A cena da Pietà
mostra-nos, de novo, Cristo nos braços de Maria. A Mãe acolhe,
novamente, o Filho desprezado pelos homens.
Jesus estava
morto desde as três da tarde: a hora em que se sacrificavam os
cordeiros no templo para a ceia pascal já iminente. O quarto
evangelho sublinha esse simbolismo desde os primeiros capítulos,
quando – diante de um grupo de discípulos – põe na boca do
Batista que, está indicando Jesus, estas palavras: Eis o Cordeiro de
Deus, aquele que tira o pecado do mundo (Jo 1, 29). Maria permanecia
ao pé da Cruz, com João e as santas mulheres. Não podia afastar-se
desse lugar, com o olhar fixo em seu Filho. Faltavam-lhe ainda vários
desgostos amargos, antes de poder depositar o seu corpo no sepulcro.
Ao por do sol,
perto das seis da tarde, já começava o sábado que, naquele ano era
muito solene, pois coincidia com a Páscoa dos hebreus. Não era
conveniente que, numa festividade tão grande, os corpos dos
condenados continuassem pendentes das cruzes. Por isso, um grupo de
notáveis dirigiu-se a Pilatos rogando-lhe que mandasse quebrar as
pernas dos crucificados e os tirasse da cruz (Jo 19, 31). O
Procurador romano enviou alguns soldados com esse encargo penoso.
Podemos imaginar o sobressalto de Maria quando viu aparecer no
Calvário esse pelotão armado de lanças. São João descreve a
cena: Quebraram as pernas, primeiro a um dos crucificados com ele e
depois ao outro. Chegando a Jesus, viram que estava morto. Por isso,
não lhe quebraram as pernas, mas um soldado golpeou-lhe o lado com
uma lança, e imediatamente saiu sangue e água (Jo 19, 32-34).
A lança
atravessou o coração de Jesus já morto e feriu profundamente a
alma de Maria, cumprindo a profecia de Simeão: Uma espada
traspassará a tua alma! (cf. Lc 2, 35). São João, testemunha
ocular, viu neste episódio a realização de outras profecias;
especialmente aquela referente ao cordeiro pascal: não quebrarão
nenhum dos seus ossos (Jo 19, 36; cf. Ex 12, 46). E um outro texto da
Escritura diz: olharão para aquele que traspassaram (Jo 19, 37; cf.
Zc 12, 10).
O tempo urgia.
José de Arimateia e Nicodemos, homens tementes a Deus e membros do
Sinédrio, discípulos ocultos do Senhor, apresentaram-se diante de
Pilatos pedindo com audácia que lhes concedesse o corpo do Senhor.
Uma vez certificado da morte, Pilatos concedeu a sua autorização. E
então apresentou-se José acompanhado de uma grupo de servos que
levavam consigo escadas para descer o corpo da cruz, vendas e um
lençol grande. Nicodemos foi também, e trouxe uns trinta quilos de
perfume feito de mirra e de aloés (Jo 19, 39): uma quantidade enorme
de perfume, digna da sepultura de um rei. Pegaram no corpo de Jesus e
envolveram-n'O, com os perfumes, em faixas de linho, do modo como
os judeus costumam sepultar (Jo 19, 40).
A piedade cristã
deteve-se nesta passagem do Evangelho para contemplar com emoção e
recolhimento a imagem de Maria com o seu Filho morto nos seus braços.
É a célebre cena da Pietà, imortalizada na arte por inumeráveis
pintores e escultores. Talvez tenha sido neste momento, olhando para
o corpo martirizado de Cristo, apenas limpo o indispensável, que
Nossa Senhora e as mulheres entoaram as suas lamentações, como era
habitual nos antigos povos do Médio Oriente e como é frequente
ainda agora em muitos lugares. O Evangelho é parco em detalhes;
porém, em antigos documentos da tradição, esta cena é detalhada,
colocando na boca de Maria – como faz, por exemplo, Santo Efrém,
no século IV – lamentações em que Maria expressa a sua dor, ao
mesmo tempo que adere totalmente à Vontade divina.
Por fim,
colocaram o corpo de Jesus numa propriedade de José situada a poucos
metros do Calvário. Havia um jardim e, no jardim, um túmulo novo,
onde ninguém tinha sido ainda sepultado. Por ser dia de preparação
para os judeus, e como o túmulo estava perto, foi lá que colocaram
Jesus (Jo 19, 41-42). José de Arimateia rolou uma grande pedra na
entrada do túmulo e retirou-se (Mt 27, 60). Estava a ponto de
começar o grande e solene sábado. No dia seguinte, apesar da festa,
uma embaixada dos príncipes dos sacerdotes e dos fariseus pediu a
Pilatos que pusesse uma guarda de soldados nesse lugar. Pilatos
assentiu. Então eles foram assegurar o sepulcro: lacraram a pedra e
deixaram ali a guarda (Mt 27, 66).
A fé em Jesus
Cristo, o Messias e Filho de Deus, parecia ter acabado sobre a terra.
Porém brilhava com força no coração de sua Mãe, que não havia
esquecido a promessa do seu Filho: Depois de três dias vou
ressuscitar (Mt 27, 63).