118. Depois de tudo, declaro bem alto
que, tendo lido quase todos os livros que tratam da devoção à
Santíssima Virgem, e tendo conversado com as mais santas e sábias
personalidades destes últimos tempos, não conheci nem aprendi
prática de devoção a Nossa Senhora semelhante à que vou indicar.
Esta exige de uma alma mais sacrifícios por Deus e a esvazia mais de
si mesma e de seu amor próprio; a conserva mais fielmente na graça,
e a graça nela; a une mais perfeita e facilmente a Jesus Cristo; e,
enfim, é mais gloriosa para Deus, mais santificante para a alma e
mais útil ao próximo.
119. Como o essencial desta devoção
consiste no interior que ela deve formar, não será igualmente
compreendida por todos. Uns se deterão no que ela tem de exterior, e
não passarão além, e estes serão a maioria. Outros, em pequeno
número, entrarão em seu interior, mas subirão apenas um degrau.
Quem subirá ao segundo? Quem chegará até o terceiro?
Enfim, quem se identificará com ela
permanentemente? Só aquele a quem o Espírito de Jesus Cristo
revelar este segredo. Ele próprio conduzirá a alma fiel para lá,
para progredir de virtude em virtude, de graça em graça e de luzes
em luzes para chegar até a transformação de si mesma em Jesus
Cristo, e à plenitude de sua idade na terra e de sua glória no Céu.
120. Se toda nossa perfeição consiste
em sermos conformes, unidos e consagrados a Jesus Cristo, a mais
perfeita de todas as devoções é, sem dúvida, aquela que nos
conforma, une e consagra mais perfeitamente a Jesus Cristo. Ora, de
todas as criaturas, Maria é a mais conforme a Jesus Cristo. Por
conseguinte, de todas as devoções, aquela que consagra e assemelha
mais uma alma a Nosso Senhor é a devoção à Santíssima Virgem,
sua Santa Mãe. E quanto mais uma alma for consagrada a Maria, mais
ela o será a Jesus Cristo. É por isso que a perfeita consagração
a Jesus Cristo não é mais que uma perfeita e inteira consagração
de si mesmo à Santíssima Virgem. E nisto consiste a devoção que
ensino ou, noutras palavras, consiste numa perfeita renovação dos
votos e promessas do santo Batismo.
121. Esta devoção consiste, pois, em
se dar por inteiro à Santíssima Virgem para ser, através d'Ela,
inteiramente de Jesus Cristo. É preciso dar-Lhe:
1) Nosso corpo com todos os seus
sentidos e seus membros;
2) Nossa alma com todas as suas
potências;
3) Nossos bens exteriores que chamamos
de fortuna, presentes e futuros;
4) Nossos bens interiores e
espirituais, que são nossos méritos, nossas virtudes e nossas boas
obras passadas, presentes e futuras. Em duas palavras, tudo o que
temos na ordem da natureza e na ordem da graça, e tudo o que
poderemos ter no futuro na ordem da natureza, da graça ou da glória.
E isso sem reserva alguma, nem sequer de um centavo, de um cabelo e
da menor boa ação, para toda a eternidade, sem pretender nem
esperar nenhuma outra recompensa de seu oferecimento e de seu
serviço, do que a honra de pertencer a Jesus Cristo por Ela, ainda
que esta amável Senhora não fosse, como é sempre, a mais liberal e
agradecida das criaturas.
122. Aqui é preciso reparar que há
duas coisas nas boas obras que praticamos, a saber: a satisfação e
o mérito, ou melhor dizendo, o valor satisfatório ou impetratório
e o valor meritório. O valor satisfatório ou impetratório de uma
boa ação consiste em satisfazer a pena devida ao pecado, ou em
alcançar uma nova graça. O valor meritório, ou o mérito, consiste
em uma boa ação merecer a graça e a glória eterna. Ora, nesta
consagração de nós mesmos à Santíssima Virgem, damos-Lhe todo o
valor satisfatório, impetratório e meritório, quer dizer, as
satisfações e os méritos de todas as nossas boas obras. Damos-Lhe
nossos méritos, nossas graças e nossas virtudes, não para os
comunicar a outros (pois nossos méritos, graças e virtudes são,
propriamente falando, incomunicáveis; só Jesus Cristo, tornando-Se
a nossa garantia junto do Pai, nos pode comunicar os seus méritos),
mas para que, como depois diremos, Ela os conserve, aumente e
aperfeiçoe. Damos-Lhe nossas satisfações para as comunicar a quem
bem Lhe parecer, e para a maior glória de Deus.
123. Resulta daqui: 1) Que por esta
consagração damos a Jesus Cristo tudo o que podemos Lhe dar, da
maneira mais perfeita, visto ser pelas mãos de Maria. E damos assim
muito mais do que pelas outras devoções, em que Lhe consagramos
parte do nosso tempo, ou parte das nossas boas obras, ou parte das
nossas satisfações e mortificações. Aqui tudo é dado e
consagrado, até o direito de dispor de seus bens interiores, e as
satisfações que se ganha pelas suas boas obras no dia a dia. Isso
não se faz nem mesmo numa ordem religiosa. Nas ordens religiosas
dão-se a Deus os bens de fortuna pelo voto de pobreza, os bens do
corpo pelo voto de castidade, a própria vontade pelo voto de
obediência, e algumas vezes a liberdade do corpo pelo voto de
clausura. Mas, não se Lhe dá a liberdade ou o direito que se tem de
dispor do valor de suas boas obras, e não se renuncia, tanto quanto
seja possível, ao que o cristão tem de mais precioso e mais caro,
que são seus méritos e suas satisfações.
124. 2) Segue daí que uma pessoa assim
consagrada e sacrificada voluntariamente a Jesus Cristo por Maria,
não pode mais dispor do valor de nenhuma de suas boas ações. Tudo
o que sofre, tudo o que pensa, diz e faz de bom, pertence a Maria, a
fim de que Ela de tudo disponha segundo a vontade de seu Filho, e
para sua maior glória, sem que esta dependência prejudique de algum
modo as obrigações do estado a que essa pessoa pertença atualmente
ou no futuro. Por exemplo, as obrigações de um padre que, por seu
ofício ou por outra razão, deve aplicar o valor satisfatório e
impetratório da santa Missa a um particular. Pois esse oferecimento
só é feito conforme a ordem de Deus e os deveres de seu estado.
125. 3) Consagra-se tudo completamente
à Santíssima Virgem e a Jesus Cristo: à Santíssima Virgem, como
ao meio perfeito que Jesus Cristo escolheu para Se unir a nós e nós
a Ele; e a Nosso Senhor, como ao nosso último fim, a quem devemos
tudo o que somos, como a nosso Redentor e a nosso Deus.
126. Disse que esta devoção podia
muitíssimo bem ser chamada uma perfeita renovação dos votos ou
promessas do santo Batismo. Pois todo cristão, antes de seu Batismo,
era escravo do demônio, porque lhe pertencia. No seu Batismo, pela
sua própria boca ou pela de seu padrinho e de sua madrinha, ele
renunciou solenemente a satanás, suas pompas e suas obras, e tomou
Jesus Cristo por seu Mestre e soberano Senhor, para depender d'Ele
na qualidade de escravo de amor. É o que se faz pela presente
devoção: renuncia-se (como está dito na fórmula da consagração),
ao demônio, ao mundo, ao pecado e a si mesmo, dando-se por inteiro a
Jesus Cristo pelas mãos de Maria. E até fazemos algo a mais, pois
no Batismo falamos habitualmente pela boca de outrem, a saber pelo
padrinho e pela madrinha, e não nos damos a Jesus Cristo senão por
meio de procurador. Mas, nesta devoção, é por nós mesmos, é
voluntariamente, é com conhecimento de causa que o fazemos. No santo
Batismo, não nos damos a Jesus Cristo pelas mãos de Maria, pelo
menos de uma maneira expressa, e não damos a Jesus Cristo o valor de
nossas boas ações. Mas, por esta devoção nos damos expressamente
a Nosso Senhor pelas mãos de Maria, e Lhe consagramos o valor de
todas as nossas ações.
127. Diz São Tomás que os homens
fazem voto no santo Batismo de renunciar ao demônio e às suas
pompas (Cf. Summa Theol. 2-2, q. 88, art 2). E esse voto, diz Santo
Agostinho, é o maior e o mais indispensável (Cf. Epis. 59 ad
Paulin). É também o que dizem os canonistas: o voto principal é o
que fazemos no Batismo. No entanto, quem guarda esse grande voto?
Quem cumpre fielmente as promessas do santo Batismo? Quase todos os
cristãos não falseiam a fidelidade que prometeram a Jesus Cristo no
seu Batismo? De onde virá esse desregramento universal, senão do
esquecimento em que se vive das promessas e dos compromissos do santo
Batismo, e do fato de que quase ninguém ratifica por si mesmo o
contrato de aliança que fez com Deus por meio de seus padrinhos?
128. Isso é tão verdadeiro que o
Concílio de Sens (em 1141), convocado por ordem de Luís, o Bondoso,
para remediar as grandes desordens dos cristãos, entendeu que a
principal causa dessa corrupção nos costumes vinha do esquecimento
e da ignorância em que se vivia das promessas do santo Batismo. E
não encontrou melhor meio para remediar a esse tão grande mal que o
de levar os cristãos a renovar os votos e promessas do santo
Batismo.
129. O Catecismo do Concílio de Trento
(de 1545 a 1563), fiel intérprete das intenções desse santo
concílio, exorta os párocos a fazer a mesma coisa e a levar seus
fiéis a se recordarem que estão ligados e consagrados a Nosso
Senhor Jesus Cristo como escravos a seu Redentor e Senhor (Cf. Cat.
Conc. Trid., pte I,c.3).
130. Ora, se os Concílios, os Padres e
a própria experiência nos mostram que o melhor remédio para os
desregramentos dos cristãos é recordar-lhes as obrigações de seu
Batismo e fazê-los renovarem os votos nele feitos, não é razoável
realizá-lo presentemente de uma maneira perfeita, através desta
devoção e consagração a Nosso Senhor por meio de sua Santa Mãe?
Digo de uma maneira perfeita, porque se serve, para se consagrar a
Jesus Cristo, do mais perfeito de todos os meios, que é a Santíssima
Virgem.
131. Não se pode alegar que esta
devoção seja nova ou indiferente: ela não é nova, pois os
concílios, os Padres e vários autores antigos e novos falam desta
consagração a Nosso Senhor ou renovação dos votos do santo
Batismo como algo antigamente praticado, e a aconselham a todos os
cristãos. Ela não é indiferente, pois a principal fonte das
desordens e, por conseguinte, da condenação dos cristãos, vem do
esquecimento e da indiferença por esta prática.
132. Alguns podem dizer que esta
devoção, fazendo-nos dar a Nosso Senhor, pelas mãos da Santíssima
Virgem, o valor de todas as nossas boas obras, preces e mortificações
e esmolas, nos impossibilita de socorrer as almas de nossos parentes,
amigos e benfeitores.
Em primeiro lugar, respondo que não é
de crer que os nossos amigos, parentes ou benfeitores sejam
prejudicados pelo fato de nos termos dedicado e consagrado sem
reservas ao serviço de Nosso Senhor e da sua Santa Mãe. Seria fazer
injúria ao poder e à bondade de Jesus e de Maria, que saberão bem
socorrer nossos parentes, amigos e benfeitores com nosso pequeno
rendimento espiritual, ou por outras vias. Segundo, esta prática não
impede absolutamente que se reze pelos outros, sejam mortos, sejam
vivos, embora a aplicação de nossas boas obras dependa da vontade
da Santíssima Virgem. Pelo contrário, nos fará rezar com mais
confiança, exatamente como uma pessoa rica, que tivesse doado todo
seu bem a um grande príncipe, para honrá-lo mais, rogaria com mais
confiança a este príncipe para que desse esmola a algum dos seus
amigos. Daria até prazer ao príncipe por proporcionar-lhe assim
ocasião de mostrar seu reconhecimento para com uma pessoa que se
despojou para revesti-lo, e que se fez pobre para o honrar. É
preciso dizer a mesma coisa de Nosso Senhor e de Maria Santíssima:
eles jamais Se deixarão vencer em gratidão.
133. Alguém dirá talvez: se eu
entrego à Santíssima Virgem todo o valor de minhas ações para que
o aplique a quem Ela quiser, talvez seja preciso que eu sofra muito
tempo no Purgatório. Essa objeção, que vem do amor próprio e da
ignorância da liberalidade de Deus e de sua Santa Mãe, se destrói
por si mesma. Uma alma fervorosa e generosa, que preze mais os
interesses de Deus do que os próprios, que dê a Deus tudo o que
tem, sem reserva, sem poder dar mais, que não deseje senão a glória
e o reino de Jesus Cristo por sua Santa Mãe, e que se sacrifique por
inteiro para alcançá-lo, essa alma generosa e liberal será mais
castigada no outro mundo por ter sido mais liberal e mais
desinteressada que as outras? De modo algum: é para com essa alma,
como veremos em seguida, que Nosso Senhor e sua Santa Mãe são muito
liberais neste mundo e no outro, na ordem da natureza, da graça e da
glória.
134. É preciso vermos agora, o mais
brevemente possível, os motivos que nos devem tornar esta devoção
recomendável, os efeitos maravilhosos que ela produz nas almas fiéis
e as suas práticas.