2. A NATIVIDADE DE NOSSA SENHORA
No dia 8 de
setembro celebramos o nascimento de Nossa Senhora, nove meses depois
do momento da Imaculada Conceição da Virgem Maria, que se celebra a
8 de dezembro.
Muitos séculos
tinham passado desde que Deus, às portas do Paraíso, prometera aos
nossos primeiros pais a chegada do Messias. Centenas de anos em que a
esperança do povo de Israel, depositário da promessa divina, se
centrava numa donzela, da linhagem de David, que está grávida e vai
dar à luz um Filho, a Quem há de pôr o nome de Emanuel (Is 7, 14).
Geração após geração, os israelitas piedosos tinham esperado o
nascimento da Mãe do Messias, aquela que haveria de dar à luz, como
anunciava Miqueias tendo em fundo a profecia de Isaías (cf. Mq 5,
2).
Depois do
regresso do exílio na Babilónia, a expectativa do Messias tinha-se
tornado mais intensa por parte de Israel. Uma onda de emoção
percorria aquela terra nos anos imediatamente antes da Era Cristã.
Muitas antigas profecias pareciam apontar nessa direção. Homens e
mulheres esperavam com ânsia a chegada do Desejado das nações. A
um deles, o velho Simeão, o Espírito Santo tinha revelado que não
morreria sem que os seus olhos tivessem visto a realização da
promessa (cf. Lc 2, 26). Ana, uma viúva de idade avançada,
suplicava com jejuns e orações a redenção de Israel. Os dois
gozaram do enorme privilégio de ver e tomar nos seus braços o
Menino Jesus (cf. Lc 2, 25-38).
Inclusive no
mundo pagão – como afirmam alguns relatos da Roma antiga – não
faltavam sinais de que algo muito grande se estava a gerar. A própria
pax romana, a paz universal proclamada pelo imperador Octávio
Augusto poucos anos antes do nascimento de Nosso Senhor, era um
presságio de que o verdadeiro Príncipe da paz estava quase a vir à
terra. Os tempos estavam maduros para receber o Salvador.
Mas, quando
chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma
mulher, nascido sob o domínio da Lei, para resgatar os que se
encontravam sob o domínio da Lei, a fim de recebermos a adoção de
filhos (Gl 4, 4-5). Deus esmera-se na escolha da sua Filha, Esposa e
Mãe. E a Virgem santa, a mais excelsa Senhora, a criatura mais amada
por Deus, concebida sem pecado original, veio à terra. Nasceu no
meio de um profundo silêncio. Dizem que no outono, quando os campos
dormem. Nenhum dos seus contemporâneos se deu conta do que estava a
acontecer. Só os anjos do Céu festejaram.
"Pelo teu
nascimento anunciaste a alegria a todo o mundo".
Das duas
genealogias de Cristo que aparecem nos evangelhos, a que recolhe S.
Lucas é muito provavelmente a de Maria. Sabemos que era de estirpe
distinta, descendente de David, como tinha anunciado o profeta
falando do Messias – brotará um rebento do tronco de Jessé, e um
renovo brotará das suas raízes (Is 11, 1) – e como confirma S.
Paulo quando escreve aos Romanos acerca de Jesus Cristo, nascido da
linhagem de David segundo a carne (Rm 1, 3).
Um escrito
apócrifo do século II, conhecido com o nome de Proto-evangelho de
S. Tiago, transmitiu-nos os nomes dos seus pais – Joaquim e Ana –
que a Igreja inscreveu no calendário litúrgico. Diversas tradições
situam o lugar do nascimento de Maria na Galileia ou, com maior
probabilidade, na cidade santa de Jerusalém, onde se encontraram as
ruínas de uma basílica bizantina do século V, edificada sobre a
chamada casa de Santa Ana, muito perto da piscina Probática. Com
razão a liturgia põe nos lábios de Maria umas frases do Antigo
Testamento: estabeleci-me em Sião. Na cidade amada Ele me fez
repousar e em Jerusalém está o meu poder (Sir 24, 10-11).
Até Maria
nascer, a terra esteve às escuras, envolta nas trevas do pecado. Com
o seu nascimento surgiu no mundo a aurora da salvação, como um
presságio da proximidade do dia. Assim o reconhece a Igreja na festa
da Natividade de Nossa Senhora: pelo teu nascimento, Virgem Mãe de
Deus, anunciaste a alegria a todo o mundo: de ti nasceu o Sol da
justiça, Cristo, nosso Deus (Ofício de Laudes).
O mundo não o
soube, então. A terra dormia.