Que seja Jesus
Cristo único Mediador de justiça, a reconciliar-nos com Deus, pelos
seus merecimentos, quem o nega? Não obstante isto, compraz-se Deus
em conceder-nos Suas graças pela intercessão dos santos e
especialmente de Maria, Sua Mãe, a quem tanto deseja Jesus ver amada
e honrada.
Seria impiedade
negar semelhante verdade. Quem ignora que a honra prestada às mães
redunda em glória para os filhos? Os pais são as glórias dos
filhos, lemos nos Provérbios (17, 6) . Quem muito enaltece a mãe,
não precisa ter receio de obscurecer a glória do filho. Pois quanto
mais se honra a Mãe, tanto mais se louva o Filho, diz São Bernardo.
E observa Santo Afonso:
É tributada ao
Filho e ao Rei toda a honra que se presta à Mãe e à Rainha. Ao
mesmo tempo está fora de dúvida que pelos merecimentos de Jesus
Cristo foi concedida a Maria a grande autoridade de ser medianeira da
nossa salvação, não de justiça, mas de graça e de intercessão,
como bem lhe chamou Conrado de Saxônia com o título de "fidelíssima
medianeira de nossa salvação".
E São Lourenço
Justiniano pergunta:
"Como não ser
toda cheia de graça, aquela que se tornou a escada do paraíso, a
porta do céu e a verdadeira medianeira entre Deus e os homens?"
Portanto, bem
adverte Suarez:
"Quando
suplicamos à Santíssima Virgem nos obtenha as graças, não é que
desconfiemos da misericórdia divina, mas é muito antes porque
desconfiamos da nossa própria indignidade. Recomendamo-nos, por
isso, a Maria, para que supra sua dignidade a nossa miséria"
Que o recorrer,
pois, à intercessão de Maria Santíssima seja coisa utilíssima e
santa, só podem duvidar os que são faltos de fé. O que, porém,
temos em vista provar é que esta intercessão é também necessária
à nossa salvação. Necessária, sim, não absoluta, mas moralmente
falando, como deve ser. A origem desta necessidade está na própria
vontade de Deus, o qual pelas mãos de Maria quer que passem todas as
graças que nos dispensa. Tal é a doutrina de São Bernardino,
doutrina atualmente comum a todos os teólogos e doutores, conforme
assevera o autor do Reino de Maria.
Segue esta
doutrina Vega, Mendoza, Pacciucchelli, Segneri, Poiré, Crasset e
inúmeros outros autores. Até Alexandre Natal, aliás, tão
reservado em suas proposições, diz ser vontade de Deus que pela
intercessão de Maria esperemos todas as graças. Em seu apoio cita a
célebre passagem de São Bernardo:
"Esta é a
vontade de Deus, que recebamos tudo por meio de Maria"
Da mesma opinião
é também Contenson, como se vê do seu comentário às palavras de
Jesus, dirigidas a São João, do alto da cruz.
A necessidade da
intercessão de Maria provém da sua cooperação na Redenção. Uma
sentença de São Bernardo diz:
"Cooperaram
para nossa ruína um homem e uma mulher. Convinha, pois, que outro
homem e outra mulher cooperassem para nossa reparação. E estes
foram Jesus e Maria, sua Mãe"
Não há dúvida,
diz o Santo, Jesus Cristo, só, foi suficientíssimo para remir-nos.
Mais conveniente era, entretanto, que para nossa reparação
servissem ambos os sexos, assim como havia cooperado ambos para nossa
ruína. Pelo que Santo Alberto chamou a Maria cooperadora da
redenção. A própria Virgem revelou a Santa Brígida que assim como
Adão e Eva por um pouco venderam o mundo, assim também ela e seu
Filho com um coração o resgataram. Do nada pôde Deus criar o
mundo, observa Santo Anselmo, mas não quis repará-lo sem a
cooperação de Maria.
Nessa convicção
confirmam-nos muitos teólogos e Santos Padres. Injustiça fôra
afirmar que eles, como diz o sobredito autor, exaltando Maria tenham
caído em hipérbole e exagerações desmedidas. Tanto uma como outra
saem dos limites do verdadeiro. Não podemos, pois, atribuí-las aos
santos que falaram inspirados por Deus, que é espírito de verdade.
Permitam-me fazer
aqui uma breve digressão, para externar o que sinto. Quando uma
sentença de qualquer modo honrosa para a Santíssima Virgem tem
algum fundamento e não repugna à verdade, deixar de adotá-la e
combatê-la, porque a sentença contrária pode também ser
verdadeira, é indício de pouca devoção à Mãe de Deus. Não
quero estar, nem desejo ver meus leitores entre esses pouco devotos
de Maria. Desejo pelo contrário vê-los entre os que creem plena e
firmemente tudo quanto sem erro podem crer das grandezas de Maria,
segundo as palavras do abade Roberto, que conta semelhante fé entre
um dos obséquios mais agradáveis a Maria. Quando não houvesse
outro a nos livrar do temor de ser excessivo nos louvores de Maria,
bastava Pseudo-Agostinho para fazê-lo. Conforme suas palavras, tudo
quanto pudermos dizer em louvor de Maria, é pouco em relação ao
que merece por sua dignidade de Mãe de Deus. Confirma isto a Santa
Igreja, a qual faz ler na Missa da Santa Virgem as seguintes
palavras:
"Bem-aventurada
és tu, Santa Virgem Maria, e mui digna de todo louvor"
Voltemos, porém,
ao nosso assunto e vejamos o que dizem os Santos Padres sobre a
sentença proposta. Segundo São Bernardo, Deus encheu Maria com
todas as graças para que por seu intermédio recebam os homens todos
os bens que lhes são concedidos. Faz aqui o Santo uma profunda
reflexão, acrescentando:
"Antes do
nascimento da Santíssima Virgem, não existia para todos essa
torrente de graça, porque não havia ainda esse desejado aqueduto:
Maria foi dada ao mundo — continua ele — a fim de que por seu
intermédio, como por um canal, até nós corresse sem cessar a
torrente das graças divinas"
Diz Ricardo de
São Lourenço, nas mãos dela está nossa salvação, e, com mais
direito que os egípcios a José, podemos nós, cristãos, dizer à
Santíssima Virgem: Nossa Salvação está em tuas mãos! O mesmo
escreve o abade
de Celes:
"Em tuas mãos
foi colocada nossa salvação"
Em termos mais
enérgicos acentua-o Pseudo-Cassiano, quando diz sem ambages que a
salvação depende dos favores e da proteção de Maria. Quem é
protegido por ela, se salva; perde-se quem o não é. Isto leva São
Bernardino de Sena a exclamar:
"Ó Senhora,
porque sois a dispensadora de todas as graças, e só de vossas mãos
nos há de vir a salvação, de vós também depende nossa salvação"
E por isso, razão
tinha Ricardo ao escrever:
"Assim como a
pedra cai logo que é tirada a terra que a sustém, assim uma alma,
tirado o socorro de Maria, cairá primeiramente no pecado e depois no
inferno"
Deus não nos há
de salvar sem a intercessão de Maria, assevera São Boaventura;
pois, assim como uma criancinha não pode viver sem a ama, da mesma
forma ninguém se pode salvar sem a proteção de Maria. Tenha por
conseguinte a tua alma, exorta o Santo, uma verdadeira sede de
devoção a Maria; conserva-a sempre, não a deixes até que vás
receber no céu a maternal benção de Maria.
Ó Virgem
Santíssima, exclamava São Germano, ninguém pode chegar ao
conhecimento de Deus senão por vós, ó Mãe de Deus, Virgem Mãe, ó
cheia de graça!
E de novo:
"Se não nos
abrísseis o caminho, ninguém escaparia às solicitações da carne
e do pecado"
Como só por meio
de Jesus Cristo temos acesso junto ao Pai Eterno, igualmente, observa
São Bernardo, só por meio de Maria temos acesso junto a Jesus
Cristo. E a tal resolução de Deus, isto é, que sejamos salvos por
intermédio de Maria, dá o Santo este belo motivo:
"Por meio de
Maria receba-nos aquele Salvador, que por meio dela nos foi dado!
Dá-lhe, por isso, o nome de Mãe da graça e da nossa salvação"
Que seria, pois,
de nós, indaga São Germano, que esperança nos restaria de
salvação, se nos abandonásseis, ó Maria, ó vida dos cristãos?
EXEMPLO
Lê-se nas
Revelações de Santa Brígida que havia um senhor tão nobre pelo
nascimento como vil e depravado pelos costumes. Fizera pacto expresso
com o demônio, a quem havia servido como escravo durante sessenta
anos seguidos, sem se aproximar dos Sacramentos, e levando a pior
vida que se pode imaginar. Ora, estando para morrer esse fidalgo,
Jesus Cristo, para usar com ele de misericórdia, ordenou a Santa
Brígida que pedisse a seu diretor espiritual que o fosse visitar e
exortar a confessar-se. O padre foi, mas o doente respondeu que já
se tinha confessado muitas vezes, não necessitando mais de
confissão. Foi segunda vez, porém o infeliz escravo do inferno
obstinou-se na sua impenitência. Jesus de novo disse à Santa que o
padre não devia desanimar. Este voltou terceira vez e referiu ao
doente à revelação feita à Santa, dizendo-lhe que tinha voltado
por ordem do Senhor, o qual queria usar de misericórdia em seu
favor. Isto ouvindo, o infeliz começou a enternecer-se e a chorar.
— Mas como,
(exclamou em seguida), poderei ser perdoado? Durante sessenta anos
servi ao demônio, e dele me fiz escravo e tenho a alma tão
carregada de inúmeros pecados!
— Filho,
respondeu-lhe-o padre, animando- o, não duvides; se te arrependeres,
prometo-te o perdão em nome de Deus.
Começando então
a ter confiança, disse o infeliz ao confessor:
— Meu Pai, eu
me julgava condenado e desesperava da minha salvação; mas agora
sinto uma dor de meus pecados, que me anima a ter confiança.
Com efeito,
confessou-se no mesmo dia quatro vezes, com muita contrição. No dia
seguinte comungou, e morreu seis dias depois, muito contrito e
resignado. Depois de sua morte, Jesus Cristo falou de novo a Santa
Brígida e disse-lhe que aquele pecador se tinha salvado, que estava
no purgatório, e devia a salvação à intercessão da Virgem, sua
Mãe, pois apesar da vida perversa que levara, tinha conservado a
devoção as suas dores, recordando-as sempre com compaixão.
ORAÇÃO
Ó minha Mãe
suavíssima, qual será a morte de um pobre pecador como eu? Quando
penso naquele terrível momento em que devo expirar e comparecer ao
tribunal divino, tremo e fico todo confuso, e muito duvido da minha
salvação eterna, lembrando-me de que eu mesmo escrevi a sentença
de minha condenação.
Ó Maria, no
sangue de Jesus e na vossa intercessão ponho toda a minha esperança.
Sois a Rainha do céu, a Soberana do universo, numa palavra, sois Mãe
de Deus. É verdade que sois muito elevada em dignidade; mas vossa
grandeza não vos afasta de nós, senão que faz com que tenhais
ainda mais compaixão de nossas misérias. Quando elevados a alguma
dignidade, abandonam os amigos do mundo e desprezam seus antigos
companheiros caídos no infortúnio. Mas vosso coração tão amoroso
não procede assim. Mais se empenha em aliviar, onde maiores misérias
descobre. Assim que vos invocamos, vindes em nosso socorro; prevenis
até nossas preces com vossos favores. Vós nos consolais nas
aflições, dissipais as tempestades e venceis os inimigos. Em suma,
nunca perdeis ensejo de trabalhar para nosso bem. Bendita seja para
sempre aquela divina mão que em vós aliou a tanto amor tanta
grandeza, tanta majestade e tanta ternura. Agradeço-o sem cessar ao
Senhor e sobre isso me alegro. Pois em vossa felicidade encontro a
minha também, e considero minha a vossa ventura. Ó consoladora dos
aflitos, consolai uma alma aflita que a vós se recomenda. Aflito
estou por causa dos remorsos de uma consciência tão sobrecarregada
de pecados.
Não sei se os
tenho chorado como devia. Vejo todas as minhas obras cheias de
defeitos e manchas. O inferno só espera por minha morte para
acusar-me; a justiça divina ultrajada quer ser satisfeita. Que será
de mim, minha mãe? Se não me ajudardes, estou perdido. Que dizeis,
quereis ajudar-me? Ó Virgem piedosa, consolai-me; obtende-me
verdadeiro arrependimento de meus pecados, alcançai-me força para
emendar-me e ser fiel.