ó beleza a que consagrei
todos os meus afetos, será possível que não goze mais de vossas
consolações? Ó Virgem Mãe de Deus, a mais bela das filhas de
Jerusalém, será possível que não vos vá contemplar no paraíso?
Ah! Senhora minha, se não me é dado ver vosso belo rosto, permiti
ao menos que não vos blasfeme e amaldiçoe no inferno. — Eram tais
então os ternos sentimentos daquele coração aflito e enamorado de
Deus e da Virgem. Durou um mês inteiro a tentação. Mas dignou-se,
finalmente o Senhor libertá-lo, por meio de Maria, a consoladora do
mundo. Havia-lhe Francisco consagrado sua virgindade, nela colocara
toda a sua confiança. Voltando uma tarde para casa, entrou numa
igreja e nela viu suspenso um quadrinho. Leu-o e achou escrita a
oração de Santo Agostinho, acima citada.
Prostrou-se logo
perante a Mãe de Deus, recitou devotamente a oração, renovou seu
voto de virgindade, com a promessa de recitar todos os dias o
Rosário, e acrescentou:
Ó minha Rainha,
sede-me advogada junto a vosso Filho, a quem não tenho coragem de
recorrer. Minha Mãe se devo ter a desgraça de não poder amar no
outro mundo a meu Senhor, cuja amabilidade eu reconheço, obtende-me
ao menos a graça de amá-lo neste mundo com todas as minhas forças.
É a graça que vos rogo e de vós espero.
— Apenas
terminou, porém, sua oração, foi logo livre da tentação por sua
Mãe dulcíssima. Recuperou imediatamente a paz interior e com ela a
saúde. Continuou a viver sempre devotíssimo de Maria, cujos
louvores e misericórdias não cessaram nunca de publicar por
palavras e por escritos durante toda a sua vida.
ORAÇÃO
Ó Mãe do santo
amor, ó vida, refúgio e esperança nossa! Bem sabeis que vosso
Filho Jesus Cristo, não contente de constituir-se nosso perpétuo
advogado junto ao Eterno Pai, quis ainda que vos empenhásseis junto
a Ele para impetrar as divinas misericórdias. Ele dispôs que as
vossas orações concorressem para nossa salvação, e deu-lhes tanto
poder, que alcançam quanto pedem. Eu, miserável pecador, para vós
me volto, ó esperança dos miseráveis. Espero, ó Senhora minha,
que, pelos merecimentos de Jesus Cristo e pela vossa intercessão, me
hei de salvar. Assim o espero e confio tanto que, se a minha salvação
eterna estivesse na minha mão, certamente eu a poria na vossa. Pois
mais confio da vossa misericórdia e proteção, que de to-das as
minhas obras. Mãe e esperança minha, não me desampareis como eu
mereço; olhai para as minhas misérias e movei-vos à piedade,
socorrei-me e salvai-me. Confesso que com meus pecados tenho muitas
vezes posto obstáculo às luzes e aos socorros que me tendes
alcançado do Senhor. Porém vossa piedade para com os miseráveis e
vosso poder junto a Deus excedem o número e a malícia de todos os
meus pecados. É patente ao céu e à terra que quem é de vós
protegido certamente não se perde.