Revelou Nossa
Senhora a Santa Brígida:
"Eu sou a Mãe
de todas as almas do purgatório; pois por minhas orações lhes são
constantemente mitigadas as penas que mereceram pelos pecados
cometidos durante a vida"
Digna-se até
essa Mãe piedosa entrar naquela santa prisão para visitar e
consolar suas filhas aflitas, ''Penetrei no fundo do abismo"
(Eclo 21 8), isto é, do purgatório — como explica São Boaventura
— para consolar com minha presença essas santas almas. Oh! Como é
boa e clemente a Santíssima Virgem, exclama São Vicente Ferreri,
para as almas do purgatório, que por sua intercessão recebem
contínuo conforto e refrigério! E que outra consolação lhes resta
em suas penas, senão Maria e o socorro dessa Mãe de misericórdia?
Ouviu Santa Brígida dizer Jesus Cristo a sua Mãe:
"És minha Mãe,
és a Mãe de misericórdia, és o consolo dos que sofrem no
purgatório"
À mesma Santa
revelou a Santíssima Virgem:
"Um pobre
doente, aflito e desamparado numa cama, alenta-se ao ouvir palavras
de consolo e conforto"
Assim também as
almas do purgatório enchem-se de alegria, só em ouvir pronunciar o
nome de Maria. O nome só de Maria, nome de esperança e de salvação,
que continuamente invocam naquele cárcere, lhes dá um grande
conforto. Apenas a amorosa Mãe as ouve invocá-la, logo faz coro com
suas preces. Ajuda-as o Senhor então, refrigerando-as com um celeste
orvalho nos grandes ardores que padecem.
MARIA LIVRA AS
ALMAS DO PURGATÓRIO
Mas a Santíssima
Virgem não só favorece e consola os seus devotos, como também os
tira e livra do purgatório com a sua intercessão. No dia da sua
Assunção esvaziou-se o purgatório , como escreve Gerson. Idêntica
é também a opinião do Novarino, que a baseia em graves autores.
Segundo ele, Maria, no momento de ser elevada ao céu pediu a seu
amado Filho a graça de consigo levar logo todas as almas, que então
se achavam no purgatório. Desde então, diz Gerson, está Maria na
posse do privilégio de livrar os seus devotos daquelas penas. E isso
o afirma também absolutamente São Bernardino de Sena. A seu ver tem
Maria a faculdade de livrar com suas súplicas e com a aplicação de
seus merecimentos as pobres almas, especialmente as de seus devotos.
Do mesmo parecer declara-se Novarino, dizendo que pelos merecimentos
de Maria não só se tomam mais leves, mas também mais breves as
penas dessas almas, apressando-se com a intercessão da Santíssima
Virgem o tempo de expiação. Basta que ela formule um pedido nesse
sentido.
Refere São Pedro
Damião que certa mulher, chamada Marózia, apareceu depois de morta
a uma sua comadre, e lhe disse que no dia da Assunção de Maria
havia sido libertada do purgatório. Que juntamente com ela sairá um
tão considerável número de almas, que excediam o da população de
Roma. A respeito das festividades do Natal e da Ressurreição do
Senhor, assevera Dionísio Cartusiano o mesmo privilégio. Diz que em
tais dias desce Maria ao purgatório, acompanhada por muitos anjos, e
livra muitas almas daquelas penas. E Novarino inclina-se a crer que o
mesmo sucede em todas as festas solenes da Santa Virgem.
Conhecidíssima é
a promessa que Maria fez ao papa João XXII. Apareceu-lhe um dia e
lhe ordenou fizesse saber a todos aqueles que trouxessem o
escapulário do Carmo, que seriam livres do purgatório no primeiro
sábado depois da morte. Fê-lo o Papa por uma Bula que publicou, e
que foi depois confirmada por Alexandre VII, Pio V, Gregório XIII e
Paulo V. Este, no ano de 1613, na Bula então publicada, assim diz:
"Pode o povo
cristão piamente crer que a bem-aventurada Virgem ajudará com a sua
contínua intercessão, com os seus rogos, e com especial proteção,
depois da morte, e principalmente no dia de sábado, consagrado pela
Igreja à mesma Virgem, as almas dos irmãos da confraria de Nossa
Senhora do Carmo que morreram na graça de Deus. Como condição
requer-se que tenham usado sempre o escapulário, recitando o Ofício
da Virgem, ou, não podendo recitá-lo, tenham observado os jejuns da
Igreja, abstendo-se de carne às quartas-feiras e ao sábado"
Diz também o
Breviário da festa de Nossa Senhora do Carmo:
"Segundo uma
piedosa crença, a Santíssima Virgem com maternal amor consola os
confrades do Carmo no purgatório, e com sua intercessão depressa os
leva a pátria celeste"
Por que não
poderemos nós esperar os mesmos favores e graças, se formos devotos
dessa Mãe? E se a servirmos de um modo especial, por que não
poderemos também esperar a graça de irmos logo para o paraíso,
isentos do purgatório? Graça semelhante prometeu a Mãe de Deus ao
beato Godofredo. Mandou frei Abondo dar-lhe o seguinte recado:
"Dize a Frei
Godofredo que se adiante na virtude, que assim será de meu Filho e
meu; o quando a sua alma se apartar do corpo, não a deixarei ir ao
purgatório, mas eu a receberei para oferecê-la a meu Filho"
— Se quisermos,
pois, ajudar as santas almas do purgatório, procuremos rogar por
elas a Santíssima Virgem em todas as nossas orações,
aplicando-lhes especialmente o santo rosário, que lhes dá um grande
alívio.
Por terem essas
almas maior precisão de socorro, empenha-se a Mãe de misericórdia
com zelo ainda mais intenso em auxiliá-las. Elas muito padecem e
nada podem fazer por si mesmas. Diz São Bernardino de Sena que Maria
Santíssima tem nesse cárcere das esposas de Jesus Cristo certo
domínio e pleno poder, tanto para aliviá-las como também para
livrá-las completamente daquelas penas.
Em primeiro lugar
traz alívio às almas. O sobredito Santo aplica-lhe as palavras do
Eclesiástico:
"Caminho por
sobre as ondas do mar" (28, 8)
Isto é,
visitando e assistindo meus devotos em suas aflições.
Compara-o às
ondas as penas do purgatório, porque são transitórias e por isso
diferentes das do inferno, que nunca passam. Chama-as ondas do mar,
porque são penas muito amargosas. Os devotos de Maria, aflitos com
estas penas, são por ela visitados e socorridos frequentemente.
EXEMPLO
Contaram a uma
senhora da alta sociedade que seu filho tinha sido assassinado, e que
o assassino se havia refugiado ao palácio dela. Lembrou-se a pobre
mãe de que também a Santíssima Virgem perdoara aos crucificadores
de seu Filho e, em lembrança das Dores da Virgem, perdoou
generosamente ao refugiado. Não contente com isso, mandou dar
cavalos, dinheiro e roupa ao criminoso, para que se salvasse pela
fuga. Apareceu então a esta senhora o filho assassinado, dizendo que
se salvara como também fora livre do purgatório pela Mãe de Deus,
por causa do perdão generosamente concedido ao inimigo. Do
contrário, lhe teria sido muito longo o purgatório, mas que naquele
momento ia entrar no céu.
ORAÇÃO
Ó Virgem
sacrossanta, entre todas as criaturas a maior e a mais sublime, eu
vos saúdo, aqui, deste vale de lágrimas. Infeliz e miserável
rebelde que sou, mereço castigos e não favores, justiça e não
misericórdia. Senhora, eu não digo isto, porque desconfie da vossa
piedade. Eu sei que vos gloriais de ser benigna em proporção de
vossa grandeza. Sei que vos alegrais de vossas riquezas, por fazê-las
partilhar aos pecadores. Sei que quanto mais necessitados são os que
a vós recorrem, tanto mais vos empenhais em protegê-los e
salvá-los. Ó minha mãe, sois aquela que um dia chorastes vosso
Filho morto por mim. Oferecei, vos rogo, as vossas lágrimas a Deus,
e por elas alcançai uma dor verdadeira dos meus pecados. Tanto vos
afligiram os pecadores, tanto vos estou eu ainda afligindo com minhas
iniquidades. Obtende-me, ó Maria, que ao menos de hoje em diante não
continue a afligir a vosso Filho e a vós com minhas ingratidões.
E de que me
teriam servido vossas lágrimas, se eu continuasse a ser ingrato? De
que me valeria a vossa misericórdia, se novamente vos fosse infiel e
me condenasse? Não; minha Rainha não o permita. Vós tendes suprido
todas as minhas faltas. Vós alcançais de Deus tudo o que quereis.
Sois sempre propícia a quem vos invoca. Peço-vos, pois, estas duas
graças que espero e quero de vós; obtende-me que seja fiel a Deus,
não o ofendendo mais; e que o ame todo o resto de minha vida, tanto
quanto o tenho ofendido.