Em Caná
encontramos Jesus e a Sua Mãe juntos. Aí, por mediação da Virgem,
Cristo realizou um milagre que deu felicidade a uns recém-casados.
Novo artigo sobre a vida de Nossa Senhora.
Ao terminar o
longo período de Nazaré, o Senhor começou a pregar a chegada do
reino de Deus. Todos os evangelistas registam o primeiro ato desta
nova etapa: a receção do batismo que o Precursor administrava nas
margens do Jordão. No entanto, só São João assinala a presença
da Virgem nesses começos da vida pública: três dias depois —
anota — celebrava-se um casamento em Caná da Galileia e estava lá
a Mãe de Jesus. Jesus com os Seus discípulos foi também convidado
para a boda (Jo 2, 1-2).
Uma leitura
rápida do texto leva a constatar, simplesmente, que Jesus realiza um
milagre a pedido da Sua Mãe. A celebração das bodas durava sete
dias; e numa aldeia pequena, como Caná, é provável que todos os
habitantes participassem de um modo ou de outro nos festejos. Jesus
apresentou-Se na companhia dos primeiros discípulos. Não é
estranho que, com tantos convivas, o vinho acabasse por escassear.
Maria, sempre atenta às necessidades dos outros, foi a primeira a
dar conta disso e comunicou-o ao seu Filho: não têm vinho (Jo 2,
3). Depois de uma resposta difícil de interpretar, Jesus atendeu a
petição de Sua Mãe e realizou o grande milagre da conversão da
água em vinho.
No entanto, o
que João nos deseja relatar não acaba aí. Quando escreve o seu
evangelho, no final da vida, iluminado pelo Espírito Santo, meditou
longamente sobre os milagres e os ensinamentos de Jesus. Aprofundou
no significado deste primeiro sinal e põe em relevo o seu sentido
mais profundo. Assim o afirma o Magistério pontifício recente,
aceitando as conclusões a que chegaram os estudiosos da Sagrada
Escritura nos últimos decénios.
A precisão
cronológica com que o evangelista situa o acontecimento tem um
profundo significado. Segundo o livro do Êxodo, a manifestação de
Deus a Israel para fazer a aliança teve lugar três dias depois de
ter chegado ao monte Sinai. Agora, três dias depois do regresso à
Galileia em companhia dos primeiros discípulos, Jesus vai manifestar
a Sua glória pela primeira vez. Por outro lado, a glorificação
plena da Sua Santa Humanidade teve lugar três dias depois da morte,
mediante a ressurreição.
Para além do
facto histórico das bodas, João salienta que a presença de Maria
no princípio e no final da vida pública de Jesus obedece a um
desígnio divino. O apelativo com que o Senhor se dirige a Ela em
Caná — chamando-lhe mulher em vez de mãe — parece manifestar a
Sua intenção de formar uma família fundada, não nos laços de
sangue, mas sobre a fé. Vem espontaneamente à memória que Deus se
dirigiu a Eva do mesmo modo no Paraíso, quando prometeu que da sua
descendência sairia o Redentor (cfr. Gn 3, 15). Em Caná, pois,
Maria apercebe-se de que a sua missão materna não termina no plano
natural: Deus conta com Ela para ser Mãe espiritual dos discípulos
do seu Filho, nos quais a partir desse momento, graças à sua
intervenção junto de Jesus, começa a nascer a fé no Messias
prometido. O próprio São João o afirma no final da narração: foi
este o primeiro milagre de Jesus; fê-lo em Caná da Galileia. Assim
manifestou a Sua glória e os Seus discípulos acreditaram n'Ele
(Jo 2, 11).
A maior parte
dos estudiosos afirma que essas bodas são um símbolo da união do
Verbo com a humanidade. Os profetas tinham-no anunciado: selarei
convosco uma aliança eterna (...). Nações que não conhecias
correrão para Ti (Is 55, 3.5). E os Padres da Igreja tinham
explicado que a água das talhas de pedra, preparadas para a
purificação judaica (Jo 2, 6), representavam a antiga Lei, que
Jesus vai levar à perfeição mediante a nova Lei do Espírito
impressa nos corações.
A nova aliança
prometida no Antigo Testamento para os tempos messiânicos
anunciava-se com a imagem de um banquete de casamento; abundaria todo
o tipo de bens, especialmente o vinho. É significativo que, no
relato de São João, precisamente o vinho tenha grande protagonismo:
é mencionado cinco vezes e afirma-se que o que Jesus fez surgir com
o Seu poder era melhor do que o que começou a faltar (cfr. Jo 2,10).
É também notável o volume de água convertida em vinho: mais de
500 litros. Esta superabundância é típica dos tempos messiânicos.
Mulher, que nos
importa isso Mim e a ti? Ainda não chegou a Minha hora (Jo 2, 4).
Qualquer que seja o significado exato destas palavras (que, além
disso, estariam matizadas pelo tom da voz, a expressão do rosto,
etc.), torna-se claro que a Virgem não perde a confiança no Seu
Filho: deixou o assunto nas Suas mãos e dirige aos servos uma
exortação — fazei tudo o que Ele vos disser (Jo 2, 5) — que são
as últimas palavras Suas recolhidas no Evangelho.
Nesta breve
frase ressoa o eco do que o povo de Israel respondeu a Moisés
quando, da parte de Deus, pedia o seu assentimento à aliança do
Sinai: faremos tudo o que o Senhor nos disse (Ex 19, 8). Aqueles
homens e mulheres foram muitas vezes infiéis ao pacto com o Senhor;
os servos de Caná, pelo contrário, obedeceram com prontidão e
plenamente. Jesus disse-lhes: — Enchei as talhas de água.
Encheram-nas até cima. Então Jesus disse-lhes: Tirai-o agora, e
levai ao chefe de mesa. Eles levaram (Jo 2, 7-8).
Maria depositou
a sua confiança no Senhor e antecipa o momento da Sua manifestação
messiânica. Precede na fé os discípulos, que acreditarão em Jesus
depois de realizado o prodígio. Deste modo, a Virgem colabora com o
seu Filho nos primeiros momentos da formação da nova família de
Jesus. O evangelista assim o parece sugerir, concluindo a narração
com as seguintes palavras: depois disto desceu a Cafarnaum com a Sua
mãe, Seus irmãos e Seus discípulos; mas não se demoraram lá
muitos dias (Jo 2, 12). Já está tudo preparado para que o Senhor,
com o anúncio da Boa Nova, com as Suas palavras e as Suas obras, dê
início ao novo Povo de Deus, que é a Igreja.
J.A. Loarte