2. MOTIVOS QUE TORNAM ESTA DEVOÇÃO RECOMENDÁVEL

A. ESTA DEVOÇÃO NOS CONSAGRA INTEIRAMENTE A DEUS

135. Primeiro motivo que nos mostra a excelência desta consagração de si mesmo a Jesus Cristo pelas mãos de Maria. Não se pode conceber na terra emprego mais destacado que o serviço de Deus. Se o menor servo de Deus é mais rico, mais poderoso e mais nobre que todos os reis e imperadores do mundo (se estes não são servos de Deus), quais serão as riquezas, o poder e a dignidade do fiel e perfeito servo de Deus que se dedique inteiramente ao seu serviço, sem reservas, tanto quanto lhe for possível! Tal é um fiel e amoroso escravo de Jesus em Maria, que se deu por inteiro ao serviço desse Rei dos reis, pelas mãos de sua Santa Mãe, e que nada reservou para si mesmo: todo o ouro da terra e as belezas dos céus não o podem pagar.

136. As outras congregações, associações e confrarias erigidas em honra de Nosso Senhor e de sua Santa Mãe, que fazem grande bem para o Cristianismo, não nos levam a dar tudo sem reserva. Elas prescrevem a seus associados algumas práticas e deveres, mas os deixam livres para todas as outras ações e outros momentos de sua vida. Porém, esta devoção aqui faz com que o fiel doe sem reserva a Jesus e a Maria todos os seus pensamentos, palavras, ações e sofrimentos, e todos os momentos de sua vida. De maneira que, quer esteja acordado ou dormindo, quer ele beba ou coma, quer ele faça as maiores ou as menores coisas, sempre se pode dizer que tudo o que faz, embora não pense nisso, é de Jesus e de Maria, em virtude de seu oferecimento, a menos que o tenha expressamente revogado. Que consolação!

137. Além disso, como já ficou dito, não há nenhuma outra prática que nos liberte mais facilmente de um certo espírito de propriedade que penetra imperceptivelmente nas melhores ações. O nosso bom Jesus nos concede esta grande graça em recompensa do ato heroico e desinteressado que fizemos, cedendo-Lhe, pelas mãos de sua Santa Mãe, todo o valor das nossas boas obras. Se Ele dá um cêntuplo, mesmo neste mundo, àqueles que, por seu amor, deixam os bens exteriores, temporais e perecíveis, qual será o cêntuplo que Ele dará àquele que Lhe sacrificar até seus bens interiores e espirituais!

138. Jesus, nosso grande amigo, Se deu a nós sem reserva, de corpo e alma, virtudes, graças e méritos. Diz São Bernardo: Ele me ganhou por inteiro, dando- -Se todo a mim. Não é um dever de justiça e de gratidão Lhe darmos tudo o que nos for possível dar? Ele foi o primeiro a ser liberal para conosco. Que o sejamos também para com Ele, e O veremos ainda mais liberal durante nossa vida, na nossa morte e em toda a eternidade: "Com quem é bondoso Vos mostrais bondoso" (Sl 17, 26).

B. ESTA DEVOÇÃO NOS FAZ IMITAR O EXEMPLO DADO POR JESUS

CRISTO E POR DEUS MESMO, E PRATICAR A HUMILDADE

139. Segundo motivo, que nos mostra como é justo, em si mesmo, e vantajoso ao cristão se consagrar por inteiro à Santíssima Virgem por esta prática, a fim de ser mais perfeitamente de Jesus Cristo. Esse bom Mestre não recusou Se encerrar no seio da Santíssima Virgem como cativo e escravo de amor, e ser-Lhe submisso e obediente durante trinta anos. É aqui, eu o repito, que o espírito humano se perde, quando faz uma séria reflexão sobre esta conduta da Sabedoria encarnada, que não quis – embora o pudesse fazer – dar-Se diretamente aos homens, mas o fez pela Santíssima Virgem. Não quis vir ao mundo na idade de um homem perfeito, independente de outrem, mas como um pobre e pequeno menino, dependente dos desvelos e do sustento de sua Santa Mãe. Essa Sabedoria infinita, que tinha um desejo imenso de glorificar a Deus, seu Pai, e de salvar os homens, não achou meio mais perfeito e mais curto de fazê-lo do que Se submeter em todas as coisas à Santíssima Virgem, não somente durante os oito, dez ou quinze primeiros anos de sua vida, como as outras crianças, mas durante trinta anos. E deu mais glória a Deus, seu Pai, durante todo esse tempo de submissão e dependência da Santíssima Virgem, como não Lhe teria dado empregando esses trinta anos em fazer prodígios, em pregar por toda a terra, em converter todos os homens; do contrário, Ele o teria feito. Oh! oh! como glorifica altamente a Deus quem se submete a Maria, a exemplo de Jesus! Tendo diante dos olhos um exemplo tão visível e conhecido de todos, seremos tão insensatos para julgar possível encontrar um meio mais perfeito e mais direto de glorificar a Deus, do que o de se submeter a Maria, a exemplo de seu Divino Filho?

140. Recorde-se aqui, como prova da dependência que devemos ter da Santíssima Virgem, o que foi dito mais acima, relatando os exemplos que o Pai, o Filho e o Espírito Santo nos dão de submissão que devemos à Santíssima Virgem. O Pai não deu e não dá seu Filho senão por Ela, não suscita filhos senão por Ela, e não comunica suas graças senão por Ela. Deus Filho não foi formado para todo o mundo senão por Ela, não é gerado todos os dias e engendrado senão por Ela em união com o Espírito Santo, e não comunica seus méritos e suas virtudes senão por Ela. O Espírito Santo não formou Jesus Cristo senão por Ela, não forma os membros de seu Corpo místico senão por Ela, e não dispensa seus dons e favores senão por Ela. Depois de tantos e tão prementes exemplos da Santíssima Trindade, podemos nós, sem uma extrema cegueira, prescindir de Maria, e não nos consagrar a Ela nem depender d'Ela para ir a Deus e para nos sacrificar a Deus?

141. Eis algumas passagens latinas dos Padres, que escolhi para provar o que acabo de dizer: "Maria tem dois filhos, o Homem-Deus e o homem puro; d'Aquele, Maria é mãe corporalmente; deste, é mãe espiritualmente" (São Boaventura e Orígenes, Speculum B.M.V., lect. III, §1, 2º). "Esta é a vontade de Deus: quis que recebêssemos tudo por Maria; consequentemente, se temos alguma esperança, alguma graça, algo salutar, saibamos que o devemos a Ela" (São Bernardo, De Aquaeductu, n.6). "Todos os dons, virtudes e graças do próprio Espírito Santo são concedidos pelas mãos de Maria a quem Ela quer, quando quer, como quer e quanto quer" (São Bernardino de Sena, Sermo in Nativ. B.V., art 1, cap. 8).

"Porque tu eras indigno de receber as graças, elas foram dadas a Maria, para que por Ela recebesses tudo o que tens" (São Bernardo, Sermo 3 in Vigilia Nativitatia Domini, n. 10).

142. Deus, vendo que somos indignos de receber suas graças diretamente de sua mão, diz São Bernardo, as dá a Maria, a fim de que tenhamos por Ela tudo o que Ele quer nos dar. E Ele encontra também sua glória em receber pelas mãos de Maria a gratidão, o respeito e o amor que Lhe devemos pelos seus benefícios. É, pois, muito justo que imitemos essa conduta de Deus, a fim de que a graça retorne ao seu autor pelo mesmo canal por onde veio, como diz o mesmo São Bernardo: Para que a graça volte ao seu dispensador pelo mesmo canal. É exatamente o que se faz por esta devoção: oferecemos e consagramos tudo o que somos e tudo o que possuímos à Santíssima Virgem, a fim de que Nosso Senhor receba por seu intermédio a glória e a gratidão que Lhe devemos.

Reconhecemo-nos indignos e incapazes de nos aproximar de sua Majestade infinita por nós mesmos, e por isso nos servimos da intercessão da Santíssima Virgem.

143. Ademais, trata-se aqui de uma prática de grande humildade, que Deus ama acima das outras virtudes. Uma alma que se eleva, rebaixa a Deus; uma alma que se humilha, eleva a Deus. Deus resiste aos soberbos e concede suas graças aos humildes: se vos rebaixais, crendo-vos indigno de aparecer diante d'Ele e de vos aproximar d'Ele, Ele desce, abaixa- -Se para vir a vós, para Se comprazer em vós, e para vos elevar, apesar de vós. Mas, de modo contrário, quando alguém se aproxima ousadamente de Deus, sem medianeiro, Ele foge, não se pode alcançá-Lo. Oh! como Ele ama a humildade de coração! É a essa humildade que leva esta prática de devoção, pois ensina a nunca nos aproximarmos por nós mesmos de Nosso Senhor, por mais manso e misericordioso que Ele seja, mas a nos servirmos sempre da intercessão da Santíssima Virgem, seja para comparecer diante de Deus, seja para Lhe falar, seja para se aproximar d'Ele, seja para Lhe oferecer alguma coisa, seja para nos unir e nos consagrar a Ele.

C. ESTA DEVOÇÃO NOS OBTÉM OS BONS PRÉSTIMOS

DA SANTÍSSIMA VIRGEM

144. Terceiro motivo. A Santíssima Virgem, que é um mar de mansidão e de misericórdia, e que nunca Se deixa vencer em amor e em liberalidade, vendo que alguém se Lhe dá totalmente para A honrar e servir, despojando-se do que tem de mais querido para A amar, dá-Se também, inteiramente e duma maneira inefável, a quem tudo Lhe deu. Ela o faz imergir no abismo de suas graças; Ela o adorna de seus méritos; Ela lhe dá o apoio de seu poder; Ela o ilumina de sua luz; Ela o abrasa com seu amor; Ela lhe comunica suas virtudes: sua humildade, sua fé, sua pureza, etc.; Ela Se torna sua garantia, seu suplemento e seu tudo diante de Jesus. Enfim, como essa pessoa consagrada é toda de Maria, Maria é também toda dela. Assim, pode-se dizer desse perfeito servo e filho de Maria o que São João Evangelista diz dele mesmo, que tomou a Santíssima Virgem por todos os seus bens: "O discípulo A recebeu" (Jo 19,27).

145. Isto produz na alma, se for fiel, uma grande desconfiança, desprezo e ódio de si mesma, e uma grande confiança e um grande abandono à Santíssima Virgem, sua boa senhora. Ela não se apoia mais, como antes, em suas disposições, intenções, méritos, virtudes e boas obras. Porque, tendo feito um sacrifício completo a Jesus por intermédio desta boa Mãe, já não tem senão um só tesouro que encerra todos os seus bens e que já não está em suas mãos, e este tesouro é Maria. Isso faz com que a alma se aproxime de Nosso Senhor sem escrúpulo nem temor servil, e que ela O invoque com muita confiança. É o que a faz entrar nos sentimentos do devoto e sábio abade Ruperto, que, fazendo alusão à vitória que Jacó alcançou sobre um anjo, diz à Santíssima Virgem estas belas palavras:

"Ó Maria, minha Princesa e Mãe imaculada de um Deus-Homem, Jesus Cristo, desejo lutar com esse Homem, ou seja, com o Verbo divino, armado não de meus próprios méritos, mas dos vossos" (Rup. prolog. in Cantic.). Oh! como se é poderoso e forte junto de Jesus Cristo quando se está armado dos méritos e da intercessão da digna Mãe de Deus que, como diz Santo Agostinho, venceu amorosamente o Todo Poderoso!

146. Como, por esta prática, doamos a Nosso Senhor, pelas mãos de sua Santa Mãe, todas as nossas boas obras, esta boa Senhora as purifica, as embeleza e as faz serem aceitas por seu Filho. 1) Ela as purifica de toda sujeira do amor-próprio e do apego imperceptível à criatura, que estão insensivelmente nas melhores ações. Uma vez que elas estão entre suas mãos puríssimas e fecundas, essas mesmas mãos – que nunca foram estéreis nem ociosas e que purificam tudo o que tocam – retiram do presente que lhe damos tudo o que pode nele haver de estragado ou imperfeito.

147. 2) Ela as embeleza e as adorna com seus méritos e virtudes. Como se um camponês, querendo ganhar a amizade e a benevolência do rei, fosse à rainha e lhe entregasse uma maçã, que é todo seu ganho, a fim de que a rainha a apresentasse ao rei. A rainha, tendo aceito o pobre e pequeno presente do camponês, poria essa maçã em um grande e belo prato de ouro, e a apresentaria assim ao rei, da parte do camponês. Dessa forma, a maçã, embora indigna em si mesma de ser apresentada a um rei, tornar -se-ia um presente digno de sua Majestade, em atenção ao prato de ouro onde está e à pessoa que a apresenta.

148. 3) Ela apresenta essas boas obras a Jesus Cristo, pois não guarda nada para Si do que Lhe dão, como se Ela fosse a destinatária, mas fielmente remete tudo a Jesus Cristo. O que se Lhe dá, dá-se necessariamente a Jesus; se A louvamos e glorificamos, logo Ela louva e glorifica a Jesus. Quando A louvamos e bendizemos, Ela canta, como outrora ao ser louvada por Santa Isabel: "Minha alma glorifica ao Senhor" (Lc 1, 46).

149. 4) Ela faz com que Jesus aceite essas boas obras, por pequeno e pobre que seja o presente para esse Santo dos santos e esse Rei dos reis. Quando alguém apresenta alguma coisa a Jesus, por si mesmo e apoiado em sua habilidade e sua disposição pessoais, Jesus examina o presente e, frequentemente, o rejeita por causa da mancha que contraiu pelo amor- -próprio, como outrora rejeitou os sacrifícios dos judeus, cheios de sua vontade própria. Mas quando se Lhe apresenta alguma coisa pelas mãos puras e virginais de sua bem-amada, Ele é tocado pelo seu lado fraco, se me é lícito falar assim. Ele não considera tanto a coisa que se Lhe dá, mas, sim, sua boa Mãe que a apresenta. Não olha tanto de onde vem esse presente, mas Aquela por quem ele vem. Assim Maria, que nunca é recusada e é sempre bem recebida por seu Filho, faz com que sua Majestade receba agradavelmente tudo o que Ela Lhe apresenta, pequeno ou grande. Basta que Maria o apresente para que Jesus o receba e o aceite.

É o grande conselho que dava São Bernardo àqueles e àquelas que conduzia à perfeição. Quando quiserdes oferecer alguma coisa a Deus, tende o cuidado de oferecê- -la pelas mãos agradabilíssimas e digníssimas de Maria, a menos que queirais ser rejeitado: "Ao desejardes oferecer algo a Deus, cuide de fazê-lo pelas mãos de Maria, se não quiserdes ser rejeitado" (São Bernardo, Lib. de Aquaed.).

150. Não é o que a própria natureza inspira aos pequenos em relação aos grandes, como já vimos? Por que a graça não nos levaria a fazer a mesma coisa para com Deus, que está infinitamente acima de nós, e perante quem somos menos que átomos? Temos, além do mais, uma advogada tão poderosa que nunca é rejeitada; tão engenhosa que sabe de todos os segredos para ganhar o coração de Deus; tão boa e caridosa que não repele ninguém, por pequeno e mau que seja. Mostrarei mais adiante, na história de Jacó e Rebeca, a verdadeira prefigura das verdades que enuncio.

D. ESTA DEVOÇÃO É UM EXCELENTE MEIO DE PROCURAR A

MAIOR GLÓRIA DE DEUS

151. Quarto motivo. Fielmente praticada, esta devoção é um excelente meio para fazer com que o valor de todas as nossas boas obras seja empregado para a maior glória de Deus. Quase ninguém age por este fim tão nobre – embora a isso estejamos obrigados –, seja por não saber em que consiste a maior glória de Deus, seja por não a querer. Mas a Santíssima Virgem, a quem cedemos o valor e o mérito de nossas boas obras, conhece perfeitamente onde se acha a maior glória de Deus e não faz nada sem ser para este fim. Por isso, um perfeito servo desta boa Mestra, consagrado todo a Ela como dissemos, pode afirmar ousadamente que o valor de todas as suas ações, pensamentos e palavras é empregado para a maior glória de Deus, a menos que ele revogue expressamente seu oferecimento. Pode haver algo mais consolador para uma alma que ama a Deus de um amor puro e desinteressado, e que preza mais a glória e os interesses de Deus do que os seus próprios interesses?

E. ESTA DEVOÇÃO É UM CAMINHO PARA SE CHEGAR À UNIÃO COM NOSSO SENHOR

152. Quinto motivo. Esta devoção é um caminho fácil, curto, perfeito e seguro para chegar à união com Nosso Senhor, no que consiste a perfeição do cristão.

1) ESTA DEVOÇÃO É UM CAMINHO FÁCIL

É um caminho fácil, que Jesus Cristo tornou mais acessível vindo a nós, onde não se encontra nenhum obstáculo para se chegar a Ele. Pode-se, na verdade, chegar à união divina por outros caminhos, mas será através de muito mais cruzes e mortes estranhas, com maiores dificuldades que só penosamente serão vencidas. Será preciso passar por noites escuras, por combates e agonias estranhas, por cima de montanhas escarpadas, por cima de espinhos muito pontiagudos e horríveis desertos. Mas, pelo caminho de Maria, passa-se mais suave e tranquilamente. Nele encontramos, é verdade, grandes combates a travar e grandes dificuldades a vencer. Porém, esta boa Mãe e Senhora torna-Se tão próxima e tão presente a seus fiéis servos, para os iluminar nas suas trevas, esclarecer nas suas dúvidas, fortalecer nos seus temores, sustentar nos seus combates e suas dificuldades, que, na verdade, comparado aos outros, este caminho virginal para encontrar Jesus Cristo é feito de rosas e de mel. Houve alguns santos, mas em pequeno número, como Santo Efrém, São João Damasceno, São Bernardo, São Bernardino, São Boaventura, São Francisco de Sales, etc., que passaram por este caminho suave para ir a Jesus Cristo, por que o Espírito Santo, Esposo fiel de Maria, lhos mostrou por uma graça singular. Mas outros santos, que são em maior número, embora tenham sido todos devotos da Santíssima Virgem, não ingressaram, ou o fizeram muito pouco, nesta via. Por isso passaram por provações mais rudes e mais perigosas.

153. Mas então, dir-me-á algum fiel servo de Maria, por que os servos fiéis desta boa Mãe têm tantas ocasiões de sofrer, e mais até do que outros que d'Ela não são tão devotos? Contradizem-nos, perseguem-nos, caluniam-nos, não os suportam; ou, ainda, caminham em trevas interiores e por desertos onde não há a menor gota de orvalho celeste. Se esta devoção à Santíssima Virgem torna mais fácil o caminho que conduz a Jesus Cristo, por que são eles os mais crucificados?

154. Respondo-lhe que é bem verdade que os mais fiéis servos da Virgem Maria, sendo seus maiores favoritos, recebem d'Ela as maiores graças e favores do Céu, que são as cruzes. Mas sustento que são também esses servos de Maria que carregam aquelas cruzes com mais facilidade, mérito e glória; e aquilo que deteria mil vezes um outro, ou o faria cair, não os detém uma única vez e os faz progredir. É que esta boa Mãe, repleta de graça e de unção do Espírito Santo, adoça todas aquelas cruzes que lhes prepara no açúcar de sua doçura maternal e na unção do puro amor. De modo que eles as aceitam alegremente como nozes caramelizadas, embora sejam em si mesmas muito amargas. E creio que uma pessoa desejosa de ser devota e viver piedosamente em Jesus Cristo e, por conseguinte, sofrer perseguições e carregar todos os dias sua cruz, não carregará nunca grandes cruzes, ou não as carregará alegremente nem até o fim, sem uma terna devoção à Santíssima Virgem, que é a doçura das cruzes. Do mesmo modo, ninguém poderá comer, sem se fazer grande violência, que não será duradoura, nozes verdes sem serem cristalizadas no açúcar.

2) ESTA DEVOÇÃO É UM CAMINHO CURTO

155. Esta devoção à Santíssima Virgem é um caminho curto para encontrar Jesus Cristo, seja porque nela não há perigo de extravio, seja porque, como acabo de dizer, nela se caminha com mais alegria e facilidade, e, portanto, com mais prontidão. Avança-se mais, em pouco tempo de submissão e dependência a Maria, do que em anos inteiros de vontade própria e apoio em si mesmo. Pois um homem obediente e submisso à divina Maria cantará vitórias assinaladas sobre todos os seus inimigos. Estes, é verdade, tentarão impedi-lo de caminhar, ou fazê-lo recuar ou cair. Mas, com o apoio, o auxílio e a condução de Maria, sem cair, sem recuar e mesmo sem se atrasar, ele avançará a passos de gigante para Jesus Cristo, através do mesmo caminho pelo qual está escrito que Jesus Cristo veio a nós a passos de gigante e em pouco tempo.

156. Por que achais que Jesus Cristo viveu tão pouco na terra e, no curto período em que nela passou, viveu quase sempre na submissão e obediência à sua Mãe? Ah! é que, tendo morrido cedo, Ele viveu muito, e muito mais que Adão, cujas perdas Ele vinha reparar, embora este tenha vivido mais de novecentos anos. Jesus Cristo viveu muito, porque viveu submisso e bem unido à sua Santa Mãe para obedecer a Deus seu Pai; pois: a) Aquele que honra sua mãe se assemelha a um homem que ajunta tesouros, diz o Espírito Santo, ou seja, aquele que honra Maria sua Mãe até se submeter a Ela e Lhe obedecer em todas as coisas, tornar-se-á em breve muito rico, porque amontoa diariamente tesouros, pelo segredo dessa pedra filosofal: "Quem honra sua mãe é semelhante àquele que acumula um tesouro" (Eclo 3.5). b) Segundo uma interpretação espiritual desta palavra do Espírito Santo: "Minha velhice se encontra na misericórdia do seio" (Sl 91, 11), é no seio de Maria, que envolveu e gerou um homem perfeito e que teve a capacidade de conter Aquele que todo o universo não compreende nem contém, é no seio de Maria, digo, que os jovens se tornam anciãos em luz, em santidade, em experiência e em sabedoria, e que se chega em poucos anos até a plenitude da idade de Jesus Cristo.

3) ESTA DEVOÇÃO É UM CAMINHO PERFEITO

157. Esta prática de devoção à Santíssima Virgem é um caminho perfeito para ir e se unir a Jesus Cristo, porque a divina Maria é a mais perfeita e a mais santa das puras criaturas, e Jesus Cristo, que veio perfeitamente a nós, não escolheu outro caminho em sua grande e admirável viagem. O Altíssimo, o Incomparável, o Inacessível, Aquele que É, quis vir a nós, pequenos vermes da terra, que nada somos. Como se fez isto? O Altíssimo desceu perfeita e divinamente até nós através da humilde Maria, sem nada perder de sua divindade e santidade. E é por Maria que os pequeninos devem subir perfeita e divinamente ao Altíssimo, sem nada temer. O Incompreensível Se deixou compreender e conter perfeitamente pela pequena Maria, sem nada perder de sua imensidade. É também pela pequena Maria que devemos nos deixar conter e conduzir perfeitamente, sem nenhuma reserva. O Inacessível Se aproximou e Se uniu estreita, perfeita e até pessoalmente à nossa humanidade por meio de Maria, sem nada perder de sua Majestade. É também por Maria que devemos nos aproximar de Deus e nos unir à sua Majestade, perfeita e estreitamente, sem receio de sermos repelidos. Enfim, Aquele que É quis vir ao que não é, e fazer com que o que não é se torne Deus ou naquele que É. Ele o fez perfeitamente, dando-Se e Se submetendo inteiramente à jovem Virgem Maria, sem cessar de ser no tempo Aquele que É desde toda a eternidade. Do mesmo modo, é por Maria que, embora nada sejamos, podemos nos tornar semelhantes a Deus pela graça e pela glória, dando-nos a Ela tão perfeita e inteiramente, que nada sejamos em nós mesmos e tudo n'Ela, sem receio de nos enganarmos.

158. Que me façam um caminho novo para ir a Jesus Cristo, e que esse caminho seja pavimentado de todos os méritos dos bem-aventurados, adornado de todas as suas virtudes heroicas, iluminado e enfeitado de todas as luzes e belezas dos anjos, e que todos os anjos e santos nele estejam para ali conduzir, defender e sustentar aqueles e aquelas que por ele quiserem andar: em verdade, em verdade digo ousadamente, e digo a verdade, que eu escolheria de preferência a esse caminho tão perfeito, a via imaculada de Maria: "Fez que o meu caminho fosse imaculado" (Sl 18, 33). Caminho sem nenhuma mancha nem sujeira, sem pecado original nem atual, sem sombras nem trevas. E se meu amável Jesus, na glória, vem uma segunda vez à terra (como é certo) para nela reinar, não escolherá absolutamente outro caminho para sua vinda senão a divina Maria, por quem veio tão segura e perfeitamente na primeira vez. A diferença que haverá entre a sua primeira e a última vinda é que a primeira foi secreta e escondida, e a segunda será gloriosa e triunfante. Mas ambas perfeitas, porque ambas serão por Maria. Ah! eis um mistério que não se compreende: Aqui se cale toda língua.

4) ESTA DEVOÇÃO É UM CAMINHO SEGURO

159. Esta devoção à Santíssima Virgem é um caminho seguro para ir a Jesus Cristo e adquirir a perfeição unindo- -nos a Ele: a) Porque esta prática que ensino não é nova. Como diz M. Boudon, falecido há pouco em odor de santidade, num livro que escreveu sobre esta devoção, ela é tão antiga que não se pode assinalar com precisão o seu início. No entanto, é certo que há mais de setecentos anos se encontram sinais dela na Igreja. Santo Odilon, abade de Cluny, que viveu por volta do ano 1040, foi um dos primeiros que a praticou publicamente na França, como se vê na sua vida. O cardeal Pedro Damião relata que, no ano 1076, o bem-aventurado Marinho, seu irmão, se fez escravo da Santíssima Virgem na presença de seu diretor, de uma maneira bem edificante: pôs uma corda ao pescoço, tomou a disciplina e depositou sobre o altar uma quantia de dinheiro como sinal de seu devotamento e consagração à Santíssima Virgem. A isto se manteve tão fielmente por toda sua vida que mereceu, na sua morte, ser visitado e consolado por sua boa Senhora, e dos lábios d'Ela receber as promessas do Paraíso, por recompensa de seus serviços. Cesário Bolando fez menção de um ilustre cavaleiro, Valtero de Birbak, parente próximo dos duques de Lovai na, que, por volta do ano 1300, fez esta consagração de si mesmo à Santíssima Virgem. Esta devoção foi praticada por vários de modo particular até o século XVII, quando se tornou pública.

160. O Pe. Simão de Rojas, da Ordem da Trindade, chamada da Redenção dos Cativos, pregador do rei Filipe III, pôs em voga esta devoção em toda a Espanha e Alemanha; e, à instância de Filipe III, obteve de Gregório XV grandes indulgências para aqueles que a praticarem. O Pe. de Los Rios, da Ordem de Santo Agostinho, juntamente com o Padre de Rojas, seu íntimo amigo, dedicou-se a espalhar esta devoção por suas palavras e seus escritos na Espanha e Alemanha. Nesse intuito, compôs um grosso volume intitulado Hierarchia Mariana, em que trata, com muita piedade e erudição, da antiguidade, da excelência e da solidez desta devoção. Os Padres Teatinos, no século passado1 , estabeleceram esta devoção na Itália, Sicília e Sabóia.

161. O Padre Estanislau Falácio, da Companhia de Jesus, levou adiante maravilhosamente esta devoção na Polônia. O Padre de Los Rios, no seu livro mencionado mais acima, relata os nomes dos príncipes, princesas, bispos e cardeais de diferentes reinos que abraçaram esta devoção. O Padre Cornélio a Lápide, tão recomendável por sua piedade quanto por sua profunda ciência, tendo recebido da parte de vários bispos e teólogos a incumbência de examinar esta devoção, depois de tê-la analisado maduramente, teceu-lhe louvores dignos de sua piedade. Seu exemplo foi seguido por várias outras grandes personagens. Os Padres Jesuítas, sempre zelosos ao serviço da Santíssima Virgem, apresentaram em nome dos congregados de Colônia um pequeno tratado desta devoção ao duque Ferdinando de Baviera, naquele momento arcebispo de Colônia, que lhe deu sua aprovação e a permissão de fazê-lo imprimir, exortando todos os párocos e religiosos de sua diocese a propagar, tanto quanto pudessem, esta sólida devoção.

162. O cardeal de Bérulle, cuja memória é abençoada por toda a França, foi um dos mais zelosos em espalhar esta devoção nesse país, apesar de todas as calúnias e perseguições que lhe fizeram os críticos e libertinos. Acusaram-no de novidade e de superstição. Escreveram e publicaram contra ele um folheto difamatório, e se serviram – ou melhor, o demônio por meio deles – de mil estratagemas para impedi-lo de espalhar esta devoção na França. Mas esse grande e santo homem respondeu às calúnias só com sua paciência, e às objeções contidas no libelo, com um pequeno escrito onde as refuta vigorosamente. Mostra- -lhes que esta devoção está fundada no exemplo de Jesus Cristo, nas obrigações que Lhe temos e nos votos que fizemos no santo Batismo. E é particularmente com essa última razão que fecha a boca de seus adversários, fazendo-lhes ver que esta consagração à Santíssima Virgem, e a Jesus Cristo pelas mãos d'Ela, não é mais que uma perfeita renovação dos votos ou promessas do Batismo. Diz belas coisas sobre esta devoção, que se pode ler em suas obras.

163. Pode-se ler no livro de M. Boudon os diferentes papas que aprovaram esta devoção, os teólogos que a examinaram, e as perseguições que ela sofreu e venceu, e os milhares de pessoas que a abraçaram, sem que jamais nenhum papa a tenha condenado. E não poderia fazê-lo sem derrubar os fundamentos do Cristianismo. Consta, portanto, que esta devoção não é nova. E se não é muito comum, é por ser preciosa demais para ser apreciada e praticada por todo o mundo.

164. b) Esta devoção é um meio seguro para ir a Jesus Cristo, porque o próprio da Virgem Maria é nos conduzir seguramente a Jesus Cristo, como o próprio de Jesus Cristo é nos conduzir seguramente ao Pai eterno. E que as pessoas espirituais não acreditem erroneamente que Maria seja um obstáculo para se chegar à união divina. Pois, seria possível que Aquela que encontrou graça diante de Deus, para todo o mundo em geral e para cada um em particular, fosse um empecilho para uma alma encontrar a grande graça da união com Ele? Seria possível que Aquela que foi repleta e superabundante de graças, tão unida e transformada em Deus que Ele teve de Se encarnar n'Ela, pudesse impedir uma alma de se unir perfeitamente a Deus? É bem verdade que a visão de outras criaturas, embora santas, poderia talvez retardar a união divina em certas circunstâncias, mas jamais Maria, como já disse e não me cansarei de repetir. Uma razão porque tão poucas almas atingem a plenitude da idade de Jesus Cristo, é que Maria, que é, hoje como sempre, a Mãe de Jesus Cristo e a Esposa fecunda do Espírito, não está suficientemente formada em seus corações. Quem quer ter o fruto bem maduro e formado deve ter a árvore que o produz. Quem quer ter o fruto da vida, Jesus Cristo, deve ter a árvore da vida, que é Maria. Quem quer ter em si a operação do Espírito Santo, deve ter sua Esposa fiel e indissolúvel, a divina Maria, que o torna fértil e fecundo, como dissemos alhures.

165. Estejamos, portanto, persuadidos de que quanto mais presente tivermos Maria em nossas orações, contemplações, ações e sofrimentos – senão de modo distinto e perceptível, ao menos de maneira geral e imperceptível –, mais perfeitamente encontraremos Jesus Cristo, que está sempre com Maria, grande, poderoso, operante e incompreensível, mais do que no Céu ou do que em qualquer criatura do universo. Assim, a divina Maria, toda mergulhada em Deus, longe está de se tornar um obstáculo para os perfeitos chegarem à união com Deus. Não houve até hoje, nem haverá jamais, criatura alguma que nos ajude mais eficazmente nesta grande obra, seja pelas graças que Ela nos comunica para este efeito, pois ninguém está cheio do pensamento de Deus senão por Ela, como diz um santo, seja por nos defender contra as ilusões e trapaças do espírito maligno.

166. Lá onde está Maria, não pode estar o espírito maligno. Um dos sinais mais infalíveis de que se é conduzido pelo bom espírito é ser muito devoto de Maria, pensar n'Ela e falar d'Ela com frequência. Tal é o pensamento de um santo que acrescenta: assim como a respiração é um sinal certo de que o corpo não está morto, assim o pensamento frequente e a invocação amorosa de Maria é um sinal certo de que a alma não está morta pelo pecado.

167. Diz a Igreja, e o Espírito Santo que a conduz, que só Maria esmagou sozinha todas as heresias. Assim, por mais que os críticos resmunguem, jamais um fiel devoto de Maria cairá na heresia ou na ilusão, ao menos formalmente. Poderá errar materialmente, tomar a mentira por verdade, e o espírito maligno pelo bom, embora mais dificilmente que qualquer outra pessoa. Porém, cedo ou tarde conhecerá sua falta e seu erro material. E quando o conhecer, não se obstinará de maneira alguma em crer e sustentar o que tinha julgado verdadeiro.

168. Portanto, aquele que, sem receio de ilusão, comum às pessoas de oração, deseja avançar na via da perfeição e encontrar segura e perfeitamente Jesus Cristo abrace com "coração generoso e ânimo resoluto" (2Mac 1, 3) esta devoção à Santíssima Virgem, que talvez ainda não conheça. Que entre no caminho excelente que lhe era desconhecido e que lhe mostro. É um caminho facilitado por Jesus Cristo, a Sabedoria encarnada, nosso único chefe, e os que por ele passarem não podem se enganar. É um caminho fácil, por causa da plenitude da graça e da unção do Espírito Santo que o preenche. Ao se caminhar por ele, não se cansa nem se recua. É um caminho curto, que em pouco tempo nos leva a Jesus Cristo.

É um caminho perfeito, onde não há lama nem poeira, nem o menor lixo do pecado. É, enfim, um caminho seguro, que nos conduz a Jesus Cristo e à vida eterna, reta e seguramente, sem desviar à direita nem à esquerda. Entremos, pois, nesse caminho e andemos por ele dia e noite até a plenitude da idade de Jesus Cristo.

F. ESTA DEVOÇÃO DÁ UMA GRANDE LIBERDADE INTERIOR

169. Sexto motivo. Esta prática de devoção dá uma grande liberdade interior, que é a liberdade dos filhos de Deus, às pessoas que a praticam fielmente. Como por esta devoção nos tornamos escravos de Jesus Cristo, consagrando-nos inteiramente a Ele nesta qualidade, esse bom Mestre assim recompensa o cativeiro amoroso em que nos colocamos:

1) Tira todo escrúpulo e temor servil da alma, que só servem para estreitá-la, escravizá-la e confundi-la;

2) Abre o coração para uma santa confiança em Deus, fazendo-o ver n'Ele seu pai;

3) Inspira-lhe um amor terno e filial a Deus.

170. Sem me deter a provar essa verdade por meio de razões, me contento em relatar um traço de história que li na vida da Madre Inês de Jesus, religiosa jacobina, do convento de Langeac, em Auvérnia, e que morreu em odor de santidade nesse mesmo lugar, em 1634. Quando tinha apenas sete anos e sofrendo de grandes tormentos de espírito, ouviu uma voz a lhe dizer que, se quisesse ser libertada de todas as suas aflições e protegida contra todos os seus inimigos, deveria se tornar o quanto antes escrava de Jesus e de sua Santa Mãe. Mal chegou em casa, se entregou por inteiro a Jesus e à sua Santa Mãe nessa qualidade, embora não conhecesse ainda esta devoção. Tendo encontrado uma corrente de ferro, cingiu-se com ela sobre seus rins e a carregou até a morte. Depois dessa ação, todas as suas aflições e escrúpulos cessaram. Achou-se numa grande paz e generosidade de coração, o que a levou a ensinar esta devoção a vários outros que nela fizeram grandes progressos, entre os quais, M. Olier, fundador do Seminário de São Sulpício, e vários padres e eclesiásticos do mesmo seminário. Um dia, Nossa Senhora apareceu à Madre Inês de Jesus e lhe pôs ao pescoço uma corrente de ouro para lhe testemunhar a alegria que sentia por ela se ter feito escrava de seu Filho e sua. E Santa Cecília, que acompanhava a Virgem Maria, lhe disse: Felizes aqueles que são os fiéis escravos da Rainha do Céu, pois gozarão da verdadeira liberdade: no vosso serviço está a liberdade!

G. ESTA DEVOÇÃO TRAZ GRANDES BENEFÍCIOS AO PRÓXIMO

171. Sétimo motivo. O que pode ainda nos engajar a abraçar esta devoção são os grandes benefícios que dela receberá nosso próximo. Pois por esta devoção exercemos para com ele a caridade de uma maneira eminente, uma vez que lhe damos, pelas mãos de Maria, tudo o que temos de mais caro, que é o valor satisfatório e impetratório de todas as nossas boas obras, sem excluir o menor bom pensamento e o mais leve sofrimento. Consentimos que todas as satisfações que adquirimos e vamos adquirir até a morte sejam aplicadas, segundo a vontade da Santíssima Virgem, na conversão dos pecadores ou na libertação das almas do Purgatório. Não é isto amar seu próximo perfeitamente? Não é isto ser o verdadeiro discípulo de Jesus Cristo, que se reconhece pela caridade? Não é este o meio de converter os pecadores sem perigo de vaidade, e libertar as almas do Purgatório quase sem fazer mais nada além do que nos impõem os deveres de estado?

172. Para se conhecer a excelência desse motivo, seria preciso conhecer o bem que é a conversão de um pecador ou a libertação de uma alma do Purgatório. É um bem infinito, maior do que criar o céu e a terra, pois é dar a uma alma a posse de Deus. Ainda que por esta devoção não se libertasse senão uma alma do Purgatório em toda a sua vida, ou que se convertesse apenas um pecador, não bastaria isso para levar todo homem verdadeiramente caridoso a abraçá-la? Mas é preciso notar que nossas boas obras, passando pelas mãos de Maria, recebem um acréscimo de pureza e, por conseguinte, de méritos e de valor satisfatório e impetratório. Por isso se tornam muito mais capazes de aliviar as almas do Purgatório e de converter os pecadores do que se não passassem pelas mãos virginais e liberais de Maria. O pouco que se dá por Ela, sem vontade própria, em verdade se torna bem poderoso para abrandar a ira de Deus e para atrair sua misericórdia. Na hora da morte verificar-se- -á, talvez, que uma pessoa realmente fiel a esta devoção terá livrado, por esse meio, muitas almas do Purgatório e convertido muitos pecadores, embora só tenha praticado as ações ordinárias do seu estado. Que alegria em seu juízo! Que glória na eternidade!

H. ESTA DEVOÇÃO É UM MEIO ADMIRÁVEL DE PERSEVERANÇA

173. Oitavo motivo. Enfim, o que mais fortemente nos leva, de certa maneira, a esta devoção à Santíssima Virgem é o fato de ser um meio admirável para perseverar na virtude e ser fiel. Por que a maior parte das conversações dos pecadores não é duradoura? Por que se recai tão facilmente no pecado? Por que a maioria dos justos, ao invés de avançar de virtude em virtude e adquirir novas graças, perde muitas vezes o pouco de virtudes e de graças que possui? Essa desgraça provém, como acima mostrei, de que estando o homem tão corrompido, tão fraco e tão inconstante, fia-se em si mesmo e se apoia em suas próprias forças, julgando-se capaz de guardar o tesouro de suas graças, de suas virtudes e méritos. Por esta devoção, confiamos à Santíssima Virgem, que é fiel, tudo o que possuímos e A tomamos por depositária universal de todos os nossos bens da natureza e da graça. Confiamo-nos à sua fidelidade, apoiamo-nos em seu poder e nos alicerçamos em sua misericórdia e sua caridade, a fim de que conserve e aumente nossas virtudes e méritos, apesar de o demônio, o mundo e a carne se esforçarem para no-los arrancar.

Dizemos-lhe, como um bom filho à sua mãe, e um fiel servo à sua senhora: "Guardai o que foi depositado" (1Tim 6, 20). Minha boa Mãe e Senhora, reconheço que recebi até aqui mais graças de Deus por vossa intercessão do que eu mereço, e que minha funesta experiência me ensina que carrego esse tesouro em um vaso muito frágil e que sou muito fraco e muito miserável para conservá-lo em mim mesmo: "Sou pequeno e desprezado" (Sl 118, 141). Suplico-vos, recebei em depósito tudo o que possuo e o conservai por vossa fidelidade e vosso poder. Se me guardardes, nada perderei; se me sustentardes, não cairei; se me protegerdes, estarei a salvo de meus inimigos.

174. É o que diz São Bernardo em termos formais para nos inspirar esta devoção: "Quando Ela vos sustenta, não caís; quando vos protege, não temeis; quando vos conduz, não cansais; quando vos é favorável, chegais ao porto da salvação" (Serm. super Missus, n. 17). São Boaventura parece dizer a mesma coisa em termos ainda mais formais: "A Virgem Maria", diz ele, "não é apenas mantida na plenitude dos santos; mas mantém e guarda os santos na plenitude deles, a fim de que esta não diminua. Impede que suas virtudes se percam, que seus méritos pereçam, que suas graças se percam e que os demônios os prejudiquem. Por fim, impede que Nosso Senhor os castigue quando pecam" (Speculum B.V., VII, §6).

175. A Santíssima Virgem é a Virgem fiel que, pela sua fidelidade a Deus, repara as perdas causadas pela infiel Eva por sua infidelidade, e que obtém de Deus a fidelidade e a perseverança para todos os que se consagram a Ela. Por isso um santo a compara a uma âncora firme, que os retém e os impede de naufragar no mar agitado deste mundo, onde tantas pessoas perecem por não se prenderem a essa âncora firme. Nós prendemos, diz ele, as almas à vossa esperança como a uma firme âncora (Cf. S. João Damasceno, Sermo 1 in Dormitatione B.M.V.). Foi a Ela que os santos que se salvaram mais se prenderam e prenderam os outros, a fim de perseverarem na virtude. Felizes, pois, mil vezes felizes os cristãos que, agora, se prendem fiel e inteiramente a Ela como a uma âncora firme. Os efeitos da tempestade deste mundo não os farão submergir nem perder seus tesouros celestes. Felizes aqueles e aquelas que entram n'Ela como na arca de Noé!

As águas do dilúvio de pecados, que afogam tanta gente, não os prejudicarão, pois: "Aqueles que se guiam por Mim não pecarão" (Eclo 24, 30), diz Ela com a Sabedoria. Felizes os filhos infiéis da infeliz Eva que se prendem à Mãe e Virgem fiel, que sempre permanece fiel e jamais se desmente (Cf. 2Tim 2, 13), e que ama sempre aqueles que A amam (Cf. Pr 8,17), não somente com um amor afetivo, mas efetivo e eficaz, impedindo-os, por meio de graças abundantes, de recuar na virtude ou de cair no caminho perdendo a graça de seu Filho.

176. Esta boa Mãe recebe sempre, por pura caridade, tudo aquilo que Lhe damos em depósito. E, uma vez que o recebeu como depositária, é obrigada por justiça a no-lo guardar, em virtude do contrato de depósito. Do mesmo modo que uma pessoa a quem eu tivesse confiado mil moedas de ouro seria obrigada a guardá-las, e se, por negligência, viesse a perdê-las, em boa justiça seria a responsável. Mas não, jamais a fiel Maria deixará perder por sua negligência o que Lhe confiamos. É mais fácil passarem antes o céu e a terra, do que Ela ser negligente e infiel com os que n'Ela confiam.

177. Pobres filhos de Maria, vossa fraqueza é extrema, vossa inconstância é grande, vosso íntimo é bem corrompido. Eu o confesso, sois formado da mesma massa corrompida dos filhos de Adão e Eva, mas não desanimeis por isso. Consolai-vos, regozijai-vos: eis o segredo que vos ensino, desconhecido de quase todos os cristãos, mesmo dos mais devotos. Não deixeis vosso ouro e vossa prata em vossos cofres, já arrombados pelo espírito maligno que vos roubou, e são pequenos, fracos e velhos demais para conter um tesouro tão grande e tão precioso. Não depositeis água pura e clara da fonte em vossos vasos estragados e infectados pelo pecado. Se o pecado já não existe neles, ficou ainda seu odor, e a água por causa disso ficará estragada. Não ponhais vossos vinhos finos em vossos velhos tonéis que foram enchidos de mau vinho: ficariam estragados e em perigo de se perderem.

178. Embora me ouçais, almas predestinadas, falo mais claramente. Não confieis o ouro de vossa caridade, a prata de vossa pureza, as águas das graças celestes, nem os vinhos de vossos méritos e virtudes a um saco furado, a um cofre velho e quebrado, a um vaso deteriorado e corrompido como vós sois. Do contrário, sereis pilhados pelos ladrões, quer dizer, os demônios que procuram e espreitam, noite e dia, o tempo certo para o fazer. Pelo vosso mau odor de amor próprio, de confiança em vós mesmos e de vontade própria, estragareis tudo o que Deus vos dá de mais puro. Colocai, lançai no seio e no coração de Maria todos os vossos tesouros, todas as vossas graças e virtudes: Ela é um vaso de espírito, é um vaso de honra, é um vaso insigne de devoção. Depois que o próprio Deus Se encerrou com todas as suas perfeições nesse vaso, este se tornou todo espiritual e a morada espiritual das almas mais espirituais; tornou- -se honorífico e o trono de honra dos maiores príncipes da eternidade; tornou-se insigne na devoção e a morada dos mais ilustres em mansidão, em graças e em virtudes. Tornou-se, enfim, rico como uma casa de ouro, forte como uma torre de David e puro como uma torre de marfim.

179. Oh! como é feliz o homem que tudo deu a Maria, que se confia e abandona, em tudo e por tudo, em Maria! Ele é todo de Maria, e Maria é toda dele. Pode dizer ousadamente com David: "Ela é feita para mim" (Cf. Sl 118, 56); ou com o Discípulo bem-amado: "Eu A tomei por todo o meu bem" (Jo 19,27); ou com Jesus Cristo: "Tudo o que tenho é vosso, e tudo o que tendes é meu" (Jo 17,10).

180. Se, ao ler isso, algum crítico imaginar que falo com exagero e por demasiada devoção, infelizmente não me entende, seja porque é um homem carnal que não compreende as coisas do espírito, seja porque é do mundo e não pode receber o Espírito Santo, ou porque é orgulhoso e crítico, que condena e menospreza tudo o que não entende. Mas as almas que não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus e de Maria, me compreendem e apreciam, e é para elas que escrevo (Cf. Jo 1,13).

181. No entanto, retomando a matéria interrompida, digo a uns e a outros que a divina Maria, sendo a mais honesta e a mais liberal de todas as puras criaturas, jamais Se deixa vencer em amor e em liberalidade: em troca de um ovo, diz um santo, Ela dá um boi1 ; quer dizer, pelo pouco que se Lhe dá, Ela dá muito do que recebeu de Deus. Por conseguinte, se uma alma se doa a Ela sem reservas, Ela Se doa a essa alma sem reservas, desde que ponha sua confiança n'Ela sem presunção, trabalhando, por sua vez, em adquirir as virtudes e em dominar suas paixões.

182. Que os fiéis servos da Santíssima Virgem digam, portanto, ousadamente com São João Damasceno: "Tendo confiança em Vós, ó Mãe de Deus, serei salvo. Tendo vossa proteção, nada temerei. Com vosso auxílio, combaterei e porei em fuga meus inimigos: porque vossa devoção é uma arma de salvação que Deus dá àqueles que quer salvar" (Joan. Damas., serm. de Annuntiat).